Tradição e modernidade

Data de publicação: 04/10/2016


Por: César Vicente

 Idealismo e pragmatismo. Livre pensar e dogmatismo. Socialismo democrático e capitalismo liberal. Ainda que tais dicotomias separem as formas de pensar nas sociedades contemporâneas, algumas vezes de forma tão irreconciliável quanto as moléculas de água e de óleo em uma panela de cozinha, nenhuma delas, talvez, esteja mais presente no Ocidente do que a bifurcação constatada entre a tradição e a modernidade. Afinal, a cada novo passo dado hoje rumo ao futuro, que prontamente descarta a novidade tecnológica inventada ontem, alguém questiona se isso contribuirá para aproximar mais a humanidade de si mesma ou se não será apenas outra ferramenta a aprofundar o abismo entre as pessoas. A diferença, no entanto, é que, de tanto incomodar o entendimento e os sentidos, esse enorme contraste já provoca alguns esforços na direção de se redesenhar o tenso chiaroscuro existente entre as duas partes e vertê-lo em um quadro com mais sutis nuances. O melhor exemplo pode ser quando a ciência se despe de sua autossuficiência e vai beber nas fontes da sabedoria tradicional para aprender, ensinar e, principalmente, dialogar.

Mas seria isso possível? Sim. A prova de que a tradição, o saber tradicional, e a modernidade, com o saber científico, podem aprender a falar um idioma comum é o Projeto Encontro de Saberes nas Universidades Brasileiras. A iniciativa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), sediado na Universidade de Brasília (UnB), surgiu em 2006 justamente com o objetivo de possibilitar o diálogo entre o mundo acadêmico e o dos saberes tradicionais. O desafio, claro, é grande levando-se em conta o profundo fosso que separa o espaço acadêmico, altamente letrado, e os saberes populares, centrados na oralidade, e que preservam matrizes indígenas e africanas ou de outras comunidades, acumuladas durante séculos no Brasil. Mas nem por isso irrealizável.

 

Memória oral

De acordo com o professor José Jorge de Carvalho, do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do INCTI, o Encontro de Saberes promove, nos cursos de graduação de várias áreas, a junção de mestres dos saberes tradicionais com docentes acadêmicos, em módulos de duas ou três semanas.
Entre os mestres tradicionais, constam, por exemplo, Benki Pianko, da comunidade Ashaninka, do Acre, conhecedor de técnicas de reflorestamento; Maniuwa Kamayaurá, do Alto Xingu, que conhece a arquitetura e a engenharia das casas xinguanas; Biu Alexandre, de Pernambuco, mestre de artes cênicas; Zé Jerome, de São Paulo, da área de congado e moçambique; Lucely Pio, de Goiás, quilombola e prático em plantas medicinais; Casimiro Tukano, xamã do Alto Rio Negro, que fala sobre a cosmovisão de seu povo, e Antônio Bispo, quilombola, filósofo e especialista em desenvolvimento e biointeração.

“Lucely apresentou seu módulo com um professor de Farmácia, enquanto Maniuwa trabalhou ao lado de um professor de Arquitetura. Para os alunos, é uma ótima oportunidade de ampliar a ideia sobre os mestres e os docentes”, comenta o antropólogo José Jorge, a respeito da interação entre acadêmicos e mestres tradicionais.

O coordenador não tem dúvida de que a universidade tem muito a aprender com os saberes consolidados através dos muitos séculos de observação e de trabalho dos povos que se empenharam, geração após geração, em transmitir e preservar conhecimentos, quase sempre através da memória oral. “O Brasil tem comunidades indígenas que chegam quase a 300 nações, falando 140 idiomas, além de inúmeras comunidades afro-brasileiras, com suas religiões e tradições, e dos quilombolas, ribeirinhos, vazanteiros, geraizeiros, comunidades de fundos de pastos e quebradores de cocos apenas para citarmos algumas delas. São inúmeras as comunidades tradicionais, cada uma detendo conhecimentos específicos, muito sutis e próprios, adquiridos e consolidados ao longo de séculos e gerações, conectadas umas com as outras e com suas especificidades”, afirma.

O diálogo entre docentes e mestres é também uma estratégia para evitar que o conhecimento oral se perca. “Muitas comunidades tradicionais recebem pressão de vários tipos. Os indígenas e quilombolas, por exemplo, têm problemas com seus próprios territórios, que, muitas vezes, impedem seus sábios de se deslocarem e de transmitirem os conhecimentos aos mais jovens. O Encontro de Saberes é uma tentativa de estimular e reforçar os processos de transmissão dentro das próprias comunidades tradicionais”, afirma o antropólogo José Jorge.

 

Ampliar saberes

A iniciativa de voltar a academia para os saberes tradicionais ainda trata de corrigir uma espécie de desvio de conduta congênito das universidades brasileiras. Criadas de acordo com as matrizes europeias da ciência moderna, em que as universidades do velho continente obedeciam aos ditames da Física, Matemática, Biologia e Química, as universidades do País acabaram reproduzindo esse modelo e excluindo de sua grade os conhecimentos tradicionais.
O que, aliás, também se deu na Europa, mas com uma sensível diferença. Aqui o prejuízo foi bem maior do que lá, pois, no caso brasileiro, com o imenso conhecimento dos indígenas, quilombolas e dos vários grupos afro-brasileiros, o universo dos saberes tradicionais é muito maior do que o existente no Hemisfério Norte, na Europa ou nos Estados Unidos.

“Acabamos com uma grade de conhecimentos limitada, sendo que para cada universo da ciência e da tecnologia que você pode desenvolver, nós temos muitos conhecimentos válidos e importantes nas comunidades tradicionais”, identifica o antropólogo José Jorge, que também lembra: “Nossa proposta não é negar a ciência europeia, mas dizer que temos mais do que ela. É preciso sempre expandir a grade de conhecimento das universidades e ampliar os seus saberes válidos e relevantes”.

Essa expansão ganha espaço entre as universidades federais do País e até no exterior. A partir da UnB, que já realizou quatro edições do evento este ano, o Encontro de Saberes chegou às universidades federais de Minas Gerais (Belo Horizonte), de Juiz de Fora (MG), do Ceará, do Pará e do sul da Bahia. Na Universidad Javeriana de Bogotá, na Colômbia, o encontro ocorre nos cursos de pós-graduação e de doutorado de Estudos Culturais.

A proposta é que o Ministério da Educação adote a iniciativa em toda a rede das universidades federais, a exemplo do que já faz com as políticas de cotas. Segundo o antropólogo José Jorge, uma iniciativa completa a outra. “Enquanto as cotas asseguram a presença de jovens negros e indígenas nas universidades, com o Encontro de Saberes teremos os mestres, técnicos e cientistas das comunidades desses estudantes ministrando aula junto com os professores de formação ocidental e acadêmica. Não podemos esquecer que, uma vez conquistadas as cotas na graduação, teremos que começar a preencher as cotas na pós-graduação, na docência e na carreira acadêmica e de pesquisadores, pois apenas 1% dos nossos docentes é de negros”, pontua o coordenador do INCTI.

 

Fonte: Diálogo - nº80 -Outubro/dezembro 2015
Postado por: Diálogo




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