O Sagrado como alicerce

Data de publicação: 03/12/2015


Para a compreensão da experiência religiosa, José Severino Croatto, em seu livro sobre a fenomenologia da religião, As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da religião. São Paulo: Paulinas, 2001, utiliza a categoria Sagrado, bem como os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso, elaborados pelo Fonaper (Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso). Mircea Eliade, citado na bibliografia dos Parâmetros, considera a relação entre o sagrado e o profano como a essência das religiões, em sua obra O sagrado e o profano – A essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
O autor considera as diferentes modalidades da experiência religiosa a partir daquilo que elas têm em comum que é exatamente o Sagrado. O termo hierofania significa que algo do Sagrado se nos revela. Manifestando o Sagrado, um objeto qualquer se torna outra coisa sem deixar de ser ela mesma. Para aqueles que têm uma experiência religiosa, toda a natureza pode se revelar como sacralidade cósmica.
Segundo o autor, o sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo e dependem das diferentes posições que os humanos conquistaram no cosmos. Dessa forma, interessam a todo investigador desejoso de conhecer as dimensões possíveis da existência humana. Este é também o entender do Fonaper, que aponta nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso que esta disciplina deve fazer parte dos currículos das escolas, a fim de se trabalhar o substrato religioso presente em todas as culturas, consequentemente, um patrimônio da humanidade a ser conhecido.
Sobre isso, diz Mircea Eliade: “Conhecer as situações assumidas pelo homem religioso, compreender seu universo espiritual é, em suma, fazer avançar o conhecimento geral do homem. É verdade que a maior parte das situações assumidas pelo homem religioso das sociedades primitivas e das civilizações arcaicas há muito tempo foram ultrapassadas pela História. Mas não desapareceram sem deixar vestígios: contribuíram para que nos tornássemos aquilo que somos hoje; fazem parte, portanto, da nossa própria história”.
O escritor afirma ainda que são válidas as comparações entre fatos religiosos de diferentes culturas porque partem de um mesmo comportamento, que é o do homo religiosus. Este acredita que existe “(...) uma realidade absoluta, o Sagrado, que transcende este mundo, que aqui se manifesta, santificando-o e tornando-o real. Crê, além disso, que a vida tem uma origem sagrada e que a existência humana atualiza todas as suas potencialidades na medida em que é religiosa, ou seja, participa da realidade (...)”.
Para Mircea Eliade, as experiências oníricas ou imaginárias do homo religiosus se integram numa concepção do mundo e fundam um comportamento. Baseado também nesta compreensão é que o Fonaper propõe o estudo das Tradições Religiosas inseridas na cultura, como resposta aos questionamentos humanos. Propõe também o estudo dos ritos e da ética, já que estes denotam a compreensão de mundo e levam a um comportamento proposto pelas Tradições Religiosas aos seus fiéis.
Para o homem religioso, no interior do recinto sagrado, o mundo profano é transcendido e este lugar sagrado pode ser revelado a ele por diferentes meios. Segundo Mircea Eliade, também o homem moderno, seja qual for o seu grau de irreligiosidade, é sensível aos “encantos” da natureza, embora recuse a sacralidade do mundo.
O grupo que se coloca de maneira contrária ao ER (Ensino Religioso) na escola pública, baseado nos pressupostos da modernidade: a secularização, o reconhecimento da ciência como única forma de explicar a realidade e a concepção do estado laico, nos dá pistas da necessidade do Ensino Religioso trabalhar a categoria do Sagrado, a essência das religiões, para além de uma única religião. Muitos textos disponíveis na internet citam a frase atribuída a Albert Einstein: “Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível”. De fato, se assim for, podemos descrer da humanidade.
Também podemos entender que ser verdadeiramente humano não é um atributo apenas daquele que tem uma religião e é aqui que abrimos precedentes para o Ensino Religioso Transreligioso, que busca o conhecimento das diferentes Tradições Religiosas e as ultrapassa buscando sua essência, quem sabe a essência do próprio ser humano. Na busca constante pela essência, nos deparamos com o Sagrado.

Aprendendo a ensinar


Na perspectiva  do Sagrado:
Não há espaço para uma única confissão religiosa.
Não podemos exigir a ade­são a uma confessionalidade.
Não podemos entender a aproximação religiosa como a única possível.
Os primeiros itens estão claros na abordagem dos Parâmetros do Ensino Religioso. É proposto o estudo das Tradições Religiosas: nas Escrituras ou na Tradição Oral, nos rituais de cada uma e no comportamento ético de seus fiéis, encontramos o Sagrado. Gestos, lugares, objetos, maneiras de fazer as coisas dão conta de que há ali a manifestação de algo que transcende a experiência humana.
Importante destacarmos o terceiro não. A religião não é a única forma de nos aproximarmos do Sagrado. É preciso buscá-lo onde quer que esteja, nas formas capazes de propiciar ao homem e à mulher a experiência da transcendência.
O Sagrado pode estar no(a) amigo(a), em ser ouvido, poder falar, na natureza, como afirmam as tradições indígenas e afrobrasileiras. Como experiência do sentido, assim como afirmou Mircea Eliade, pode estar presente mesmo para aquele que se diz não-religioso. Por ocasião do Ano-Novo, por exemplo, você já se perguntou sobre o que leva milhões de pessoas a se dirigirem às praias para a passagem de ano? Da mesma forma o uso do branco, a grande quantidade de gestos presentes neste e em outros momentos rituais, como o casamento, o batizado, o velório, a inauguração da casa nova, a hora da alimentação. Momentos re­pletos de sacralidade – experiências de sentido.
Na Educação Infantil:
Eu. A experiência de sentido que a criança faz está intimamente ligada às suas descobertas: posso riscar, desenhar, escrever. Desenhos, histórias, passeios em áreas verdes e a experiência de se perceber diante do que vêem pode significar muito.
No Ensino Fundamental I:
Eu e o outro. De acordo com a série, histórias, vídeos, produção de textos, podem ajudá-los a reconhecer essa mudança em suas vidas. A experiência do sentido está para além de si mesmo.
No Ensino Fundamental II:
Eu e os outros. Somos diferentes. É hora de buscar o Sagrado para além dos muros da escola, conhecer as diferentes Tradições Religiosas, suas buscas, suas respostas. O caminho que fazem os que não crêem.
No Ensino Médio:
Eu e o mundo. A experiência do Sagrado pode se dar no comprometimento com os outros. O conhecimento ampliado das Tradições Religiosas e de todos aqueles que se comprometem com causas sociais pode dar pistas do caminho a seguir.
A natureza, a vida, a palavra são sagradas… Quem sabe se recuperássemos a sacralidade das coisas, dos fatos, das nossas ações pudéssemos recuperar a alegria de viver e estar juntos!
* Viviane Cristina Cândido
Filósofa, pedagoga com especialização em Teologia para o Ensino Religioso, mestranda em Educação, professora e assessora pedagógica em escolas e cursos para formação de professores do ER e diretora de escola.

Fonte: Diálogo 34 - MAIO/2004
Postado por: Diálogo




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