Habemus bola!

Data de publicação: 03/05/2016

 

O sagrado no futebol

 Diversos fatores podem ser analisados no âmbito esportivo. Nosso foco está na ligação com o sagrado, isto é, na aproximação com o transcendente. O fenômeno não é recente – um bom exemplo da relação pode ser visto na antiga Grécia, onde havia jogos funerários e de caráter devocional, com demonstrações de força, habilidade física e controle psicológico. Os atletas vitoriosos eram glorificados.

Analisar o esporte sem tratar de seu simbolismo seria impossível. São seus arquétipos: as Olimpíadas – que envolvem várias modalidades, o que de certa forma implica em uma “pulverização” ou “generalização” do elan de torcida – e a Copa do Mundo – que potencializa ao máximo o desejo e até o patriotismo dos torcedores.

O hino da seleção brasileira na Copa de 70 é um bom exemplo disso: “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção… Todos ligados na mesma emoção, tudo é um só coração”.

Onde há competição de futebol, há fatores que lembram aspectos da cultura local. Além disso, o dramático e o passional vivem uma misteriosa aliança nas figuras do atleta e do torcedor. Também não é possível desvincular o futebol dos rituais (o sentido do termo, aqui, não é figurado): basta lembrar que, por determinação da Fifa (Federação Internacional de Futebol Association), nos jogos mais importantes, as equipes se reúnem no centro do gramado para a execução dos hinos nacionais. O cenário do espetáculo é maravilhoso, a festa e todos os rituais celebrados instauram uma situação fantástica e evocam ritos de sociedades arcaicas.

 

O templo lotado

O espaço do futebol, o estádio, é comparado muitas vezes a marcos do locus religioso. Frequentemente ouvimos ou lemos referências do tipo “um jogo no santuário tal”, “cidade santa”, “o templo está lotado”, “a catedral precisa de reforma” e “vai haver uma peregrinação”. A linguagem religiosa é usada, como se há muito tempo os personagens do espetáculo fossem deuses ou demônios, satos, pecadores ou acólitos. No esporte, temos traços de uma experiência vivida como se fosse profana e que é descrita, analogicamente, como religiosa.

Uma situação interessante é a responsabilidade de “jogar em casa”. Definitivamente, no próprio estádio só o “santo de casa” pode fazer milagres! A história das religiões nos informa acerca de certos lugares, verdadeiras praças de um axis mundi, onde o sagrado manifestava particularmente sua presença e onde a comunidade se sentia forte, invencível, e preparada para enfrentar, com auxílio dos deuses, os maiores obstáculos da vida. Os donos do estádio sentem-se “protegidos”; os visitantes, por sua vez, não têm vida fácil nesse território. O espaço sagrado do outro é, definitivamente, o meu espaço profano. Parece existir uma energia, um mana, que corre do gramado para a arquibancada, da voz do radialista para os rádios de pilha e para os ouvidos dos torcedores, das câmeras de TV para dentro das casas. É o “fogo liberto” do esporte mais popular, que chega ao ápice nos jogos decisivos, em que todos se doam ao máximo. Por essa ótica, uma final de Copa do Mundo, por exemplo, reuniria de forma exemplar os elementos que o teólogo Rudolf Otto, no livro Das Heilige (O Sagrado), obra escrita em 1917, utiliza para definir o sagrado: tremendo e fascinante. Contudo, mesmo “protegidos” pelas “divindades tutelares” que olham por seus estádios, os atletas às vezes se vêem diante de outras potestades que podem vencê-los em seu próprio campo de batalha. Isso deixa o futebol mais emocionante e mais difícil de ser compreendido.

 A pequena deusa

O que dizer da bola? A bola traz o ludens, é o símbolo perfeito do brincar, do interagir. Poucas pessoas no mundo não tiveram a oportunidade de “bater uma bolinha”. A vida sem as pelotas seria mais difícil. Muitas vezes elas nem mesmo respeitam a forma: uma laranja, uma lata ou uma pedra, por exemplo, podem garantir momentos inesquecíveis. Brinquedo para uns, instrumentos de trabalho para outros e, acima de tudo, motivo de alegria para a maioria.

No futebol, a bola é o objeto a ser conquistado de pés pagãos, controlado, passado para o outro... Compartilhado. A equipe que conseguir usufruir mais das situações favoráveis no contato com ela é vitoriosa. Quem consegue se manter mais tempo com a bola nos pés – não precisa, necessariamente, vencer a partida – demonstra poder. Ela separa e une os adversários. Em outros tempos, inclusive, era chamada “a noiva”, o que denota um desejo de integração, verdadeiro uroborus. O dono da bola é, ao mesmo tempo, um ser respeitado e odiado. Ela é um verdadeiro meio de comunicação, sua linguagem é global e de fácil interpretação: basta chutar e aguardar uma resposta “divina” ou “mundana”.

Para muitos, atualmente a bola está sendo maltratada, mas, se imaginarmos o futebol como caça, revivendo os tempos arcaicos, a situação se mostra comum, já que existiram bons e maus caçadores. A bola é o alvo, mas alguns “caçadores” mudam o objeto do desejo: em vez de “caçar” a bola, visam as canelas e os joelhos dos rivais. Esses mal informados “profanadores” se esquecem de que existem leis a serem seguidas. O culto, a caça, a reverência à bola, seja como forem denominados por seus adeptos, têm que ser feitos dentro de limites.

Assim, em poucos dias, quando as maiores estrelas do futebol entrarem em campo, serão saudadas pelos “fiéis”, que gritarão os nomes de seus ídolos e entoarão hinos para obter o favor divino. Eles querem a retribuição na forma da vitória. Milhares de espectadores estarão nos templos virtuais para celebrar o “culto à bola”. O objetivo da equipe é sempre vencer e, para tanto, é necessário marcar gol.

 A consagração

O que significa o gol? Significa o mistério revelado, a fusão entre equipe e torcida numa celebração que mescla graça, alívio e felicidade pelo sacrifício do inimigo, é o acontecimento superior num jogo. Opera ruptura de níveis e estabelece a momentânea ligação entre a terra e o céu. Não admira que a maior parte dos jogadores festeje o gol com um salto vigoroso e libertador, ou que abra os braços como se voasse! É preciso ter marcado pelo menos um gol, no estádio, na várzea ou na rua, para sentir a felicidade que ele representa.

Por fim, não existem finais de semana sem reuniões na maioria das Igrejas, assim como não há finais de semana sem futebol. A Copa do Mundo é finalizada no prazo de mais ou menos um mês; ela pode “morrer” no domingo, 9 de julho, mas os ecos do “ritual” estarão nos jornais, nas rádios e na TV, que, desde o advento do videoteipe, não param de repetir à exaustão os principais lances. Isso presenciaremos durante quatro anos. Até que seja dado o apito inicial da próxima Copa. E que Deus nos ajude em nossa torcida!

 

Miniglossário

Élan (vital) – Termo usado por Henri Bergson (Nobel de Literatura de 1927). É o impulso vital, criativo, que alimenta vivências cada vez mais ricas e elaboradas. No texto, se refere à soma de coragem, energia, flexibilidade e criatividade dos grandes jogadores.

Locus – Do latim, local, sítio ou posição.

Axis mundi – Eixo ou centro do mundo. Identifica a linha simbólica de interseção entre a terra e o céu, entre o homem e a divindade. Em várias culturas, montanhas sagradas tinham essa atribuição.

Mana – Termo Kahuna (povo da Melanésia). Energia vital. No Ocidente se traduz por força de ordem física e, em certo sentido, sobrenatural. Revela-se na força física e em toda espécie de poder e de superioridade que o homem possui.

Fogo liberto – Do alemão, feuer frei. No texto, o sentido é o de pulsão irracional, de fúria e destruição.

Ludens – Do latim, brincando. O homo ludens (termo criado pelo historiador holandês Johan Huizinga) se sobrepõe ao homo sapiens e desempenha papel fundamental na civilização.

Uroborus – Do grego, dragão ou serpente que devora a própria cauda. Figura da alquimia, indica o círculo ou o processo de evolução contínua.

 Preparado pelo autor. 

 

Copa ecumênica

Conta o rei Pelé que antes da Copa de 70, quando estava em Guadalajara, no México, sua esposa lhe disse ao telefone: “Estamos rezando por vocês. Por que vocês não rezam também?”. Imediatamente o rei convidou três colegas e fizeram uma oração. A delegação brasileira era formada por 40 pessoas, de diversas Igrejas e, em poucos dias, mais da metade estava participando da oração ecumênica todas as noites, antes da reunião de estratégia. “Ninguém pedia a Deus a conquista do Tricampeonato Mundial nem a vitória do dia seguinte. Rezávamos pelos pobres, pelos doentes, pelas vítimas de guerras, pela saúde dos entes queridos, para que ninguém se machucasse durante os jogos, fosse de que país fosse” – conta Pelé. E conclui: “Estou convicto de que os encontros de oração nos ajudaram a vencer as seis partidas que disputamos porque nos uniram, aumentaram o respeito de uns para com os outros e fortaleceram nossa mútua compreensão” (Síntese da publicação em Seleções Readr’s Digest, fevereiro de 1992, pág. 4).

 

* Clodoaldo Gonçalves Leme

Professor de Educação Física e mestre em Ciências da Religião pela PUC de São Paulo (SP).  


 

Fonte: Diálogo 42 - Maio/2006
Postado por: Diálogo




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