Mestres africanos 100 anos de cuidados aos filhos e netos

Data de publicação: 13/07/2015


Ao passar por uma loja de artigos umbandistas em qualquer cidade brasileira, se é discretamente fitado pelos olhos serenos das estátuas dos Pretos Velhos: casal de anciãos negros, muitas vezes em tamanho natural, que, sentados à porta, inspiram confiança e disposição para escutar, confortar, aliviar os fardos e infundir esperança. 
De pesos e dores, coragem e resistência os Pretos Velhos entendem, pois resistiram, desde quando trazidos a ferros, da mãe África, ao terror da travessia, à humilhação da venda no mercado, à desumanidade do trabalho, aos gritos do desprezo, às feridas da tortura e ao silêncio repressor às suas culturas, crenças e expressões sagradas.
Mortos na diáspora, com saudades da África e vivos como espíritos de luz, os Pretos Velhos, ascendentes de metade da população brasileira, continuam a amparar, na luta pela liberdade cidadã, negros, índios, mestiços, brancos e todos os que os procuram.

Centenário da umbanda
O dia 15 de novembro de 2008 marca os 100 anos de fundação da umbanda, o espaço sagrado que melhor revela a pluralidade racial, a miscigenação cultural e o sincretismo, tão reais entre o povo brasileiro.
A tradição religiosa africana, sincretizada com ritos indígenas e católicos, deu à umbanda uma aparência afro-brasileira, porém seu primeiro marco histórico se situa no espiritismo kardecista.

Do privilégio de poucos ao  direito de todos
No começo do século 20, o espiritismo proposto por Allan Kardec e professado por uma elite pensante da França era praticado no Brasil por pessoas de elevado nível cultural e atraía adeptos das classes mais altas da sociedade. Os médiuns recebiam comunicações de espíritos famosos: historiadores, políticos, filósofos, príncipes, médicos e imperadores. Nenhum espírito desqualificado tinha direito de se comunicar, tampouco pessoas do povo se sentiam à vontade nos centros kardecistas. A umbanda abriu as portas do espiritismo para as classes populares.
No dia 15 de novembro de 1908, Zélio de Moraes, um jovem católico de classe média com 17 anos de idade, prestes a ingressar na carreira naval, participava de uma mesa branca em um centro espírita kardecista em Niterói (RJ), quando recebeu a comunicação do espírito de um índio.
Interrogado pelo chefe da mesa, o espírito respondeu:
“Se é preciso que eu tenha um nome, digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois para mim não existem caminhos fechados. Venho trazer a umbanda, uma religião que harmonizará as famílias e que há de perdurar até o fim dos séculos”.
Após aquela experiência, Zélio de Moraes fundou a Tenda de Umbanda Nossa Senhora da Piedade, em São Gonçalo (RJ). Na noite da inauguração, presentes os membros da Federação Espírita, parentes e amigos, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pela voz do médium, deu início ao primeiro culto de umbanda com estas palavras:
“Aqui começa um novo culto, no qual os espíritos de Pretos Velhos africanos e dos índios nativos de nossa terra poderão trabalhar em benefício dos seus irmãos, qualquer que seja a cor, a raça, o credo ou a posição social. A prática da caridade e do amor fraterno será a característica principal deste culto”.

Uma árvore com várias raízes
A umbanda reúne elementos de todas as matrizes religiosas brasileiras:
Africana: orixás, cantos, instrumentos de percussão, guias (colares), comidas, bebidas, trabalhos, ervas sagradas, rezas e oferendas.
Indígena: culto aos antepassados, ervas sagradas, defumações, bebidas etc.
Católica: santos, orações etc.
Oriental e ocultista: pontos cabalísticos riscados, amuletos, astrologia, meditações etc.
Espírita kardecista: passes e mediunidade.
O nome umbanda tem origem nos sacerdotes africanos que, em suas nações, possuíam o nome de m’banda: sábio, mestre e curandeiro. A identificação dos espíritos dos Pretos Velhos com as funções dos sacerdotes deu ao culto o título de umbanda. O termo pode ser também traduzido como Aum: divindade suprema, ban: conjunto ou sistema; e dan: regra ou lei. Portanto: conjunto das leis divinas, ou caminho que passa por muitos lugares, vem de muitas direções e conduz ao Deus Supremo. Assim se esclarece o nome do espírito mensageiro: Sete Encruzilhadas ou Sete Setas.

Pretos Velhos, sábios conselheiros
Os casais de avós Pretos Velhos, com suas bengalas ou cajados nas mãos e seus cachimbos nos lábios, escutam e ajudam os necessitados sem ver cor, idade, sexo ou religião. Cada um deles, identificado com seu orixá, leva a força de Zambi, o Criador, a todos os que precisam de conforto, sem julgar nem condenar ninguém, e mostra que o amor e o respeito ao próximo e a si mesmo podem aliviar os sofrimentos e elevar o espírito para a luz divina.
Para muitos umbandistas, os Pretos Velhos são conselheiros; para outros, são amigos, confidentes, guias espirituais; outros ainda os têm como combatentes do mal. Para todos, porém, são símbolos de serenidade e evolução espiritual.
A umbanda, no entender de seus seguidores, é uma forma espiritualizada de viver, com propostas concretas para a transformação do mundo em um lugar melhor para todos, sem distinção, onde prevaleçam a paz e a harmonia, mesmo na diversidade de  crenças e culturas, o que faz da população brasileira um povo único no mundo.






Saiba mais


Faculdade de Teologia Umbandista
www.ftu.edu.br
Conselho Nacional de Umbanda
www.conub.org.br

Estudo e pesquisa


Dignidade: conquista ou  condição humana?

A luta pela igualdade –  Relatório sobre a dignidade  humana e a paz no Brasil
Conic (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs)
Editora Salesiana & Paulinas Editora Código 50598-6
 






Fundamentalismos integrismos
Uma ameaça aos  Direitos Humanos

Acat (Ação dos Cristãos pela  Abolição da Tortura)
Paulinas Editora – Código 09816-7






Espiritismos

Limiares entre a vida e a morte
Maria Ângela Vilhena
Coleção Temas de Ensino Religioso – Tradições Religiosas
PUC/SP – Paulinas Editora – Código 51347-4




Sabedoria africana na sala de aula



O telefone de latas

Édimo de Almeida Pereira e  ilustrações de Rubem Filho
Coleção Árvore falante
Paulinas Editora – Código 51339-3





Contos da lua

e da beleza perdida
Sunny e ilustrações de Denise  Nascimento
Coleção – Árvore falante
Paulinas Editora – Código 51364-4


Fonte: Diálogo 52 - OUT/2008
Postado por: Diálogo




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