Seres míticos da cultura amazônica

Data de publicação: 01/09/2015

As lendas e mitos amazônicos podem ocasionar ótimos projetos interdisciplinares que envolvam, com o Ensino Religioso, outras disciplinas, como Literatura, História, Artes, Geografia, Comunicação e Expressão.
   
Os colonizadores trouxeram para o Brasil o imaginário popular da Europa medieval. Com os africanos vieram personagens míticos de diversas tradições, e o contato entre as etnias branca, negra e indígena criou um imaginário popular brasileiro, que, na Amazônia, se enraizou no ambiente fantástico da floresta milenar. O resultado des­se processo cultural é vivo nas cidades, nas vilas e entre as populações ribeirinhas, a começar pelo nome da região.

As amazonas
Existe uma lenda grega de mulheres guerreiras, habitantes das margens do mar Negro, ao norte da Ásia Menor. Eram chamadas amazonas, que em grego arcaico significa “desprovidas de seios”, por causa da atrofia do seio direito, em vista do uso de arco e flecha. A lenda espalhou-se pela Europa e veio para o Novo Mundo na bagagem cultural dos colonizadores. Em 1541, o conquistador espanhol Francisco de Orellana, atraído pelo mito da Cidade de Ouro, navegou floresta a dentro pelo rio Dulce e encontrou uma tribo de mulheres guerreiras na altura em que hoje é a divisa dos estados do Pará e do Amazonas. Imediatamente a tripulação lembrou a conhecida lenda, passando a chamar o grande rio de rio das Amazonas. A tradição indígena da região conta que as mulheres todos os anos convidavam os homens das tribos vizinhas para uma festa lunar com ritos de fertilidade e os presenteavam com estatuetas de cerâmica. Os referidos amuletos existem em museus, mas nunca foram encontrados vestígios que confirmem a existência da tribo feminina.

A cobra-grande
Conta-se na Amazônia que uma tribo indígena afogou no rio uma mulher que devorava crianças recém-nascidas. Tempo depois, saiu do rio uma cobra imensa com olhos de fogo, que passou a vagar pela floresta e pelas águas, devorando todo ser vivo que encontrasse. Uma variante da lenda diz que a cobra dorme enroscada por debaixo das cidades grandes, como Belém (PA) e outras. Quando acordar e sair do ninho, a cidade afundará para sempre. Em Roraima, a cobra-grande é a protetora do rio Branco. Ajuda aos que pescam para sobreviver e castiga os predadores e os que não respeitam as águas.
A lenda das cidades submersas é viva na Europa do norte e em outras cul­turas. Também cobras gigantescas que habitam as profundezas da água ou da terra aparecem em diversas narrativas míticas de muitos povos. No Egito, a serpente primordial Apep, vivia enroscada no fundo da terra. Na mitologia de Benin, na África, o sol e a lua são sustentados no céu pela gigantesca cobra Aido-huvedo. Uma tradição da Austrália diz que a grande cobra Yur­lungur dormia em uma nascente de água. Duas jovens a acordaram, e ela, irada, provocou o dilúvio. Na China, os Lung Wang eram deuses-serpentes habitantes dos rios, que puniam quem desperdiçasse a água. No leste e no norte da Europa, a serpente do mundo chama-se Jormungar. É imensa, vive no fundo do mar e seu corpo enroscado sustenta a terra para que não afunde. No xintoísmo, religião japonesa, há a narrativa do casamento de Benten, deusa da música, com a enorme serpente que habita o fundo do oceano. Os monstros que aterrorizaram os antigos navegadores são seres híbridos, como os dragões marinhos ou Cila, a serpente grega com cabeça de cão. Nascem do encontro da grande cobra primordial com seres fantásticos que povoam o imaginário universal.

O mampiguari
O mampiguari é um gigante peludo que tem apenas um olho no meio da testa e vaga pela Amazônia durante o dia. Imita o assobio dos caçadores que se aventuram por regiões virgens da floresta, os atrai e devora com sua enorme boca que chega quase até a cintura. Ao anoitecer, ele se recolhe a seu abrigo.      A literatura clássica tem um famoso gigante de um olho só, é o ciclope Polifemo, de A odisséia, de Homero. Devorou os companheiros de Ulisses que entraram em sua ilha e na caverna onde ele costumava dormir à noite. Outro gigante guardião da natureza é Adamastor, de Os Luzíadas, de Camões. Atacava os navios da Europa que tentavam entrar no Oceano Índico à procura de novas rotas para as Índias. Vê-se nos três gigantes um ponto em comum: a vigilância sobre territórios virgens da natureza e a punição de quem tenta explorá-los.

A iara
A iara, também conhecida na Amazônia por ipupiara, uiara ou mãe-d’água, é uma jovem que atrai os homens para o fundo do rio. Os poucos que voltam falam de homens encantados que servem a iara em seu palácio. Só uma pajelança poderosa pode acordar o sobrevivente do fascínio do reino submerso. Em algumas regiões, diz-se que a iara tem na testa uma estrela que hipnotiza os homens. Acredita-se também que ela é peixe da cintura para baixo, ou que usa um vestido para dar a ilusão de ser metade mulher, metade peixe. Em certos locais, a iara é tida como o boto fêmea. Em outros ainda, pensa-se que seja a própria cobra-grande, disfarçada. É também confundida com Iemanjá, a Mãe dos Mares da tradição afrodescendente. Há, porém, al­gu­mas diferenças: Iemanjá é rainha da água salgada e protege os pescadores, en­quanto a iara reina na água doce e atrai os homens para a morte.
A versão clássica mais próxima da iara é a sereia oriunda da cultura européia. A Odisséia, de Homero, descreve a luta de Ulisses contra o fascínio do canto das sereias, na costa da Itália. Os assírios cultuavam Derketo, divindade lunar: mulher-peixe que protegia a fauna marinha. Os celtas do norte europeu temiam a sereia Moruadh: de cabelos verdes nariz vermelho e olhos de porco. Na Rússia, temia-se a Rusalka: uma jovem que morreu afogada e, com seu canto, atraia os homens para o fundo do rio. Um mito da Finlândia conta que a deusa Aino foi dada em casamento ao deus Vãinamoinen, mas, em vez de se casar, preferiu se jogar em um pântano e viver em forma de sereia.

O boto
A lenda do boto tem variantes regionais, mas o núcleo principal é a conquista de mulheres. Ele assume forma humana e se infiltra nas festas e nas casas. Quando uma mulher concebe uma criança de pai desconhecido, a paternidade é atribuída ao boto. O boto é um animal gentil, que salva os náufragos das embarcações.
Na mitologia grega, Posêidon, deus dos mares, apaixonou-se pela nereida Afítride e quis levá-la para o fundo do oceano, mas a jovem teve medo e fugiu para as grutas do monte Atlas. Dois golfinhos a convenceram a aceitar o convite e a conduziram de volta ao deus marinho, que se casou com ela e gerou um filho: Tritão, metade homem, metade peixe. Em recompensa aos golfinhos, Posêidon os fez imortais. A variante romana da narrativa diz que os golfinhos salvaram a vida de Vênus e de seu filho Cupido, que eram perseguidos pelo gigante Tifon, durante a guerra de Júpiter contra os gigantes.

O curupira
Curupira é um anão coberto de pêlos, com cabelo de fogo e pés virados para trás. Protege os que respeitam a natureza, enquanto pune os que a agridem. É o pri­meiro personagem mítico que aparece em registro escrito no Brasil. Padre Anchieta, por volta de 1560, cita-o em suas cartas ao falar das crenças dos índios. Inclusive uma figura muito semelhante povoa tradições indígenas de toda a América Latina.
Entidades protetoras das florestas são comuns em praticamente todas as culturas do mundo. Pensando-se na matriz européia, pode-se lembrar os faunos e os sátiros greco-romanos: pequenos seres portadores de membros humanos e animais. Os duendes e os gnomos do norte da Europa também são criaturas pequenas que zelam pelas florestas. Na China, diz a mitologia que o deus Panku, criador da natureza, trazia chifres e era de baixa estatura e coberto de pêlos.


Fonte: Diálogo 44 - AGO/2006
Postado por: Diálogo




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