A unidade da religião


Sylvio Fausto Gil Filho *


Na década de 90, no Brasil, manifes­tou-se a segmentação de sis­temas re­ligiosos tradicionais, de novas religio­sidades e pararreligiosidades. É sinto­­­mático o movimento inexorável do enfraquecimento da capacidade das ortodoxias religiosas em dar uma coerência simbólica eficiente no âmbito social. Na mesma direção a ruína de sentido das metanarrati­vas e ideologias unificadoras espelham um espírito do nosso tempo, em que a tese da unidade da religião passa a ser uma dialética necessária.

O diagnóstico que pode ser feito do fim do século 20 é que não parecia razoável um renascer do fenômeno da religião como assunto relevante de caráter global. Mas o que podemos conceber é que a religião retomou a primazia diante de ações, dinâmicas sociais e políticas contemporâneas. O caráter contraditório desse processo foi o renascimento de antigos conflitos sectários e o reaparecimento de temas relacionados à interpretação literal de Escritos Sagrados, bem como a relevância do sobrenatural no cotidiano e a reafirmação do pensamento dogmático. Esses aspectos, que revelam retorno às raízes doutrinais e práticas antigas de vários grupos oriundos de sistemas religiosos mundiais, assim como o cristianismo e o islamismo, atestam a tensão no plano discursivo entre o exclusivismo e o pluralismo.

Essa tensão de tendências discursivas torna-se o contexto em que aflora a questão da unidade da religião, ou seja, como se apresenta a nossa consciência. A dialética entre pluralismo e exclusivismo religioso implica no retorno à positividade da unidade da religião.

Religião como forma de conhecimento

Com A Filosofia das formas simbólicas, do filósofo judeu-alemão Ernst Cassirer (1874 -1945), partimos do pressuposto que a religião é uma forma de conhecimento e, como tal, participa da conformação de modos específicos da realidade.

A base teórica de Cassirer é que a consciência humana é simbólica por natureza. Desse modo podemos inferir que a consciência do mundo, ou seja, a realidade é representação, é significado, e a forma que melhor explicita essa premissa é a linguagem, que realiza a transcendência da individuação, da percepção sensível do mundo para o sentido das representações e a necessária universalidade desse campo. A linguagem permite que a razão científica se manifeste através de conceitos objetivos. No dizer de Cassirer, a linguagem é uma determinada direção fundamental da ação espiritual, uma totalidade de atos psíquico-espirituais, que revela um novo aspecto da realidade das coisas. Portanto, a função simbólica da mente é uma ação concreta que manifesta as obras humanas e que coloca a linguagem, o mito e a religião como formas simbólicas na medida em que cumprem a função de plasmar o real, agindo de modo específico em sua esfera de ação e princípio formador.

Cassirer aponta a religião em estreita interação com o mito e a linguagem. Para ele, a religião não é tratada como elemento histórico específico, mas como determinação funcional no plano da cultura. Essa perspectiva encerra uma dialética entre a unidade da religião e a diversidade de suas manifestações. A religião tem um papel universal no que concerne à cultura humana, a despeito de suas manifestações particulares e estruturas na sociedade.

A religião como forma simbólica está muito próxima da funcionalidade do mito no sistema cassireriano, mas as religiões, historicamente dadas a partir de um discurso fundador sacralizado em texto, realizam a passagem entre mithos e lógos, onde há uma potência moral como predicado divino de sustentação ética do mundo. O filósofo Cassirer caracteriza essa tese apresentando a religião de Zoroastro, na qual há crença num Ser Supremo, fonte de uma força ética que supera as primeiras concepções do sagrado em tradições anteriores e que estabele­ce uma nova base, radicalmente diferente dos mitos pré-zoroastrianos e gregos, apre­sentados como projeção da imaginação míti­ca e estética. Esse fundamento é entendido por ele como “a expressão de uma grande vontade moral pessoal”. Assim, o mundo da natureza passa a ser visto como reflexo da ação ética e a religião se distancia das relações simpatéticas, ou por afinidades, engendradas pelo mito e se aproxima do lógos.

O mundo visto como projeção moral interfere nas ações humanas na superação da dimensão mágica em prol da virtude. Assim, a liberdade das limitações mágico/míticas passa a ser possível no ato de escolha do bem que o homem realiza num convênio com a Divindade. Podemos inferir a partir dessa interpretação que os sistemas religiosos de base textual ética, como judaísmo, zoroastrismo, islamismo, cristianismo e religiões universais como a Fé Bahá´í, têm um ímpeto comum de transpor as limitações míticas para demonstrar um sentido profundo da lei e da prática religiosa como expressão da liberdade humana.

A contribuição de uma teologia compreensiva bahá´í

Os estudos de caráter teológico no âmbito bahá´í possuem uma característica peculiar que é seu caráter compreensivo, visto que seu poder investigativo não visa a abrir sentidos autoritativos. Desse modo, a forma como historicamente foram constituídos demonstra uma dinâmica reflexiva sobre as Escrituras. Entre os conceitos mais po­lêmicos está o entendimento de que a verdade religiosa é relativa na medida em que os fundadores dos sistemas religiosos manifestam a vontade divina a partir de um contexto histórico e geográfico específico.

Um dos primeiros eruditos ocidentais a estudar a fé bahá´í, Edward Granville Browne (1862–1926), professor da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, comentou o fato de que existem nas Escrituras Bahá´ís muitas passagens referentes à unidade das religiões que requerem uma reflexão metafísica e teológica.

O conceito de unidade das religiões, no âmbito bahá´í, parte da ideia de que os diferentes sistemas religiosos representam estágios progressivos da mesma verdade religiosa. Portanto, as diferenças entre as religiões são contextuais, isto é, relativas às condições históricas, sociais e geográficas de suas manifestações iniciais.

Segundo dr. Moojan Momen, o relativismo é a base da metafísica bahá´í. Os ensinamentos bahá´ís aceitam a tese de que o homem não tem acesso à verdade absoluta, especialmente no que tange a religião. Para Bahá´u´lláh (1817-1892), fundador da fé bahá’í, a ação de Deus no mundo deve-se aos fundadores dos sistemas religiosos, a quem ele chama de Manifestantes de Deus. Através deles é possível tanger a verdade religiosa, que, embora mantenha correlações e essências eternas, é limitada em tempo e espaço.

A unidade da religião e a unidade das religiões são duas facetas de uma só realidade. De um lado a unidade da religião como forma de conhecimento projetado no mundo e de outro, a unidade das religiões como convergência ética.

* Sylvio Fausto Gil Filho - É doutor em História com pós-doutorado em Geografia e professor da Universidade Federal do Paraná.


Referências bibliográficas

CASSIRER, Ernst. [1923] A filosofia das formas simbólicas – I – A linguagem, tradução de Marion Fleischer. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
________. [1925] A filosofia das formas simbólicas – O pensamento mítico, tradução de Cláudia Cavalcanti, São Paulo: Martins Fontes, 2004.
MOMEN, Moojan. Relativism:  A basis for Bahá´í metaphysics. In MOMEN, M. (org.) Studies in Honor of the Late Hasan M. Balyuzi. Los Angeles: Kalimát Press, 1988.
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