A ótica literária sobre a morte

Data de publicação: 03/01/2019

Por, Andréa Beatriz Hack de Góes*

Como dizia Machado de Assis “se a morte é certa, por que viver alguns dias mais? E é vida isso, ou é morrer aos goles, sem consciência do que se perde nem do que vai ganhar?”. A morte é um tema presente inelutavelmente na vida humana, e, como se costuma dizer, “é a única certeza que todos temos nesta vida”. Mas, justamente por seu caráter definitivo e inexorável, ela representa também um grande tabu, sobre o qual geralmente ninguém gosta de falar nem pensar, na ingênua ilusão de que, evitando-a, é possível “fugir” dela. Até que se apresenta, fatídica e inescapável, através de vários acontecimentos, entre eles um acidente, tragédia coletiva, cataclisma, guerra, pandemia, entre outros, ou simplesmente a velhice avançada, um mal súbito, que tira de nosso convívio um ente querido e nos faz ter consciência abrupta e arbitrária de nossa fragilidade e finitude. A morte é a sentença que desfaz num rápido instante toda a superioridade e projeto humano, retratando sua incapacidade e impotência diante da hora fatal.
 A Literatura, enquanto interlocutora e tradutora crítica e estética da experiência humana, não poderia deixar de abrigar e abordar essa temática tão delicada, difícil e ao mesmo tempo fascinante: a morte. A Literatura fornece e apresenta diferentes caminhos de aproximação e reflexão sobre esse assunto tão complexo e arbitrariamente presente na vida do homem, ajudando-o a “lidar” com ela. Cabe salientar que, não obstante o fato de a presença da morte dentro do ciclo da vida ser algo imutável, seu papel e lugar na sociedade sofreu grandes alterações, também refletidas pela Literatura.

Antes e hoje, a realidade da morte
Antigamente a morte, em boa parte dos casos, nos quais se excluem as mortes violentas e acidentais, geralmente instantâneas, ocorria mediante um processo que incluía um período de preparo, tanto para a família quanto para o que então morria e para a despedida. A pessoa adoecia, por um tempo mais ou menos prolongado, e costumava ser tratada em casa, assistida pelos familiares e, cercada por eles, num ambiente de tristeza, naturalmente, mas também de aconchego, e depois partia.
 Após essa realidade, os parentes viviam um período de luto, que se expressava socialmente na vestimenta, normalmente preta, e na abstenção de certas atividades e comportamentos, como deixar de ir a festas e celebrações, de ouvir música, falar baixo ou guardar silêncio etc. No que concerne à religiosidade, até hoje é costume realizar uma cerimônia ou ritual religioso, como um culto, missa, momento de meditação ou rezas, a depender da crença religiosa do morto e de seus familiares. Porém, na atualidade o que mais ocorre é as pessoas morrerem sozinhas, em hospitais, apenas na companhia de tubos e aparelhos, ou, quando muito, de médicos e enfermeiros estranhos, tão assépticos quanto as medicações e equipamentos. Os velórios e enterros acontecem cada vez em menos tempo, como medida de precaução higiênica, e devido à correria da vida moderna.
Como observa o escritor português José Saramago (1922-2010) no livro Intermitências da morte, numa crítica mordaz à frieza e esvaziamento de sentido da sociedade moderna, muitas vezes a morte é esperada ansiosamente, já que o doente, ou moribundo, apenas representa gastos financeiros com remédios e tratamentos, e de tempo para quem precisa cuidá-lo. O autor observa que os velórios, que antigamente tinham uma conotação social de compartilhamento de uma hora difícil e apoio emocional mútuo, hoje se transformaram em uma obrigação social desagradável, pois ninguém sabe o que dizer, e sempre tem tantas coisas a fazer. Dessa forma, o melhor é que o morto desapareça o mais rapidamente possível. Porém, o que a maioria das pessoas esquece, mesmo nessas horas, é que tudo isso se repetirá, geralmente com poucas variações, com elas mesmas, quando chegar a sua hora. Hora essa da qual ninguém escapará.
Convém observar brevemente como a temática da morte é abordada e desenvolvida pela Literatura enquanto representação humana dos costumes e crenças cultivados em sociedade. Isso demonstra de que maneira a própria Literatura também nos ajuda a aceitar, refletir e até mesmo conviver com a morte. Segundo Fábio Melo, autor do artigo “A morte na Literatura”, publicado num site da internet, engana-se quem pensa que a temática da morte só teve lugar na Literatura a partir do ultrarromantismo e do romance gótico. Ele esclarece que a morte sempre esteve presente, de diferentes maneiras e com significados diversos, em todas as épocas da Literatura ocidental.

Imagens figuradas para representar a morte
 Na Literatura brasileira, os poetas foram os que mais abordaram a questão da morte, metaforizando-a e personificando-a de diversas maneiras. Alphonsus de Guimarães, Manuel Bandeira, Álvares de Azevedo e Carlos Drummond de Andrade apresentaram-na como sono, pois quem morre e quem dorme igualmente deita, fecha os olhos e fica imóvel; como escuridão ou trevas, remetendo ao clima de superstição e medo que marcou a Idade Média, assim como um mistério, do qual ninguém foge e nem pode explicar.
 Também representaram a morte como o destino final ou fim, o que demonstra a Teoria Materialista ou Monista, segundo a qual não existe vida após a morte. Outra imagem interessante da morte é a de viagem, uma passagem da vida terrena para a eterna. Essa ideia reflete a chamada Teoria Teológica, oriunda do cristianismo, judaísmo e islamismo, que prega a existência do céu e do inferno e de outra vida após a morte, determinada pela conduta adotada na vida terrena.
 Os bons, ou aqueles cujos pecados foram redimidos, vão para uma eternidade de delícias celestiais; os maus, ou pecadores, terão de suportar os tormentos como castigo no Inferno. Há ainda a metáfora da morte como renascimento, expressa na doutrina da reencarnação, segundo a qual cada pessoa passa por sucessivos renascimentos físicos, tendo diferentes experiências de vida, a fim de alcançar a perfeição espiritual.
A morte também já foi materializada na Literatura brasileira como mulher: noiva, pastora, Dama Branca, Indesejada das Gentes etc. Na prosa, um dos clássicos mais famosos é Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, que também privilegiou a temática da morte em outras obras. Nesta, o autor elege como narrador um “defunto-autor”, ou “autor-defunto”, que em espírito se levanta do caixão, onde o corpo físico permanece deitado, e passa a relatar a própria história, numa catarse narrativa regada de ironia e melancolia. Assim como Saramago em Intermitências da morte, também Machado busca desmistificar a morte, já que ela, segundo o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940), “é a sanção de tudo o que o narrador pode contar. É da morte que ele deriva sua autoridade”.
Podemos concluir que, através da Literatura, o homem pode enfrentar e até mesmo dialogar com a morte, fazer sua própria catarse, a exemplo de Brás Cubas. Assim, mais uma vez, a Literatura se consagra como o mágico espaço onde tudo é possível e permitido, inclusive viver e morrer. E o que seria de nós sem essa intermediação essencial proporcionada pela ficção, que ameniza e ao mesmo tempo nos prepara e fortalece para a inexorabilidade da vida real?

* Andréa Beatriz Hack de Góes
É doutora em Letras pela Universidade Federal da Bahia.

Referências bibliográficas
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. In: ___. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. vol. 1.
BENJAMIN, Walter. O narrador. In: ___. Magia e técnica, arte e política: obras escolhidas. Tradução Sérgio P. Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985. vol.1. p.197-221.
CARVALHO, Vanessa Sales; LIMA, Silvana Maria Calixto de (Orientadora). As metáforas da morte na poesia de autores da literatura brasileira: Uma abordagem linguístico-cognitiva – disponível no site www.uespi.br
 MELO, Fábio. “A morte na Literatura”. Disponível em: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/366731.



 

Fonte: Diálogo n 62 Mai/Julho 2011
Postado por: Diálogo




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