O alimento na religiosidade zen budista

Data de publicação: 03/01/2019

Nas religiões orientais há vários rituais dos quais os alimentos fazem parte, assim como em quase todas as religiões. As famílias japonesas de tradição zen-budista costumam ter em suas casas um butsudan – altar–, contendo uma imagem de Buda, tabletes memoriais, ou ihai, com os nomes dos antepassados e outros familiares falecidos, vela, incensário e vaso para flores. Há também uma taça para a oferta de água. Diariamente, alguém da família troca a água, acende a vela, oferece incenso e faz a leitura de um sutra – texto sagrado budista –, em frente ao altar. Pode ser que se ofereça também um pouquinho de arroz e, frequentemente, se oferece uma fruta, como maçã, pera, laranja, ou algum doce.
Uma vez ao mês, asfamílias recebem um monge, que faz a leitura de sutras para os antepassados. Nessas ocasiões, outros membros da família talvez participem desta pequena cerimônia. Neste dia a oferta de uma refeição é feita usando um conjunto de pratinhos especiais. Nos mosteiros, os monges usam um conjunto de tigelas – oryoki – para comer e as refeições são acompanhadas da recitação de versos, relembrando o esforço de trabalhadores no plantio, colheita e transporte dos alimentos.
As duas refeições principais nos mosteiros são o café da manhã e o almoço. Quando a comida está pronta, o cozinheiro chefe – tenzo – prepara uma oferta desta comida em tigelas de tamanho reduzido e a coloca numa bandeja alta chamada sambô. Ainda na cozinha, o tenzo coloca a oferta sobre a mesa, oferece incenso e faz nove prostrações. Então leva o sambô com a oferta até a sala de meditação, onde ela será colocada no altar, como uma oferta à memória de Buda. No momento do almoço, os monges colocam um pouquinho de arroz como uma oferta especial – sabá – para alimentar os gaki – espíritos famintos. Todo dia, no serviço vespertino, recitam, de uma forma simples e sem oferendas, o sutra do Portal da Doce Néctar – Kanromon –, simbolicamente oferecendo alimento novamente aos espíritos famintos. Este sutra é composto de três partes:
 1a) Saudação aos Budas do Passado, ao Darma e à Sanga, ao Shakyamuni Buda, à Kannon Bodisatva e ao Venerável Ananda, que são convidados a ocuparem o âmbito purificado para presenciar e dar aprovação à cerimônia.
2a) Oferta aos espíritos famintos de comida e bebida, para que se tornem satisfeitos e se despertem à prática e aos ensinamentos de Buda.
3a) Recitação da Palavra Verdadeira – Shingon – e boas-vindas aos cinco Tatagatas – Go Nyorai – para conduzir todos os espíritos do mundo de sofrimento à Terra Pura.


Quem são estes espíritos famintos?
O conceito de espíritos famintos já fazia parte da cultura da Índia antiga, num período anterior ao Budismo, e pode ser encontrado em várias religiões. No Budismo, a tradição de “alimentar os espíritos famintos” começou na Índia e passou para os outros países, como China, Tibete, Japão, Tailândia etc., na expansão dos ensinamentos budistas. De acordo com o Ullambama Sutra, um dos monges-discípulos de Buda, o Maudgalyāyana tinha o poder de clarividência. Um dia, viu a sua mãe, que havia sido uma pessoa gananciosa e ciumenta durante toda a vida, sofrendo num dos infernos. Havia se tornado um espírito faminto, um ser com uma barriga enorme, braços e pernas magros e um pescoço finíssimo como um palito. Devido ao pescoço tão fino, não conseguia engolir comida suficiente para satisfazer a sua fome, sentindo-se “faminto” o tempo todo. O Buda instruiu este monge a fazer uma oferta de alimentos à comunidade monástica no dia depois do final do retiro de verão tradicional dos monges.
Assim que foi feito a oferta, o Maudgalyāyana viu, através de clarividência, que a sua mãe já estava livre de seu sofrimento e renascendo no mundo dos humanos. De tão alegre, ele dançou – o que deu origem a um tradicional modo japonês de dançar chamado Bon Odori.
Na China, devido à influência do confucionismo e taoísmo, a oferta passou a ser direcionada também aos antepassados. No taoísmo, acreditava-se que pessoas que sofriam mortes violentas se tornavam espíritos famintos. Ou seja, deixar de realizar os serviços em memória dos antepassados com ofertas de alimentos levava-as a virar espíritos famintos que poderiam causar dificuldades para os vivos. Isso, durante o sétimo mês lunar, período durante o qual se acredita que os portões dos infernos se abrem e os espíritos vêm a terra em busca de comida e entretenimento.

Os chineses realizam, até hoje, o Festival dos Espíritos Famintos, quando oferecem alimentos e diversões, como música e danças aos antepassados, sendo que nas apresentações as primeiras fileiras de assentos são reservadas para os espíritos famintos e ficam vazias. Desde 657, os budistas japoneses observam o O-bon, a versão japonesa desse festival chinês. Atualmente, nos dias 13 a 15 do mês de julho ou de agosto, conforme a região no Japão, as famílias se reúnem para esta celebração. É um feriado nacional, quando todos procuram viajar até o local de seus ancestrais, para visitar o túmulo da família e participar da cerimônia religiosa de alimentar os Sejiki-e – espíritos. No dia 13, pequenos fogos são acesos, para servir de guias para os antepassados voltarem à casa da família para uma visita durante três dias. Os monges budistas fazem a visita habitual em frente do altar da família, que está montado de uma forma especial com ofertas especiais de alimentos para este período festivo. Dança-se o Bon Odori, que lembra a dança do monge Maudgalyāyana, a fim de dizer aos ancestrais que não se preocupem com seus descendentes, pois estão bem.

Para a Cerimônia Religiosa de Alimentar os Espíritos, o templo é decorado com faixas coloridas, e um grande altar – Obon-dana ou Tama-dana – é montado à entrada do templo para facilitar a chegada de espíritos vindos dos infernos e que podem sentir medo de chegar perto do altar principal onde tem a imagem de Buda, um ponto de muita luz. Uma grande variedade de alimentos é colocada sobre este altar: verduras, frutas e produtos alimentícios secos, além de três tigelas especiais: uma com arroz cozido, outra com água limpa e a terceira com uma mistura de arroz cru, lavado e misturado com pequenos pedaços de verduras picadas – mizunoko. Ramos de cedro verde ou de bambu são amarrados em pé nos quatro cantos deste altar.

No centro do altar, é colocado um tablete memorial especial com as palavras San Gai no Ban Rei, isto é, para todos os espíritos nos três mundos. Esse ritual é dedicado aos espíritos que depois da morte não têm quem cuide de suas sepulturas, pois não mantêm nenhum relacionamento com qualquer pessoa viva. Na cerimônia, é recitado o sutra Kanromon, durante o qual o oficiante faz um ritual de chamar os espíritos famintos e preparar um alimento especial que é dado a eles. As oferendas são expressões de gratidão aos antepassados, pois além da função de “alimentar os espíritos famintos”, esta é uma cerimônia de lembrança dos antepassados. Assim, os tabletes memoriais dos ancestrais das famílias que estão participando da cerimônia também são colocados neste altar e os seus nomes são lidos durante a cerimônia.
No último dia do O-bon, lanternas de papel – chôchin – são lançadas nos rios para iluminar o caminho de retorno para os ancestrais. Uma cerimônia semelhante é realizada nos equinócios, também com oferendas de vários tipos de alimentos. Talvez o aspecto mais importante destas cerimônias esteja no aprender a alimentar o espírito faminto que há dentro de nós. Todos têm um lado ganancioso, insaciável, e muitos não abrem o coração para receber ajuda. Ficam insatisfeitos, sempre querendo mais – um novo celular, um novo jogo, uma nova roupa, um novo par de tênis, mais dinheiro... Ao realizar as cerimônias de alimentar os espíritos famintos, na verdade, se está cuidando de si mesmo, para que possa ficar satisfeito. Ao colocar oferendas de alimentos no altar se está alimentando a si mesmo, a fim de descobrir o contentamento e, assim, realizar o caminho de Buda e encontrar a paz e a tranquilidade.

* Isshin Havens
Monja zen-budista formada no mosteiro feminino de Nagoya, no Japão. Membro colaborador do Colégio Budista Brasileiro e orientadora espiritual do grupo budista Sanga Águas da Compaixão, em Porto Alegre (RS).






 
 
 

Fonte: Diálogo n 63 Ago/Set 2011
Postado por: Diálogo




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