A procura do sagrado nas novas expressões religiosas

Data de publicação: 02/02/2016


A aula de Ensino Religioso é espaço de troca sobre o relacionamento com o sagrado. As crianças e os adolescentes acompanham a religiosidade dos pais. Os jovens, porém, procuram se emancipar por caminhos novos.
As últimas décadas têm trazido novas expressões na relação com o sagrado. São os chamados novos movimentos religiosos. O termo “novo” indica temporalidade – são mais recentes – e qualidade – pretendem inovar a prática religiosa por meio da emoção e da  experiência comunitária. Sociologicamente, resultam da reação à modernidade, que propôs utopias dissociadas da religião.

Novas respostas
Os movimentos religiosos, Igrejas e seitas, no caos da cidade, são espaços de reconhecimento diante da exclusão social e da solidão. São alternativas às velhas respostas das tradições religiosas para perguntas novas de contextos recentes. Ressignificam a dor, a violência, a pobreza e a falta de perspectiva de vida. Propõem cura, libertação, harmonia conjugal e familiar e sucesso financeiro. Oferecem às pessoas esquecidas pelo sistema ou angustiadas pela condição existencial o acesso à fonte da felicidade que remete à transcendência, ao sagrado e ao divino.
O milagre, o mágico e o emocional são fundamentais nos novos movimentos. Existe acolhida, cordialidade e reconhecimento pessoal, por meio de testemunhos e partilhas de experiências. O papel de Deus é somente ajudar as pessoas na luta da vida. É uma alternativa ante a religião intelectualizada com doutrinas e teologias formais.  
Há movimentos dualistas que reagem contra a modernidade, pregam uma moral sexual rígida e opõem-se aos cultos considerados pagãos: feitiços, idolatrias, superstições. Organizam a vida social dentro do movimento e evitam contato com ideias diferentes. Outros absorvem elementos da modernidade e se identificam com práticas da Nova Era, enquanto pretendem valorizar a experiência do sujeito mais do que delimitar um objeto para a fé.

Tendências diversas
 É difícil classificar os novos movimentos religiosos, pela complexidade de elementos que se entrecruzam. É possível identificar alguns de base cristã, com acento evangélico e pentecostal. São grupos fundamentalistas, católicos ou protestantes. Enfatizam a relação pessoal com o Espírito Santo e a mudança de vida, porém não acolhem a diferença. São críticos em relação à prática religiosa tradicional, mas retomam e radicalizam normas, ritos e interpretações das antigas tradições. Sentem-se interpelados às mudanças devido às novas condições da sociedade e da cultura moderna.
Há também movimentos de origem oriental, que acentuam a experiência religiosa com base no hinduísmo ou no budismo. Nas grandes cidades, oferecem alternativa de reação à cultura e à religião do Ocidente, racionais, pragmáticas e pouco holísticas. Nesse contexto ressurgem vertentes da gnose, do ocultismo e do esoterismo.
Existem, ainda, movimentos que prometem desenvolver potencialidades humanas desconhecidas. Associam ao dado religioso recursos e técnicas corporais e empregam noções pouco profundas de Psicologia, Física e Astronomia para explicar práticas e crenças. Refletem sobre dimensões cósmicas e ecológicas das religiões e formam um complexo sincretismo.
Por fim, há movimentos que surgem ao redor de um líder dotado de dons e carismas pessoais capazes de persuadir. Os seguidores o têm como inspiração e norma de conduta.

Relação com a sociedade
Os novos movimentos religiosos são rejeitados e criticados porque condenam valores e comportamentos e evocam um mundo menos materialista. Outros assimilam as novas tecnologias e adaptam-se às necessidades e esperanças das pessoas. Finalmente, há movimentos que não se preocupam com a sociedade e sim com o indivíduo. Não fogem da sociedade, mas enfatizam a libertação do ego em vista de bem-estar e felicidade individual.
Não há entre os novos movimentos engajamento ecumênico. Muitos se fortalecem justamente no afastamento das tradições religiosas históricas e outros pensam de forma exclusiva a relação com Deus. Poucos entram em iniciativas comuns de Igrejas e religiões na promoção da paz, da ecologia e da justiça.



Quando surgiram

No Brasil, a urbanização dos anos 1960 trouxe isolamento e fragmentação e os movimentos religiosos favoreceram integração social às novas populações urbanas. Permitiram ao povo reorganizar a vida social, dar um sentido ao peso da vida cotidiana e alimentar a esperança. 
A partir de 1980, surgiram movimentos neopentecostais, enfatizando que a causa dos males é o demônio e a necessidade de se libertar as pessoas. Passaram a atrair pessoas de níveis sociais mais elevados, à procura de ritos e práticas religiosas capazes de ajudar na reestruturação da personalidade. Nessa perspectiva, difundiu-se a ideia de que o objetivo da procura de Deus é a felicidade neste mundo.
A cultura de massa, atualmente, tende a ajustar a mensagem dos movimentos às novas exigências religiosas. No Brasil, movimentos compraram jornais e redes de TV e de rádio e usaram a internet bem como as novas tecnologias para expandir sua mensagem. O enriquecimento de alguns grupos foi surpreendente. A intensa coleta de ofertas baseou-se na ideia de que a pessoa se liberta do diabo mediante desprendimento financeiro em favor do altar. Há um contrato de troca de favores: o fiel dá o dízimo para receber inúmeras bênçãos que garantirão seu bem-estar.

Critérios, com urgência!
A sala de aula é espaço de acolhida e respeito, porém, é necessário ter critérios claros para um conhecimento esclarecedor e significativo na vida dos alunos. É indispensável saber que os novos movimentos religiosos tendem a reduzir a religião à simples procura de realização humana. Fala-se de Deus, mas deseja-se satisfazer ne­cessidades vitais.
A linguagem sobre o sagrado permanece na imanência. Por isso, há críticas até para a denominação: “Novos movimentos religiosos”, pois eles têm pouco de religião. Para alguns teóricos, esses grupos decompõem a religião na mágica, ou numa espécie de novo humanismo. Se considerarmos religião, os novos movimentos devem ser vistos como terapia para os processos de violência moderna. Não combatem nem transformam a realidade, mas oferecem paz e segurança para as vítimas do mundo desumanizador.
No eixo das teologias, pode-se mostrar aos alunos que os novos movimentos religiosos proporcionam uma nova leitura da religião ante o Transcendente. Diante da fragilidade e dos limites humanos, é preciso propor a relação com o sagrado capaz de organizar a vida, dar-lhe sentido, oferecer responsabilidade e participação e abrir esperanças de futuro, à luz da transcendência.
O desafio dos novos grupos às Tradições Religiosas é o testemunho de que o relacionamento com Deus leva para muito além do individualismo e da necessidade imediata.

•    Doutor e padre Leomar Brustolin, professor de Teologia e coordenador do curso de pós-graduação em Ensino Religioso da PUC-RS – Porto Alegre (RS).

 
Conheça mais
A religião na sociedade pós-moderna –  Stefano Martelli
Editora Paulinas, 1995 – 496 págs. – Coleção Sociologia Atual Código 08449-1.
Um estudo sociológico sobre o fenômeno religioso na sociedade pós-moderna. 

O homem e sua religião, enfoque psicológico – Jean-François Catalan
Editora Paulinas, 1999 – 160 págs. – Coleção Atualidade em Diálogo – Código 9178-2.
A partir de uma sociedade secularizada, a obra aborda o fenômeno religioso sob o ponto de vista da Psicologia.

Expressão popular do sagrado – Paulo Bonfatti 
Editora Paulinas – Coleção Religião e Cultura – 192 págs.
Código 09794-2.
Estudo da crença, da cultura e do psiquismo do povo brasileiro e análise do fenômeno do crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus.

Fonte: Diálogo 42 - Maio/2006
Postado por: Diálogo




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