Deus nos relatos sagrados

Data de publicação: 21/12/2015


Nunca é demais recordar que vivemos em uma sociedade essencialmente pluralista, constituída por pessoas de diferentes culturas, valores, ideologias. Pessoas que, na concretude do dia a dia, convivem, interrelacionam-se, influenciam-se mutuamente. Tal realidade é, sem dúvida, um imenso valor; mas também representa um grande desafio para a escola, de modo especial para o professor, estabelecendo a necessidade de uma educação fundamentada no respeito à alteridade, no diálogo, na tolerância imprescindível à convivência, na solidariedade. Em um e outro caso – enquanto valor e enquanto desafio –, o pluralismo nos coloca diante da mesma realidade: o mistério de Deus! Mistério a respeito do qual nos falam os relatos sagrados, escritos ou não, das diferentes tradições.
No artigo “A sacralidade do texto em culturas orais”, à pág. 14, vimos que “a primeira forma de transmissão do conhecimento era dada pela tradição oral em que o valor da palavra era fundamental” e ainda: “a revelação contida num determinado texto que reafirma posturas e atitudes” faz a sacralidade de um texto, constituída também pela reverência, louvor, contemplação, devoção que inspiram.
O autor do artigo “Os Vedas”, à pag. 20, nos ensina que as verdades ali contidas, e que constituem a base do hinduísmo, foram validadas pela experiência espiritual dos sábios da Índia antiga, e a sua mensagem mais importante é a divindade de tudo e de todos os seres.
Em “A religião do Livro”, à pág. 24, aprendemos que a Torá – ou a Lei – tem uma sacralidade espiritual e física, esta última atestada pelo cuidado com que os rolos que contêm os seus escritos são manuseados na sinagoga. E ainda a beleza e profundidade do simbolismo que encerra a palavra leb, composta pela primeira e pela última letra escritas na Torá, cujo significado é coração: na Torá está o coração da fé judaica e os ensinamentos de Deus agem no coração do povo.
Isso tudo se comprova no artigo de Amarildo Vieira de Souza, seção Sua página, à pág. 64, através do relato da experiência de seus alunos e alunas: “Entrar em contato com um material que por tantos anos sustenta o caminhar destas religiões parece embevecer cada um”. Embevecer... Admirar... Respeitar... Reverenciar..., são os sentimentos despertados quando entramos em contato com textos sagrados. Então, ao abordá-los com os nossos alunos, o que devemos considerar, antes de tudo, é a sua sacralidade, sem perder de vista o que os torna sagrados.
A consistência do artigo de Francisco Catão, “Diversidade religiosa”, à pág. 8, auxilia a todos nós, professores: “O conhecimento a ser transmitido em sala de aula requer a percepção do que torna sagrado o texto para as diversas religiões, surgindo, já aqui, uma diferença profunda...”

Textos antigos, respostas novas

Explicitaremos, de maneira ampla, alguns dos objetivos que podem ser adotados ou assumidos na abordagem do tema e detalhados nas diferentes séries, de acordo com a faixa etária dos alunos.

Objetivo conceitual: Tomar conhecimento, discutir, compreender que todas as tradições possuem valores que lhes são peculiares, mas que também existem valores universais de suma importância para a sobrevivência dos seres humanos e do universo.

Objetivo procedimental: Confrontar os valores culturais, sociais, éticos, da própria tradição e/ou prática religiosa aos de outras tradições, considerando as diferenças como oportunidades de desenvolvimento e de construção da própria identidade.

Objetivo atitudinal: Respeitar as pessoas independentemente das diferenças de religião, cultura, etnia, classe social, opinião.
Não podemos, sobretudo, perder de vista a importância de considerarmos os textos sagrados a partir das necessidades atuais da humanidade, descobrindo neles o que ainda não foi visto, o que em outros contextos foi silenciado, verificando quais são as respostas que eles oferecem para as necessidades e exigências da vida das pessoas, hoje. Cumpre-nos descobrir, em textos antigos, respostas novas!
Pode ser interessante (1) abordar o tema a partir da origem da escrita, que surgiu da necessidade das pessoas registrarem visualmente – no início através de desenhos – as informações, por exemplo, para transmiti-las às gerações seguintes ou para se comunicar com quem estivesse distante.
Tradicionalmente, o Egito é considerado o berço da escrita, mas sabe-se, hoje, que a escrita suméria é anterior à egípcia. As formas e meios de escrever evoluíram lentamente; mas hoje, como há 4 mil anos, os motivos pelos quais se escreve são os mesmos.
Pode-se, também (2), propor que os alunos rememorem o próprio processo de alfabetização, procurando lembrar-se de como ocorreu e refletindo sobre a importância, na sua vida, do ato de escrever, passando daí para a importância do registro escrito na vida dos povos. Perguntas simples, formuladas pelo professor, facilitam a reflexão e ajudam o processo a fluir.
Outra sugestão (3), para a abordagem do tema com crianças das séries iniciais, é trabalhar com cores. Por exemplo: Tendo em mãos diferentes textos, de diferentes tradições, com um lápis vermelho, colorir as palavras que aparecem diversas vezes; com um lápis verde, colorir as afirmações, verificando aspectos diferentes dos diversos textos; com um lápis azul, colorir a frase que mais nos agrada... e assim por diante. Certamente nos surpreenderemos com as descobertas que elas farão.
Nas séries finais do ensino médio, podemos partir da etimologia das palavras escrita e escritura, estudando suas raízes além das sutilidades que apresentam nos diferentes idiomas.
O próximo passo é a reflexão. Refletir dá muito trabalho e exige coragem. Supõe disciplina e persistência. Requer organização e articulação do pensamento. É através dela que podemos descobrir coisas novas, respostas novas. Podemos fazer acertos, retificações e/ou ratificações, aprofundar ideias, assumir posições claras. Transformar algo em nós, nos demais, no contexto em que estamos inseridos, ou seja: agir. Assim, fechamos um esquema metodológico que, descrito detalhadamente em etapas denominadas experiência (1), reflexão (2), ação (3), deve ser sempre, durante todo o seu processo, permeado pela avaliação (4).
O contato com os textos sagrados representa uma enorme riqueza para o Ensino Religioso, podendo contribuir para que, pouco a pouco, caiam os muros e nós vejamos que as barreiras de ontem se abrem para um futuro novo e fraterno, no qual a experiência religiosa do outro pode ser reconhecida como tão cheia da graça de Deus como a nossa. Um mundo de diferenças no qual o que conta é a singularidade, não a exclusividade.

* Yvone Maria de Campos Teixeira da Silva
Pedagoga, mestra em Ciências da Religião pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo (SP) e com especialização em Psicopedagogia pela Escola Psicopedagógica de Buenos Aires (Argentina).

Fonte: Diálogo 35 - AGO/2004
Postado por: Diálogo




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Violência e indisciplina no ambiente escolar
Nas duas últimas décadas, verifica-se significativo avanço da violência no contexto internacional e brasileiro, desvelando um cenário que se manifesta em diferentes espaços e contextos.
Os (des)caminhos da educação no Brasil
Anders desafia a todos nós, professores, gestores, estudantes e pesquisadores, a interpretarmos as transformações de nosso tempo,
Hoje não tem prova, tem jogo
A educação atual passa por uma crise de valores, práticas pedagógicas e formação docente, o que causa nos professores um enorme desgaste emocional.
Sintonia escola família
Um dos principais desafios enfrentados pelo Ensino Religioso é a falta de conhecimento claro de sua identidade e objetivo, por parte dos familiares dos alunos que, não raro, temem ver seus filhos alvos de discriminação ou de proselitismo.
Música na escola
“Um povo que sabe cantar está a um passo da felicidade” – disse Villa-Lobos.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados