O conhecimento e a crise das religiões

Data de publicação: 18/12/2015


Em suas formulações convencionais, as religiões tradicionais enfatizam uma fé sentimental, porque este é o aspecto que pode ser mais imediatamente captado e realizado pelas pessoas, em geral. Mas aquilo que podemos chamar de fé integral exige o discernimento, sem o qual se teria fé em seja lá o que for.
Nos dias de hoje, sempre que abordamos as coisas do espírito, não podemos desvalorizar a dimensão do conhecimento. É preciso, ao contrário, valorizá-la mais do que nunca, pois é ela que mais tem sido obscurecida na religião. Por conhecimento, não nos referimos à mera informação quantitativa ou à erudição cerebral. Falamos daquela inteligência que discerne as verdades fundamentais que permeiam as religiões e que envolve a plena personalidade do indivíduo. Muitas vezes, a inteligência é percebida apenas como uma manifestação de “orgulho intelectual”, sem nos dar­mos conta de que se trata de uma contradição de termos. Pois a verdadeira inteligência caracteriza-se pela capacidade de ver as coisas como elas realmente são, portanto por uma rigorosa objetividade, o que exclui o orgulho, precisamente.
Com a convivência cada vez mais intensa de culturas religiosas distintas, engendradas pela globalização, a compreensão do fenômeno religioso se defronta hoje com inúmeros desafios. O mais premente deles, a meu ver, é justamente o da incorporação da dimensão do conhecimento, no sentido de oferecer resistência ao crescente divórcio entre inteligência e espiritualidade.
É preciso, também, encarar a religião em sua totalidade, composta que é de exoterismo e esoterismo, de doutrina e ritual, de arte e cultura, e não este corpo amputado de suas dimensões mais elevadas a que seus críticos muitas vezes se referem. Acabamos de mencionar dois termos que são em geral mal compreendidos. Segundo o filósofo francês René Guénon (1887-1951), toda religião comporta dois aspectos fundamentais, o exotérico e o esotérico. O exotérico (do grego “exterior”) inclui os aspectos “externos” das religiões, como a moralidade, as regras e as convenções sociais; trata-se, segundo Guénon, de tudo aquilo que é absolutamente necessário para alcançar a salvação. Quanto ao lado esotérico (do grego “interior”), ele inclui a mística e a contemplação e não é obrigatório; ele é o que aponta para aquele misterioso “Reino dos Céus que está dentro de vós”, a que o Cristo se referiu.

Durabilidade e universalidade
Certamente não é por acaso que as grandes tradições espirituais da humanidade estão vivas há séculos, ou melhor, há milênios, ainda moldando, em vários graus de comprometimento, os corações e as mentes das pessoas, nos quatro cantos do mundo. Para aqueles que se dão conta concretamente do caráter frágil, instável e transitório dos empreendimentos puramente terrenos, a “durabilidade” e universalidade do fenômeno religioso é algo digno de reflexão séria. Isto resulta claramente do fato de a religião não derivar, em sua essência mais profunda, de ideologias ou interesses puramente humanos, mas de possuir uma base revelada. Só esta matriz transcendente, conjugada à força da tradição, consegue explicar a sobrevivência da religião no mundo contemporâneo. Algo que uma empresa exclusivamente “horizontal” não poderia jamais realizar, dada justamente a sua instabilidade intrínseca.
Revelação e tradição são, assim, as duas condições sine qua non da religião. Associando, numa imagem simples, a religião a um curso de água, diríamos que a revelação é a fonte de onde brota a mais pura das águas; a tradição é o leito sobre o qual as águas correm, fazendo o rio chegar a sítios distantes sem se perder. Pode-se também imaginar um calhau que cai sobre um espelho-d´água; sua queda e impacto sobre a superfície figuram a revelação. As “ondas” que se formam concentricamente em torno deste ponto figuram a tradição; esta última, assim, constitui o principal vetor de continuidade e transmissão, espacialmente e temporalmente, da mensagem original engendrada por este prodigioso contato entre o Absoluto e o relativo, o Perene e o temporal.
Este vasto e rico universo merece e exige uma abordagem estimulante e elevada; abordagem que por assim dizer o liberte dos entraves e obstáculos engendrados pela visão estreita do senso comum, infundindo-lhe ao mesmo tempo frescor e energia. Já fizemos referência ao elemento conhecimento, que é o objeto último da inteligência humana. É ele, mais do que qualquer outro, que deve caracterizar esta abordagem. É ele que tem sido cada vez mais esquecido, a ponto de hoje ser difícil encontrar exposições ou apresentações penetrantes deste legado de sabedoria. O que predomina amplamente são argumentos de apelo puramente sentimental ou moral, que não surtem mais o efeito desejado, como argutamente apontou o alemão Frithjof Schuon (1907-1998), o filósofo das religiões, autor de livros nos quais esta questão é prioritária. Entre estas obras, destacam-se O Homem no Universo (Perspectiva, 2001), O sentido das raças (Ibrasa, 2002) e Forme and substance in the religions (World Wisdom, 2003). É preciso, igualmente, não ter receio de enfrentar as questões colocadas pela mentalidade materialista e relativista da modernidade – as quais não têm recebido respostas intelectualmente satisfatórias –, procurando apresentar os tesouros do mundo do espírito de uma forma intelectualmente desafiadora.

O Sagrado e o conhecimento
Cabe, finalmente, analisar a religião em toda a sua riqueza, com seus aspectos inextirpáveis de sabedoria e beleza, e não apenas como um fenômeno ideológico ou político, que é o mesmo que privá-la de sua substância. Afinal, a espiritualidade verdadeira envolve a pessoa por inteiro: pela inteligência, pela vontade e também pelo sentimento. Segundo a linguagem da sabedoria da Índia, o ser humano trilha aquele caminho espiritual que, por vocação, é o seu, seja o do conhecimento (jnâna), o da devoção (bhakti) ou o da ação (karma) – caminhos estes que não são mutuamente excludentes. Ou ainda, dessa vez de acordo com a tradição cristã, o ser humano pode seguir a “via de Marta” (da ação) ou a “via de Maria” (contemplação, englobando devoção e sapiência). Estes dois “caminhos espirituais” estão simbolizados num famoso episódio dos Evangelhos: Jesus visita suas amigas Maria e Marta; enquanto ensinava a Maria, sua irmã Marta se ocupava com os trabalhos da casa. Marta então se queixa, mas Jesus lhe diz: “Marta, Marta, tu te preocupas com muitas coisas, quando uma só é necessária; Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10, 38-42).
Desde a época em que a influência de sábios como o dominicano alemão mes­tre Eckhart (1260-1327), o poetafilósofo italiano Dante Alighieri (1265-1321) e, no Oriente cristão, Gregório Palamas (1296-1359) foi se debilitando, um tipo de fé cada vez mais emocional e convencional tem predominado, levando a uma visão das coisas que está situada num nível bem abaixo da real capacidade e das necessidades da mente humana. A esse respeito, Ananda Coomaraswamy (1887-1947) observou que “a religião é apresentada de uma maneira tão sentimental que não surpreende que o melhor das novas gerações se revolte; a solução é a presentá-la em suas formas intelectualmente desafiadoras”.
Estas formas “intelectualmente desafiadoras” têm sido apresentadas por uma perspectiva pouco conhecida, que é a espiritualidade “sapiencial”. Até poderia também falar em gnose, mas o termo ainda assusta, não obstante a realidade que ele significa não poder ser confundida com a heresia gnosticista dos primeiros séculos. O apóstolo Paulo, na Epístola aos romanos (11, 33), referiu-se à gnose como “conhecimento de Deus” (gnôsis tou Theou). No Oriente, os hesicastas da Grécia, Rússia, Romênia etc. seguem um caminho similar.
No Ocidente contemporâneo, destacam-se as figuras de Frithjof Schuon, René Guénon e Ananda Coomaras­wamy. Distintamente dos filósofos pós-cartesianos e pós-kantianos, eles não pretenderam inventar um “sistema” próprio, mas antes transmitir, em novas formas, ideias e ideais perenes e universais. Em suas obras, percebemos uma “aliança” entre o Sagrado e o conhecimento. Hoje, esta perspectiva vem despertando crescente interesse, constituindo-se numa grande esperança para o necessário resgate do conhecimento sagrado a que nos referimos no início do artigo.

* Mateus Soares de Azevedo
Mestre em História das Religiões pela USP (Universidade de São Paulo) e autor de Mística islâmicaAtualidade e convergência com a espiritualidade cristã (Vozes, 2001).



Fonte: Diálogo 34 - MAI/2004
Postado por: Diálogo




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