Autismo digital

Data de publicação: 14/06/2019

Por, Marcelo Cabral *

Na sociedade contemporânea, globalizada e interligada pelas redes sociais, acontece um fenômeno curioso que ressalta o olhar de todo observador. Desde o mercantilismo, quando as civilizações começaram a ter um contato pessoal e comercial, o contato entre os povos foi decisivo nas mais diversas formas de interesse, desde a exploração econômica até mesmo em relações afetivas. Com o individualismo oriundo da sociedade burguesa, impulsionado por uma economia consumista, o básico entre os seres humanos começou a se perder.
Diversas tradições culturais desde os antigos povos indígenas do continente americano, bem como civilizações do Oriente e os cristãos, todos esses grupos sociais têm um elo em comum: a vida em sociedade, em grupos. Ora, sabe-se que o ser humano é um ser social, não vive sozinho. Para viver em sociedade, ele precisa viver em grupos, pois a partir daí constrói sua identidade.
Percebemos, nos dias de hoje, que o mundo high-tech vem trazendo uma espécie de isolamento social entre grande parte das pessoas que comungam da esfera do virtual, e os mais atingidos são os jovens, que ficam à deriva de sua afetividade transpondo-a para o universo do cibernético. A esse fenômeno social é que vamos classificar aqui como mera forma de representação, ou seja, autismo digital. O autismo é uma patologia da ordem do mental que tem uma característica bem próxima com o fenômeno aqui estudado: o recolhimento.
O termo autismo foi criado em 1907 por Eugen Bleuler e derivado do grego auto (o si mesmo), para designar o ensimesmamento psicótico do sujeito em seu mundo interno e a ausência de qualquer contato com o exterior. Diante dessa definição do espectro autista, parece mais fácil entender o fenômeno social aqui apresentado. Partindo da ordem do psiquismo para o social, fatalmente podemos associar essa mesma ordem, só que de forma inversa como causadora de uma patologia social contemporânea.
Em tempos atuais, diversas pessoas, especialmente os jovens, são seduzidas pelo encanto de uma serpente que é muito atraente, pois sua companhia é sempre presente, estando a pessoa em qual lugar ou situação. De certa forma, o mundo contemporâneo é um mundo vazio. As pessoas, em sua maioria, estão preocupadas com seu interesse particular, tudo é muito veloz, não há tempo para vínculos afetivos e sociais. Diante dessa prática, os seres humanos vivem dentro de um casulo e, quando conseguem sair desse entorno, desabam, pois não conseguem voar.
A importância do toque físico
Diversos grupos sociais, especialmente os jovens, são seduzidos por aplicativos digitais, e a esfera virtual toma conta da vida do adolescente. Toda e qualquer demanda, seja do afeto como do biológico, é resolvida através de um toque, o toque do dedo sobre a tela. O mais assombroso é que se tocam os dedos, mas o principal entre os seres humanos, que é o contato físico, no limite o encontro de almas não acontece, ficando dessa forma o ser humano cego para os laços afetivos reais da vida.
Entendemos todo esse processo social como sendo o autismo digital. Assim como o autista, que se fecha em seu mundo e muitas vezes não permite o contato de outra pessoa, o autista digital também se fecha em seu mundo, não permitindo qualquer outro tipo de contato, apenas o virtual. Sem dúvida alguma, esse fenômeno social é a fábrica de inúmeras complicações afetivas, pois, não sabendo o ser humano lidar com seu semelhante, como poderá viver em sociedade? É certo que estamos diante de um entrave que pode ser melhor entendido através de debates e reflexões, mas, acima de tudo, o importante é nunca esquecermos que o ser humano só existe em reconhecimento do outro, e toda a  prática de socialização acontece pela ordem da cultura.
Viver no entorno de um casulo e não saber voar sozinho é o grande dilema dos jovens no mundo presente. As facilidades que o digital nos oferece são grandes. O mundo da fantasia, dos jogos, dos parceiros perfeitos, não é o mundo real. O mundo real é sim o mundo de frustrações, de abraços e sorrisos, de tristezas e alegrias, da convivência com o diferente. Entender tudo isso talvez seja o grande desafio para jovens, pais e educadores do presente.

* Marcelo Cabral
Professor de Sociologia e psicanalista. Mestrando em Psicologia da Educação. E-mail: marcelounesp1@hotmail.com.

Fonte: Diálogo n 90 Abril/Jun 2018
Postado por: Diálogo




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