Sangue novo no velho continente

Data de publicação: 30/01/2019


Por, Alfredo José Gonçalves *

O número de migrantes que desembarcou na Europa somente no ano de 2015 ultrapassa 1,2 milhão de pessoas, com presença marcante de mulheres e de menores desacompanhados.

Êxodo
A maior parte dos que entram na Europa emigraram do Iraque, da Síria e de outros países do Oriente Médio, que atravessam as fronteiras da Turquia, Grécia, Sérvia, Macedônia, Hungria e Áustria. Outros, vindos do norte da África, cruzam o Mediterrâneo até os portos da Ilha de Malta ou do sul da Itália, e, nessa travessia, mais de 3 mil pessoas perderam a vida, incluindo não poucas crianças. Tudo indica que o ritmo está se mantendo em 2016, enquanto alguns estudiosos garantem que deverá se prolongar por vários anos. O que ocorre na Europa se repete, em maior ou menor grau, em outras regiões, e a Organização das Nações Unidas (ONU) calcula em cerca de 40 a 50 milhões o contingente de emigrantes, migrantes e refugiados em trânsito no planeta.
Diante de semelhante êxodo que nas últimas décadas alimentou as conversas de rua, esteve presente na pauta dos governos e ocupou espaço na mídia, duas perguntas nos interpelam: uma a partir da origem, outra a partir do destino.
Origem da fuga
A partir da origem, perguntamos: por que os emigrantes deixam seus países? Via de regra, as causas têm dupla natureza. Por um lado, a violência armada em algumas regiões da Ásia, do Oriente Médio e da África, conflagrada por motivos políticos, econômicos, ideológicos ou religiosos, desloca milhões de refugiados, com destaque para a Síria, o Afeganistão, o Iraque e a Líbia, entre outros. O conceito de refugiado caracteriza-se pelo fato de a pessoa não poder voltar atrás, porque a perseguição, prisão e morte costumam ser o preço do retorno, o que provoca o desespero de alcançar o continente europeu a qualquer custo. Por outro lado, a miséria e a fome multiplicam o número dos “fugitivos”.
Tudo isso cria um cenário desolador que expulsa e joga na estrada e na incerteza do futuro uma quantidade crescente de jovens e de famílias inteiras. Trata-se, no fundo, de uma fuga que, quando bem-sucedida, pode se transformar em nova procura de um lugar ao sol. Não raro, porém, o sonho se converte no pesadelo da morte no mar ou do trabalho informal, pesado, perigoso, às vezes semiescravo, e sempre mal remunerado, dos migrantes que conseguem se estabelecer nos porões dos países europeus.
Entretanto, as duas motivações apontadas – guerra e pobreza – se entrelaçam de tal forma que é praticamente impossível distinguir refugiados de migrantes. Daí a insistência das Igrejas e de outras organizações da sociedade civil no sentido de acolher a todos indistintamente, uma vez que muitos governos tendem a selecionar os melhores qualificados, relegando os outros ao degredo ou ao retorno obrigatório. Uma verdadeira política ou legislação migratória, no território europeu atual, precisa levar em conta as duas situações, sem discriminar ou criminalizar os migrantes, para receber unicamente os refugiados.
Destino incerto
A partir do destino, o que representa a migração para a União Europeia? Verifica-se uma grande diversidade de opiniões e atitudes. Para os representantes dos governos, embora em formas diferenciadas, a “emergência migratória” constitui um problema a ser administrado com certa urgência.
Alguns países optam por erguer novos muros e cercas outros rechaçam qualquer tipo de acolhida. E outros, ainda, tentam levar adiante a política de cotas.  A grande mídia procura vender uma imagem sensacionalista e fazer de tudo um espetáculo. Cenas de mortos por afogamento ou de barcos apinhados de gente enchem as páginas dos jornais e a tela da televisão. Com isso, de forma implícita ou explícita, se espalha o pânico, como se os migrantes fossem um risco à ordem pública. Além disso contrapõem-se, nos países de destino, os grupos simpatizantes e os grupos hostis, gerando às vezes um falso debate sobre os estrangeiros que chegam. Tudo isso traz muita confusão entre os direitos dos refugiados, por um lado, e as necessidades básicas dos migrantes, por outro.
Os setores mais radicais e a Direita política tentam semear terror, através de uma sistemática criminalização dos migrantes. Nesses casos, o fato de emigrar do país de origem se torna pura e simplesmente, um delito que deve ser punido com a repatriação, uma ameaça que pesa sobre todos os indocumentados.

Sangue novo
A verdade é que, do ponto de vista administrativo, os migrantes, onde chegam, representam um problema e uma solução. A solução vem ao encontro da necessidade de mão de obra para determinados serviços. Nesse caso, abre-se a porta dos fundos, incentivando clandestinamente o trabalho subterrâneo. Mas quando chegam a crise e o desemprego, os migrantes passam a ser um problema, sendo necessário fechar-lhes as fronteiras. Nos dois casos, raramente é aberta a porta da frente, que é direito à cidadania. Numa palavra, os governos, de modo geral, requisitam e aceitam trabalhadores braçais ou técnicos especializados, mas seguem tendo muitas reservas quanto a aceitar novos cidadãos.
Da parte das populações europeias, o que se vê nas ruas e nos corações são dois sentimentos antagônicos, o medo e a vontade de fazer algo pelas pessoas que chegam. Guiados, em maior ou menor grau, pela mídia e pelas autoridades, os cidadãos alternam o desconforto e a solidariedade. Nesse caso, o migrante não é visto como problema, mas, em geral, como uma chance de intercâmbio e de encontro cultural. Abrem-se as possibilidades de uma mútua interpelação e de um crescimento recíproco.  O outro, o estranho e o diferente são como o sangue novo num organismo sempre mais decrépito ou como o oxigênio primaveril numa sociedade que, até agora, caminhava a passos rápidos para o outono.

* Alfredo José Gonçalves
É sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos. Foi diretor do Centro de Estudos Migratórios (CEM), de São Paulo (SP), e assessor da Pastoral Social na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Atualmente, em Roma, exerce o cargo de vigário geral da congregação.

Silenciados e invisíveis
“Vou contar o que não sai nas notícias”, diz a missionária argentina irmã Maria Guadalupe Rodrigo, da Congregação do Verbo Encarnado, sobre a atual guerra na Síria, principal nação de origem dos migrantes e refugiados que entram na Europa.
Atuando há 20 anos no Oriente Médio, a missionária vive, desde 2011, em Allepo, cidade síria milenar, de grande importância econômica e cultural, com 5 milhões de habitantes, sitiada há cinco anos e semidestruída pelos rebeldes islâmicos. Financiados, treinados e armados por grandes potências mundiais, esses grupos tentam derrubar o regime político laico do país e implantar a lei islâmica. “Antes da guerra, iniciada em 2011, a Síria era um país tranquilo no qual a minoria cristã não sofria muito com a perseguição e o isolamento, comuns nos outros países árabes. Lá, ao contrário, cristãos e muçulmanos viviam como amigos”, conta a religiosa, em palestras amplamente divulgadas pela Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre. 
“Por que tanta guerra? Qual é o interesse?”, pergunta ela, interpretando a inquietação de muitos. E responde, referindo-se à Síria como “o nosso país” e arriscando a vida por se fazer a voz dos silenciados: “A Síria é um território rico em petróleo e estratégico no Oriente Médio. A até pouco tempo, era passagem obrigatória para o comércio entre Europa, Africa e Ásia. Economicamente
independente e próspera, não tinha dívidas externas nem precisava da ajuda dos poderosos das grandes potências”. O país é governado há cerca de 50 anos pela dinastia al-Assad, uma tribo filiada à corrente islâmica minoritária alauita, tradicionalmente moderada, por isso a República Árabe da Síria tem uma Constituição laica, diferente da lei islâmica, e não combate a diversidade religiosa da população.
“Isso faz com que a Síria seja malvista pelos países fundamentalistas, pelos governos extremistas e pelos grupos terroristas. É importante entender como se confundem várias coisas nesse conflito: por um lado, temos interesses políticos e econômicos de grandes potências mundiais (França, Estados Unidos e Rússia); por outro, os grupos terroristas de países vizinhos tentam derrubar o regime sírio e impor a lei islâmica. Em síntese, temos as grandes potências utilizando esses grupos, financiando e apoiando o terrorismo, com intuito de desestabilizar econômica e politicamente o governo do presidente Bashar al-Assad”, conclui a religiosa. E continua: “É preciso lembrar que o Ocidente julga o mundo árabe com mentalidade ocidental. Muitos dizem: ‘Pobre gente, por 50 anos debaixo de uma ditadura, precisa de democracia’, porém esse povo sempre viveu em paz, porque possui outra mentalidade, outra cultura; se faltava suficiente liberdade de expressão, não faltava trabalho e segurança, era um país muito tranquilo. É importante entender que quando a mídia diz que o povo sírio sai às ruas porque não aguenta mais a pressão da ditadura (ideia lançada pela França em 2011), é uma notícia falsa. As manifestações civis nas ruas foram protestos contra os grupos terroristas estrangeiros, mas a grande imprensa internacional as interpretou falsamente, como se fossem contra o governo de Assad. Houve, sim, alguns grupos de oposição, depois utilizados pelos terroristas, mas eram grupos minoritários, de 2% da população”, finaliza a missionária.
Falando dos ataques à cidade que tem como segunda pátria, a irmã desabafa: “Allepo, em relação ao mundo árabe, era uma cidade avançada e ocidentalizada, com muita qualidade de vida; o que, de um dia para o outro, se converteu em escombros. A cidade mudou de aparência, teve as árvores reduzidas a galhos secos porque os habitantes cortavam as folhagens para cozinhar. Pessoas de classe média e alta, que viviam muito bem, chegaram ao ponto de comer as árvores da cidade. As crianças, em vez de colecionarem figurinhas, como fazem todas as crianças do mundo, colecionam projéteis de vários calibres, detonados por franco-atiradores, que recolhem, ainda quentes, pelas ruas. Este é o ambiente em que vivem hoje as crianças sírias”.
(trechos da gravação postada em 19 de dezembro de 2015, com o título Conferencia Testimonio de la Hna. Maria Guadalupe Rodrigo, no site da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre, em espanhol: www.ain-es.org/videos/default.aspx?id=251).

Você sabia?
A população síria atual é de 23,3 milhões de habitantes.
Destes:
•    Cerca de 4 milhões vagam pelo país sem ter para onde ir.
•    9 milhões já deixaram o território como emigrantes ou refugiados.
•    470 mil morreram na guerra, por bombardeios, alvos de franco-atiradores ou pela fome: 250 mil militares ou rebeldes e 220 mil civis, sendo mais de 12 mil crianças.
Atualmente, no mundo, 232 milhões de pessoas vivem fora do país de origem, sendo 50% delas menores de idade.

(Dados do Relatório da Migração no Mundo em 2015 (texto em inglês: http://publications.iom.int), publicado pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), com sede em Genebra, na Suíça – www.iom.int)

Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mais de 10 mil crianças e adolescentes migrantes registrados nas fronteiras da Europa como desacompanhados estão desaparecidos, o que causa suspeita de tráfico humano para escravidão sexual e trabalhos forçados. 

Celebrado desde 1915, 17 de janeiro é o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, promovido pelo Vaticano através do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes.

Mãos à obra
Assista, debata, divulge, compartilhe!

Testemunho da Irmã Guadalupe legendado, em português www.youtube.com/watch?v=HFArFx4za0k

Cristãos sírios nas redes sociais: www.soscristianosensiria.wordpress.com, em espanhol; www.facebook.com/AjudaAIgrejaQueSofre
Programas da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre – no Brasil: A Igreja pelo Mundo e Onde Deus Chora. Veiculado no rádio: Rede Milícia SAT e Rede Evangelizar; na televisão: Rede Vida, Canção Nova, Século 21, TV Nazaré e TV Horizonte
Site da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre, em português: www.ais.org.br; em espanhol: www.ain-es.org

Fonte: Revista Dialogo Abril/Junho de 2016
Postado por: Diálogo




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