O Terreiro também é lugar de criança

Data de publicação: 03/12/2015



Em várias culturas o nascimento de gêmeos sempre foi cercado de certo mistério, pois simbolizavam a dualidade. De um caráter ambíguo, a dualidade pode representar ao mesmo tempo polos opostos – o bem ou o mal –, assim como a natureza que se integra na junção das duas partes.
Não é estranho que na Antiguidade as pessoas concebessem divindades gêmeas, uma vez que a ambiguidade encontra-se dentro do ser humano, era natural que se projetasse essa dimensão para a esfera divina. Entre as divindades gregas, os gêmeos poderiam ser filhos dos mesmos pai e mãe – por exemplo, Apolo e Ártemis – ou de pai diferente, assim como Pólux e Castor, os quais também tinham naturezas diferentes, sendo o primeiro imortal e o outro mortal.
No panteão iorubá, os gêmeos são representados pelo orixá Ibeji, cuja festa nas tradições afro-brasileiras é comemorada no dia 27 de setembro. O termo ibeji na língua iorubá significa "gêmeos", e, segundo a mitologia, esses são filhos de Iansã, porém foram criados por Oxum como se fossem seus próprios filhos.
Os Ibejis são formados por duas entidades distintas que juntas simbolizam a dualidade, e que por serem crianças também estão associados ao nascimento, seja dos seres humanos, seja das plantas. A festa dos Ibejis é considerada uma festa de criança, pois neste dia se distribuem muitos doces, refrigerantes, frutas e balas para as entidades infantis que incorporam nos médiuns e também para aqueles que participam da festa nos terreiros. É interessante ressaltar que os Ibejis não são necessariamente crianças, mas se apresentam com a índole infantil, pois do contrário não seriam reconhecidos.
Conta uma narrativa antiga que Xangô andava muito aborrecido com Exu, pois todas as vezes que sua comida preferida, o amalá, estava pronta e começava a exalar o seu cheirinho, Exu aparecia e virava o prato no chão e ainda ficava debochando de Xangô. Este não aguentando mais a situação resolveu por um fim naquela peleja e pediu a ajuda dos Ibejis. Na hora de costume do amalá de Xangô, Exu aparece e encontra um dos meninos que lhe propõe um desafio. O pequeno iria tocar para que Exu dançasse, e caso este se cansasse primeiro perderia a aposta e nunca mais voltaria a incomodar Xangô na hora de sua refeição. Exu aceitou na condição de que se ele ganhasse viria morar para sempre na casa de Xangô. Porém, o que Exu não sabia é que, enquanto dançava, os Ibejis se alternavam no toque do tambor. Exausto de tanto dançar, Exu caiu e, antes de cumprir sua palavra, pediu a Xangô que lhe deixasse um pouco de comida à sua porta.
É por isso que os Ibejis são cultuados e estão presentes em todos os rituais do Candomblé, pois, assim como Exu, se não lhe for dada a atenção eles podem atrapalhar os trabalhos com suas brincadeiras infantis, tirando a concentração dos membros do Terreiro.

Sugestão de atividade de Ensino Religioso

O culto aos Ibejis foi sincretizado com a festa católica dedicada a São Cosme e São Damião, pois aos escravos não lhes era permitido cultuar as suas divindades. Propomos que se faça uma pesquisa, a fim de levantar algumas informações acerca das festas católica e afro-brasileira a partir dos seguintes pontos:
* O que há de semelhante no culto aos ibejis e na festa aos santos Cosme e Damião que favoreceu o sincretismo?
* Qual a diferença entre os Ibejis e os erês?
* Como se caracteriza a participação das crianças nas tradições afro-brasileiras?
Finalizando, a atividade é interessante para que se evidencie aos alunos que as festas nas tradições afro-brasileiras e católica são distintas e, embora o sincretismo seja uma realidade histórica, hoje com a liberdade religiosa já não se faz mais necessário essa associação.

Fonte: Diálogo 67- agosto 2012
Postado por: Diálogo




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