A paz começa pela tolerância

Data de publicação: 04/10/2016


O dia 14 de junho de 2015 ficou marcado pela violência contra a menina carioca Kayllane Campos, de 11 anos. Ao sair de uma cerimônia de candomblé, com sua avó e outros participantes, todos vestidos de branco, ela foi alvo de jovens agressores que, lançando pedras e levantando a Bíblia, gritavam: “É o diabo, vai para o inferno, Jesus está voltando”. Uma das pedras atingiu Kayllane e a feriu na cabeça.

O perigo do fanatismo


O Brasil é conhecido como um país que acolhe e respeita os diversos grupos, sobretudo os religiosos. No entanto, isso pode e deve ser colocado em questionamento, afinal, na história do País não se pode negar a perseguição às práticas religiosas de matrizes indígena, africana e, por vezes, oriental. A intolerância religiosa é, muitas vezes, encoberta na sociedade brasileira, o que é perigoso, pois ela vai se espalhando de maneira silenciosa.

Os fanatismos, não raro, são alimentados por lideranças irresponsáveis, promotoras do ódio ao outro e da negação da diversidade, vêm carregados de dogmatismos e de imposição de uma verdade, geralmente, de salvação. Isso ficou claro no caso de Kayllane, como em tantos outros que vemos nos noticiários do Brasil e do mundo. Portanto, é fundamental discutir e procurar modos de conscientização social sobre a necessária tolerância.

A agressividade religiosa não é nova e sempre foi observada e registrada na História, como o fez o filósofo iluminista francês Voltaire (François-Marie Arouet – 1694-1778), defensor da liberdade religiosa. Conta ele no Tratado sobre a Tolerância, o caso trágico de Jean Calas, morto em 9 de março de 1762, em Toulouse, na França.

O protestante huguenote Jean Calas, de 68 anos de idade, era um bom pai de família, dono de uma loja de tecidos onde empregava uma moça católica e pai de um jovem que se convertera ao catolicismo, sinais claros da ausência de fanatismo religioso na família Calas. Mesmo assim, o comerciante foi entregue “às mãos do erro, da paixão ou do fanatismo”, segundo Voltaire (p. 3). O motivo foi o suicídio de seu filho mais velho, Marc-Antoine, que se enforcou na véspera da data em que deveria renegar o protestantismo e se tornar católico.

Acusado de ter assassinado o filho, ainda que a investigação nada comprovasse, Jean Calas foi interrogado sob as mais terríveis torturas, sempre alegando inocência pessoal e dos familiares. Por fim, levado à praça e amarrado sobre a roda da morte, teve todos os membros quebrados, sob aplauso da multidão fanática, e, depois de esquartejado, seu corpo foi lançado à fogueira. “Uma vez excitados, os espíritos não mais se detêm”, analisa Voltaire (p. 6).

Todo fanatismo e toda intolerância religiosa se consolidam pela força do apelo sentimental e intimatório. Não é desconhecida a força da dimensão transcendente na vida das pessoas, nem o poder de convencimento e alienação possível em nome da fé.

Com essa colocação não se pretende impor um olhar negativo à religião, ao contrário, espera-se despertar apenas um olhar crítico, sem negar a riqueza da vida religiosa no contexto de uma sociedade laica.

A importância da laicidade


Para a melhor compreensão da laicidade, é pertinente destacar um trecho da obra: O Espírito do Ateísmo, do contemporâneo filósofo materialista francês André Comte-Sponville: “Tenho horror ao obscurantismo, ao fanatismo, à superstição. Também não gosto do niilismo (crença no nada) nem da apatia. A espiritualidade é importante demais para que a abandonemos aos fundamentalistas. A tolerância é um bem precioso para que o confundamos com a indiferença ou a frouxidão. Nada poderia ser pior do que nos deixarmos encerrar num face a face mortífero entre o fanatismo de uns – seja qual for a religião que adotem – e o niilismo dos outros. É melhor combater todos eles, sem confundi-los e sem cair em seus respectivos defeitos. A laicidade é o nome dessa luta
(p. 10).  

O autor defende a ideia de que a laicidade é a chance de construção de um caminho de equilíbrio entre o crente e o ateu, entre fanáticos e niilistas. Nesse sentido, a laicidade não se apresenta como negação do transcendente, mas como ferramenta de harmonia entre as pessoas. Um Estado verdadeiramente laico é um Estado da tolerância e do respeito e ambos implicam no direito de escolha.

 

A paz nas religiões


O teólogo cristão Hans Küng, no livro Projeto de Ética Mundial: Uma Moral Ecumênica em Vista da Sobrevivência Humana, defende a tese de que para um mundo de paz é antes necessária a paz entre as religiões. Nesse sentido, ele apresenta três proposições: a. não haverá sobrevivência sem uma ética mundial; b. não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões; c. não haverá paz religiosa sem o diálogo religioso.

A transcendência está muito ligada à dimensão da espiritualidade, mas a espiritualidade não está, necessariamente, ligada à religião, pode, sim, ser parte dela, mas não é posse da religião, porque “os ateus não têm menos espírito do que os outros”, diz  Comte-Sponville (p. 10). Mas há grande diferença entre ambos, pois alguns ateus negam o transcendente e assumem uma espiritualidade imanente.

 

Ensino Religioso, ensinar a tolerância

 

Adquirir conhecimento religioso é uma maneira de transcender, ir além da própria religião. Nesse caso o que se conquista é o conhecimento. E essas considerações ajudam a pensar a prática docente do Ensino Religioso na escola, conforme a proposta do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (Fonaper): “Como todo conhecimento humano é sempre patrimônio da humanidade, o conhecimento religioso deve também estar disponível a todos os que a ele queiram ter acesso” (p. 35).
Para efetivar a sua missão na educação fundamental o Ensino Religioso na escola possui por objetivo “promover a compreensão da religiosidade e a identificação do Fenômeno Religioso em suas diversas manifestações”. O objetivo é alcançado com base nos eixos e conteúdos do Ensino Religioso, que são: Culturas e Tradições Religiosas, Textos Sagrados orais e escritos, Teologias, Ritos e Ethos.

 

* Jerry Adriano Villanova Chacon

Graduado em Filosofia e em Pedagogia com especialização em Ensino Religioso e mestrando em Educação, é professor de Filosofia da rede pública estadual de São Paulo e analista técnico educacional de Filosofia do Serviço Social da Indústria (Sesi) em São Paulo (SP).

    Referências

          COMTE-SPONVILLE, André. O Espírito do Ateísmo: Introdução a uma Espiritualidade sem Deus. Tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

FONAPER – Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Religioso. São Paulo: Mundo Mirim, 2009.

KÜNG, Hans. Projeto de Etica Mundial: Uma Moral Ecumênica em Vista da Sobrevivência Humana. São Paulo: Paulinas, 1993.

MOCELLIN, Teresinha Maria. O Mal-estar no Ensino Religioso: Localização, Contextualização e Interpretação – Tese de Doutorado em Ciências da Religião. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008.

VOLTAIRE. Tratado sobre a Tolerância: A Propósito da Morte de Jean Calas. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

 

 

Fonte: Diálogo - nº80 -Outubro/dezembro 2015
Postado por: Diálogo




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