Escola, espaço de reflexão

Data de publicação: 23/03/2016


A sala de aula é um espaço para o qual os alunos trazem experiências, conteúdos de vida. O diálogo e a partilha de acertos e desacertos, de expectativas e buscas, de valores e padrões de comportamento devem constituir uma preocupação do educador, a fim de estabelecer, junto com os educandos, parâmetros na construção da subjetividade de cada um.
O nosso relacionamento com os outros nos impõe um aprofundamento de nossa consciência e responsabilidade diante das contingências do mundo em que vivemos e dos desafios com os quais nos defrontamos no dia a dia. Abrir espaços de diálogo para o jovem é permitir que ele exista de fato, é dar-lhe oportunidade de colocar-se como sujeito e artífice da sua própria formação, na liberdade e responsabilidade.
Antes de tudo é preciso ouvir o que o educando tem a dizer, discutir com ele expectativas, direitos e deveres implícitos em sua fala, destacando pontos-chave para a elaboração de juízos norteadores do comportamento humano. A experiência do aluno é a base de sua autoeducação. O texto que segue é de um aluno que procurou dividir com o grupo, em sala de aula, a legitimidade do seu comportamento:
“A galera tinha me convidado para sair. Eu topei. Eu estava duro, sem grana no bolso. Atravessávamos a Avenida Paulista (na cidade de São Paulo), de ônibus, quando vi uma carteira no chão, debaixo do banco à minha frente. Logo peguei para mim e a escondi no bolso. Foi o meu dia de sorte. Treze na cabeça!
Em seguida, chegou um senhor:
– Vocês viram uma carteira? Não?! Ah, meu Deus! E agora…
Bem, fiquei quieto, senão iam pensar que eu era um ladrão. E se aquele homem não fosse o dono da carteira? Dinheiro achado não é roubado. Azar de quem perdeu. Se eu tivesse dado a carteira ao cobrador e aquele cara não tivesse aparecido, com certeza ele ia ficar com a grana também”.
Os colegas de classe olharam Rodrigo com ar de repreensão. Luana disse ao colega que ele deveria ter tido mais consciência. Tentando justificar-se, Rodrigo procurava a aprovação do grupo, quando a professora perguntou-lhe:
– O que você fez com o dinheiro?
– Virou sanduíche, refrigerante... Eram apenas 30 reais.
– E o pobre homem? – continuou a professora.
– Todo mundo nesta vida já perdeu algum dinheiro! – justificou Rodrigo.
O fato é real. O discurso do jovem mostra que a busca de justificativa é uma atitude comum na sociedade, uma forma de desculpar a consciência em suas transgressões. Não existe coação social para esses casos. A sociedade muitas vezes é conivente com o erro. A falta de parâmetros, a mentira velada, a ausência de amor ao próximo, comum nos dias de hoje, tornam a sociedade descompromissada com a justiça, o respeito ao outro e aos direitos humanos. Mudar essa situação exige, antes de tudo, não compactuar com esse clima de impunidade e assumir um compromisso ético perante a vida.
A escola precisa despertar no jovem, a partir da construção de sua objetividade, o desmascaramento da hipocrisia humana como um mal institucionalizado. A mudança da sociedade começa a partir do encontro de uns com os outros, numa relação respeitosa, honesta e verdadeira.
O educador poderá trabalhar esse caso sob a forma de um júri simulado ou de um sociodrama. Poderão ser levantados outros fatos semelhantes ocorridos com os alunos ou na sociedade.
Algumas questões para trabalhar o relato:
– Você acha que Rodrigo agiu bem ou mal? Por quê?
– O que esse jovem revela a respeito do seu posicionamento diante da vida?
– Quais as consequências sociais de tais atitudes?

* Sílvia Cipolla
Pedagoga e coautora da coleção de Ensino Religioso, Convivência e Liberdade, publicada por Paulinas Editora.

Fonte: Diálogo 39 - AGO-2005
Postado por: Diálogo




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