O Sagrado: Essência do Fenômeno Religioso

Data de publicação: 02/06/2016


Conforme o geógrafo Milton Santos, o espaço é um sistema de objetos e um sistema de ações. Os objetos passam por uma elaboração social distinta das coisas que são naturais. Sendo assim, no mundo moderno mais e mais as coisas se transformam em objetos pela ação humana. A partir dessa reflexão, propomos o espaço como totalidade dinâmica na qual se realiza a História. Mas a ação humana não é somente material, é também simbólica, dotada de uma vontade e finalidade. Nesse contexto, o espaço não é algo inerte ou apenas palco das ações humanas. Além disso, ele é ao mesmo tempo meio e produto do cotidiano da sociedade. Ao reconhecermos a totalidade das relações materiais e simbólicas, podemos compreender a possibilidade de o espaço sagrado ser a articulação dinâ­mica da ação do homem religioso com os objetos sagrados.

O sagrado é o coração da experiência religiosa

Mircea Eliade, historiador das religiões, entende o espaço sagrado como poderoso e significativo e, como tal, estruturado e consistente. Em contra-partida, o espaço não sagrado é sem forma e vazio. Para o homem religioso, o espaço não é contínuo. É pleno de quebras qualitativas. Mais precisamente: é na experiência do sagrado que o homem descobre a realidade do mundo dos significados e a ambiguidade de todo o resto.
Contudo, podemos pensar o espaço sagrado como uma instância específica do espaço geográfico. Um espaço qualitativamente diferenciado imbuído de sentido e vontade a partir do homem religioso, aquele que tem a experiência do sagrado. Sobre essa base defendemos a integridade da experiência religiosa em oposição a outras experiências humanas. Sob vários aspectos e em muitos momentos, reconhecemos o irromper de um elemento irredutível que transcende as convenções racionais da experiência religiosa. Sendo assim, o sagrado é o coração da experiência religiosa.
O interesse religioso revalida um senso de necessidade de legitimação da experiência religiosa.  Na tentativa de legitimar essas experiências, as instituições religiosas constroem pontes de controle das mesmas. Existe, pois, no âmbito institucional, uma apropriação simbólica do sagrado que justifica o poder religioso. O espaço sagrado, quando apropriado, torna-se território sagrado.
O fenômeno religioso pode ser percebido pela sua materialidade através dos sentidos enquanto paisagem religiosa, porém, quando concebemos uma realidade, também destinamos a ela uma existência puramente intelectual. Sendo assim, os adjetivos de um fenômeno fazem parte desse âmbito: o mundo dos atributos e da nomeação. Do mesmo modo, as realidades do mundo da existência não são intrinsecamente não-sagradas. Em muitas culturas, vários elementos da paisagem natural são tidos como sagrados, na medida em que fazem parte do mundo da criação. Por exemplo, na cultura religiosa zoroastriana, desde o século 5 a.C. até sua expressão tardia na Pérsia e na Índia, os elementos da natureza, a terra, a água e o fogo são considerados sagrados. Nas culturas religiosas africanas, como a cultura Iorubá, a natureza possui uma sacralidade essencial. No budismo The­ravada, o sagrado se apresenta de forma mais impessoal presente no Dhamma. Já nas tradições judaico-cristã e islâmica, o sagrado se distinguiu como a realidade de um Deus pessoal que revela sua vontade ao homem através da História.
Nessa perspectiva, condicionou-se a sacralidade a uma ação externa de consagração do mundo que se realiza na História. O ato simbólico de consagração do mundo é um ato de poder do homem diante da natureza, porém com mandato divino. Na cultura Bahá´í, as relações com o sagrado têm como característica distintiva a ideia de uma renovação cíclica e contínua realizada pelas religiões através da História. Baseia-se na tese da revelação progressiva que prognostica a unidade e relatividade da verdade religiosa no plano da História e da Cultura.

Partir do sagrado: proposta metodológica do ER

O sagrado é a essência do fenômeno religioso e como tal está presente no cotidiano. Justamente na experiência do sagrado no dia-a-dia é que notamos a presença do sentimento religioso. A partir dessas referências, podemos de­duzir que as formas e os conteúdos relativos ao sagrado podem ser considerados como fonte de conhecimento do modo como se apresentam à consciência, nos limites de como se manifestam.
A princípio o sagrado seria exclusivamente explicado em sua própria escala, ou seja, a escala religiosa. Todavia, no plano social ele se apresenta em uma diversidade de relações que nos possibilita estudá-lo na escala das Ciências Humanas.
Foi justamente essa reflexão que com­partilhamos com os colegas da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, na discussão da proposta curricular do ER (Ensino Religioso).
A proposta, sinteticamente, tomou por base quatro instâncias de análise do sagrado.

“ A primeira refere-se às formas concretas do sagrado, do Templo, dos cemitérios e da ação social da religião através de escolas e hospitais. Também os san­tuários e as formas da natureza (rios, florestas, montanhas). Trata-se da paisagem religiosa.
“ A segunda é a apreensão do sagrado pelos seus predicados e símbolos. São as formas culturais nas quais a religião é vivenciada.
“A terceira é a tradição e a natureza imanente do sagrado enquanto fenômeno. Nesse sentido, procuramos entender o sagrado a partir das Escrituras Sagradas, das Tradições Orais Sagradas e dos Mitos.
“A quarta é o sentimento religioso, seu caráter transcendente e transracional. É uma dimensão de inspiração muito presente na experiência religiosa. Trata-se da sintonia entre o sentimento religioso e o fenômeno religioso, é a experiência mística.

* Sylvio Fausto Gil Filho
Pertence à confissão religiosa Bahá’í, é doutor em História, mestre em Geografia e professor adjunto do Departamento de Geografia da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Miniglossário
Zoroastrismo – Religião de Zoroastro ou Zaratustra (região que corresponde ao leste do Irã, Afeganistão e Turcomenistão). A origem étnica e cultural de Zoroastro está ligada aos árias, povo que se estabeleceu ao norte do Planalto Persa.
Cultura Iorubá – Conjunto de aspectos, culturais, mitológicos e linguísticos, compartilhados por povos da África Ocidental, notadamente Benin, Nigéria e Togo, como os povos de Ketu, Oyo e Ilê Ifé, têm Oduduwa, como herói do mito primordial.
Theravada – (Pali: thera “anciãos” + vada “palavra”), a “Palavra dos Anciãos”,  é o nome da escola de budismo que tem suas escrituras no Cânone em Pali ou Tripitaka.
Dhamma – (Sânscrito dharma) termo páli de muitos significados. No texto Dhamma refere-se aos ensinamentos do Buddha.
Cultura Bahá’í – Religião nascida na Pérsia em 1844, fundada por Mírzá Husayn ‘Ali Nurí (1817-1892), conhecido como Bahá’u’lláh (“A Glória de Deus”). Em 1844, Siyyid ‘Ali-Muhammad (1819-1850), conhecido como o Báb (“O Portal”), proclamou ser uma nova Revelação Divina, dando origem à Fé Bábí. Em 1863, em Bagdá, no Iraque, Bahá’u’lláh proclamou ser o Prometido pelo Báb e pelas religiões do passado.
Preparado pelo autor.

A terra como um só lar
Ó tu, Senhor bondoso!
Une todos,
faze as religiões concordarem
e torna as nações uma só.
Para que sejam todos
como uma só família
e tenham a terra como um só lar.
Ó Deus, estabelece a suprema paz,
Enlaça os corações,
Ilumina os olhos,
alegra os ouvidos
e abriga-nos no recinto de
tua providência!
Tu és o Clemente, aquele
que perdoa
as faltas da humanidade!

Trechos da prece bahá’í – Oração
de unidade
(folder Baha’í – Porto Alegre – RS)

Fonte: Diálogo 42 - Maio/2006
Postado por: Diálogo




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