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Data de publicação: 15/02/2016


 As aulas de Ensino Religioso iam bem, havia um interesse sobre muitas questões que, geralmente, “dão pano pra manga”. No entanto, quando preparei a classe para tratarmos dos textos que, para muitas religiões, orientam a vida dos seus adeptos, foi surpreendente. Diversas reações foram observadas, algumas dignas de registro.
Levei para a sala de aula livros sagrados de várias religiões para que os alunos pudessem manuseá-los. O que mais me chamou a atenção foi um certo medo dos alunos de tocar, por exemplo, no Livro dos Espíritos ou no Evangelho Segundo o Espiritismo. Parecia que algo, que a pessoa não estava esperando, poderia acontecer.
Foi grande a admiração pelos escritos do hinduísmo e das religiões orientais e suas respectivas interpretações. Havia curiosidade em folhear o Alcorão (islamismo) e a Torá (judaísmo). O fato de entrar em contato com um material que, há tantos anos, sustenta o caminhar dessas religiões parece embevecer cada aluno.
Para muitos deles, assumidamente cristãos, havia a decepção de conhecerem tão pouco as escrituras sagradas de sua própria religião, a Bíblia. Lembro-me de um aluno que ficou entusiasmado ao conhecer o Livro de Mórmon, e disse: “...que legal, agora já posso conversar com aquela dupla que passa lá na minha rua” – fazendo uma alusão aos missionários da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Com isso, podemos concluir que o fato de os alunos conhecerem “com as mãos”, esses escritos lhes dá uma sensação de apropriação que os possibilita ou os encoraja a dialogar com o diferente.
Outro fato curioso, para o qual devemos estar preparados, é o número de perguntas a respeito desses escritos. Ao darmos tempo e material, eles logo descobrem paralelismos, traçam comparações e elaboram conclusões interessantes.
A partir do estudo dos escritos sagrados, fica mais fácil o entendimento do pluralismo religioso, afinal cada um tem sua geografia, cronologia, filosofia, mitologia, inspiração e interpretações. Nessa esteira, discutem-se os símbolos, os ritos, as concepções religiosas, as particularidades culturais, entre outras coisas.
Numa classe do 2º ano do ensino médio, um grupo apresentou um trabalho de comparação entre o Alcorão e a Bíblia. Ficaram felizes e surpresos com tantas aproximações, “foi uma oportunidade de nos livrarmos de alguns preconceitos em relação aos islâmicos” – disseram eles. Um outro grupo teve a ideia de fazer um calendário, tipo aquele da filosofia Seicho-No-Iê, no qual colocaram, para cada dia, uma frase de um livro sagrado de uma religião diferente. Deram o nome de Calendário da Paz.
Esta experiência de trabalhar com os escritos sagrados é, na verdade, uma porta de entrada para a discussão de muitos temas de Ensino Religioso. Ressaltamos o envolvimento com as aulas de Literatura para entendermos os estilos literários dos textos. É nesse universo de novidades que cada um descobre a importância dos registros, a riqueza de sensibilidades do espírito e a valorização daquilo que fundamenta a fé.

Fonte: Diálogo 35 - AGO/2004
Postado por: Diálogo




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