Folclore celebrando nossas raízes culturais

Data de publicação: 22/08/2016



O Dia do Folclore é celebrado internacionalmente, inclusive no Brasil, no dia 22 de agosto. Nesta data, no ano de 1846, foi criada a palavra folklore, em inglês. O autor do termo foi o arqueólogo inglês e grande pesquisador de tradições populares William John Thoms (1803-1885), que fez a junção de folk, “povo, popular” com lore “cultura, saber”, para definir os fenômenos culturais típicos das culturas populares tradicionais de cada nação.
No Brasil, o Dia do Folclore foi oficializado em 17 de agosto de 1965, por meio do Decreto no 56.747, assinado pelo então presidente Humberto de Alencar Castelo Branco e por seu Ministro da Educação, Flávio Suplicy de Lacerda. O conteúdo do decreto determina o ensino do folclore como sendo de importância fundamental para a cultura do País, como pode ser visto a seguir:
Artigo 1º - Será celebrado anualmente, a 22 de agosto, em todo o território nacional, o Dia do Folclore.
Artigo 2º - A Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro do Ministério da Educação e Cultura e a Comissão Nacional do Folclore do Instituto Brasileiro da Educação, Ciência e Cultura e respectivas entidades estaduais deverão comemorar o Dia do Folclore e associarem-se a promoções de iniciativa oficial ou privada, estimulando ainda, nos estabelecimentos de curso primário, médio e superior, as celebrações que realcem a importância do folclore na formação cultural do País.


Diversas expressões do folclore brasileiro
O folclore é a expressão da cultura, dos costumes e tradições de um povo, que se manifesta através da narração oral e escrita de mitos, lendas, contos e anedotas populares. Muitas destas histórias foram criadas para passar mensagens importantes, explicar acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais ou apenas assustar as pessoas. Misturam fatos reais e históricos com acontecimentos que são frutos da imaginação e da fantasia.
Além dessas manifestações, temos muitas outras expressões do folclore, como as brincadeiras, adivinhações, parlenda, trava-língua, como também as festividades e comemorações, encenações (reisado, congada, cavalhada, bumba-meu-boi), músicas e danças (carimbó, frevo, maracatu, ciranda, pastoril), vestuários, comidas típicas, artesanatos e tudo o mais que define a cultura popular.

Pesquisadores do folclore
É importante para uma nação conhecer as raízes de sua cultura, de suas tradições populares. Isso tem despertado o interesse de grandes pesquisadores em várias partes do mundo, desde o século 19. Esses folcloristas se empenharam em resgatar e registrar contos, lendas e as mais variadas expressões da cultura popular.
No Brasil, podemos destacar, dentre outros, o escritor paraibano Ariano Suassuna (1927-2014), cujos conhecimentos sobre o folclore nordestino embasam a sua rica produção literária. O pesquisador, etnógrafo, escritor e folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) foi, sem dúvida, um dos maiores pesquisadores do nosso folclore, responsável pela elaboração do grande Dicionário do Folclore Brasileiro, obra monumental que mantém viva a cultura popular das várias regiões do Brasil.
Nosso folclore é muito rico, talvez um dos mais ricos e diversificados do mundo, com uma multiplicidade de manifestações resultante da extensão do território brasileiro e das diversidades regionais. Para a formação do folclore brasileiro, contribuíram, principalmente, além do elemento nativo, o índio, o português e o africano. Esses três povos formaram as raízes ou embasamento de nossa cultura, enriquecida também pela herança cultural de outros povos, especialmente, imigrantes europeus.
A seguir, apresentamos uma das lendas do nosso folclore: o boitatá. Tente descobrir o que essa lenda quer nos comunicar.

Boitatá: o protetor das florestas
No folclore brasileiro, o boitatá é uma grande cobra de fogo, conhecido também como “fogo que corre”. Esse bicho imaginário foi citado pela primeira vez, em 1560, num texto do padre jesuíta José de Anchieta. Acredita-se que a lenda do boitatá é de origem indígena. Os índios o chamam de mbaê-tata, ou coisa de fogo. Na língua indígena tupi, mboi ou mbaê, que significa cobra e tata fogo. O Boitatá vive dentro dos rios e lagos e sai de seu habitat para assombrar e queimar as pessoas que praticam incêndios nas matas.
Uma lenda que é considerada uma das primeiras do folclore brasileiro. Confirma isso o relato sobre o boitatá encontrado em cartas do padre José de Anchieta, que assim o descreve:
“Há também outros fantasmas nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados de baetatá, que quer dizer, coisa de fogo, o que é o mesmo como se dissesse ‘o que é todo de fogo’. Não se vê outra coisa senão um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os, como os curupiras: o que seja isso, ainda não se sabe com certeza". (Carta de São Vicente, X, in Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Vol. III das Cartas Jesuíticas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1933, p. 128).

Diversidade de interpretações
Há várias versões para a lenda do boitatá. Ele é representado por uma enorme cobra de fogo ou de luz, com dois grandes olhos flamejantes do tamanho de sua cabeça. Algumas vezes, assume a forma de um touro que lança fogo pelas ventas. Às vezes, ele é visto como um facho cintilante de fogo correndo de um lado para outro, protegendo as matas e os animais. Aqueles que desrespeitam a natureza o boitatá persegue e tem a capacidade de matá-los. Na Região Nordeste, o boitatá é conhecido como “fogo que corre”. Algumas versões da lenda contam que se uma pessoa estiver colocando fogo na floresta e se encontrar com o boitatá pela frente, terá uma terrível consequência. Poderá morrer, ficar cego ou até mesmo enlouquecer.
A lenda do boitatá sofreu grandes modificações, conforme a região do Brasil. Em algumas, por exemplo, ele é uma espécie de gênio protetor das florestas contra as queimadas. O fogo que sai de sua boca é mágico, por isso ele não queima as árvores nem plantas das florestas. Em outras regiões, ele é causador dos incêndios na mata. Há uma versão em que o boitatá, uma espécie de cobra, foi o único sobrevivente de um grande dilúvio que cobriu a Terra. Para escapar, ele entrou num buraco e lá ficou no escuro, assim, seus olhos cresceram para melhor se adaptar à escuridão da caverna onde ficou preso após um dilúvio. Em outra versão, do Sul do Brasil, se diz que ele come apenas os olhos dos animais capturados ou já mortos, e são tantos os olhos que devora, que fica cheio da luz de todos esses olhos, razão pela qual tem os seus olhos tão grandes e incandescentes.
Ainda no Sul do Brasil, a explicação para o surgimento da cobra de fogo está relacionada ao dilúvio (história bíblica que fala sobre a chuva que caiu sobre a Terra durante 40 dias e 40 noites), após o qual todos os animais morreram. Apenas as cobras sobreviveram e ficaram muito felizes, pois com a mortandade de animais havia alimento em abundância para elas. Como castigo, a barriga delas começou a pegar fogo, iluminando todo o corpo.
Dizem ainda que o boitatá é o espírito de gente ruim ou almas penadas. Estas são seres sobrenaturais do universo da mitologia portuguesa. Segundo as crenças populares, as almas penadas são o espírito de pessoas falecidas, que, tendo deixado compromissos por cumprir na vida terrena, voltam a este mundo, por favor de Deus, sob enigmáticas transfigurações, na forma de luzes, vozes, suspiros, animais, vultos imprecisos, caveiras, apelando por socorro ou orações, e implorando a algum parente ou amigo que pague a dívida que contraíram em vida ou restitua o que elas roubaram.

O boitatá é o fogo-fátuo

Segundo pesquisadores, no âmbito da ciência, essa lenda está associada ao aparecimento de luz cintilante, intermitente, fogo e incêndio, que ocorrem espontaneamente na mata em função da queima de gases oriundos de material orgânico, da decomposição dos fosfatos de hidrogênio dos corpos de animais mortos.
Há confirmação científica da existência de um fenômeno chamado fogo-fátuo, que representa os gases inflamáveis que emanam dos pântanos, sepulturas e carcaças de grandes animais mortos, que, vistos de longe, se assemelham a grandes tochas em movimento, serpenteando na escuridão da noite, como “fogo que corre”, espantando quem desconhece o fenômeno.

Fonte: Diálogo 83- Jul/Set 2016
Postado por: Diálogo




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