Educando para a inclusão

Data de publicação: 03/05/2016


No ano passado, ocasionalmente, revi uma colega de colégio. Ela tinha um problema nas pernas. Todos os dias o pai a carregava do carro à sala de aula, escadas acima na entrada, escadas abaixo na saída. Na época nada era adaptado a pessoas com deficiências. Os dias passavam… Ela sempre carregada pelo pai, ano após ano. Chegou o tempo em que, no colo do pai, seus pés quase tocavam o chão. Minha colega cresceu, formou-se, casou e teve filhos. Hoje me lembrei dela…
O momento em que os pais recebem a confirmação de uma deficiência na criança é muito traumatizante, pois o contato com a diferença não faz parte do cotidiano da maioria das pessoas, que reagem das mais variadas formas. A reação dos pais ao diagnóstico daquela menina possibilitou a ela, na idade adulta, levar uma vida normal. Às contemporâneas de escola, como eu, possibilitou “estabelecer a escola como um espaço de respeito e valorização da diferença”. Como diz Antonio Boeing no texto escrito para esta revista, é preciso deixar de ver a diferença como problema e assumi-la como oportunidade. E ainda: “Por muito tempo a educação procurou a homogeneidade das pessoas e neutralizou as diferenças”. Júlio André Dela Corte também destaca ser necessário “o preparo da turma para uma convivência igualitária, na qual a importância das diferenças entre os indivíduos seja enfatizada. A base do desenvolvimento das relações humanas é a diversidade, que deverá ser tomada na sua justa medida. Comportamentos de rejeição e de superproteção devem ser trabalhados e superados ao máximo”. E ainda “um dos primeiros passos do processo é a conscientização da comunidade acadêmica para aceitação da diversidade e, com isto, produzir reflexos em sua prática pedagógica para tal diversidade”.
A abordagem da questão, por todos os articulistas, a partir da diversidade, indica-nos com clareza o caminho a seguir: acolher, abrir a porta, abrir o coração. Nossa meta? A inclusão.

Aprendendo a ensinar

Acolhimento solidário
Sugestões de atividades que motivem os educandos a valorizar e acolher pessoas com diferenças.


O conhecimento leva a novas atitudes

Pesquisar o significado de palavras do dicionário e expressões que falem de acolhida. Organizar pequenos grupos e distribuir palavras entre eles.
Pedir que dialoguem e escrevam um texto a respeito das palavras, por exemplo: acolher, receber, hospedar, aceitar, dar boas-vindas, hospitalidade, abertura.
Acolher é abrir espaço: em casa, em volta da mesa, na escola, na sala de aula, na vida, no coração. A gente em­purra um móvel, arruma uma cama, puxa uma cadeira, afasta uma carteira, gasta um pouco de tempo. O mundo no qual todos saberiam acolher ainda não existe, mas é um mundo possível. À nossa volta realizam-se muitos gestos de acolhida... Mas, para acolher, temos de fazer escolhas e assumir riscos.
Após os grupos terem apresentado seus textos, dialogar a respeito das atitudes de mútuo acolhimento na classe e daquilo que é preciso mudar para que todos se sintam incluídos e acolhidos.

Experimentar o que significa uma deficiência
Objetivo: Experimentar a dificuldade de uma deficiência. Refletir a respeito de valores que surgem de tais situações.

Cadeirante

Fazer um círculo com cadeiras igual à metade do número de educandos.
Organizar a sala em dois grupos.
Um dos grupos senta-se nas cadeiras e é amarrado a elas com uma faixa ou cinto.
O outro entra no círculo e recebe objetos curiosos, brinquedos, livros, revistas etc.
O grupo caminha pelo círculo, troca objetos, diverte-se, conversa e ignora a presença dos cadeirantes.
Após alguns minutos, trocar as posições dos grupos.
No fim da experiência, dialogar a respeito das sensações experimentadas e das reflexões que surgiram.

Cegueira
Delimitar no pátio uma pista na qual todos irão correr nos dois sentidos, sem parar, imitando sons de carros, numa avenida sem farol.
Vendar completamente os olhos de alguns educandos e pedir que aguardem a ausência de carros para atravessar.
Após algum tempo, sem conseguir atravessar, tirar a venda e trocar a posição com outros educandos, até que todos tenham sido carros e também pedestres cegos.
Dialogar a respeito das sensações vividas e das reflexões que surgiram.

Surdez
Organizar a turma em dois grupos e posicionar um de frente para o outro.
Os participantes de um grupo vedam os ouvidos com as mãos.
O outro grupo fala, faz gestos, combina passeios, jogos, festas, manifesta entusiasmo e companheirismo, depois saem todos abraçados, enquanto o grupo dos “surdos” observa de longe.
A seguir, inverter a atividade de cada um dos grupos.
Dialogar a respeito das sensações e das reflexões que surgiram.
Exercitar mensagens de acolhida na Linguagem Libras (veja artigo à pág. 28).

Pessoas famosas com deficiências
Objetivo: Conscientizar os alunos de que as pessoas com deficiência têm muito a ensinar, pelo modo como desenvolvem habilidades e vivem valores.
Pedir aos educandos que pesquisem a respeito da vida dos gênios que tinham alguma deficiência (veja seção Você sabia)
Pedir que descubram outras pessoas famosas da atualidade, por exemplo:
Agatha Christie ditava os livros, pois não conseguia escrever;
Tom Cruise memoriza as falas por meio de gravação, porque é disléxico.
Após a apresentação dos trabalhos, dialogar com a turma a respeito dos valores que essas pessoas precisaram cultivar para realizar seus sonhos, apesar da deficiência.
Concluir o trabalho refletindo: “O que essas pessoas têm a nos ensinar?”. E outras questões sugeridas pela classe.

A arte valoriza o diferente
Objetivo: Vencer o preconceito que existe em relação ao diferente.
Coletar ilustrações e objetos que mostrem o corpo humano na arte de diversas épocas e regiões do mundo, inclusive artesanato da região.
Expor tudo para que seja visto, tocado, sentido.
Pedir aos educandos que observem se as proporções do tronco, dos membros, da cabeça, de pés e mãos e a cor das obras de arte são semelhantes ao nosso corpo ou não.
Dialogar: A arte é admirada justamente por ser “diferente”. Em nossa vida, o que nos impede de valorizar o diferente? Quais sentimentos nos levam a ser iguais a todos? Esses sentimentos nos ajudam a ser nós mesmos? Como se sentem as pessoas cujo corpo tem algo diferente? Como podemos ajudá-las a se sentirem incluídas?

* Yvone Maria de Campos Teixeira da Silva
Pedagoga, psicopedagoga, mestra em Ciências da Religião pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), autora de livros de Ensino Religioso, atualmente é vice-diretora de Ensino da Faculdade de Tecnologia das Faculdades Integradas do Ipep (Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa) de São Paulo.

* Maria Inês Carniato
Irmã paulina, diretora de Redação da revista Diálogo e autora da coleção de Ensino Religioso Fundamental, editada por Paulinas Editora.



Fonte: Diálogo 40-OUT/2005
Postado por: Diálogo




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