O tear da memória

Data de publicação: 04/10/2016


Toda comunidade tradicional possui um patrimônio de memória, um poderoso ethos identitário que dá sentido e meta para a vida. É um ethos formado por valores e condutas que regem os relacionamentos e permitem à pessoa ser feliz por viver em uma família, uma tribo e uma linhagem que perpassam os séculos. 

É isso que se compreende ao se estar frente a frente com um filho da Mãe África, ao ouvi-lo falar de sua terra, com calma, em tom baixo e reverente como o murmúrio de revelações sagradas. Assim se comunica o jovem Kwabena Osei Tutu Asante Stephen, nascido em Obo-Kwahu, em Gana, um país da costa ocidental africana que quase vê o Brasil do lado de cá do oceano.

Diálogo – Quem é você? 

Asante – Eu sou Kwabena Osei Tutu Asante Stephen (Estêvão). Kwabena define o dia do meu nascimento, uma terça-feira. Osei Tutu significa a parte de Gana onde eu nasci. E Asante é o meu nome: “Aquele que escuta bem”. Stephen é o primeiro nome pelo qual, normalmente, sou chamado. Mas eu fico feliz quando alguém me chama por um desses nomes: Kwabena, Osei, Tutu ou Asante, porque este sou eu.

Diálogo – Seu nome é a sua carteira de identidade! Que língua o seu povo fala?

Asante – Falamos a língua akan. E Akan é também o grupo étnico no qual eu nasci. Em Gana existem vários grupos e línguas diferentes. Temos, por exemplo, os povos Ga-Adangbe,  Ewe,  Dagomba, Konkomba, cada um com seus dialetos. Já a língua oficial é o inglês, imposto no tempo em que Gana foi colônia da Inglaterra (de 1874 a 1957).

Diálogo – Além do nome e da língua, quais são os outros sinais que identificam a pessoa nascida em Gana?

Asante O nosso modo de pensar, filosoficamente, é cosmológico, moral e ético.  Temos crenças, rituais religiosos, tradições orais e costumes sociais que se ligam ao nascimento, ao nome, ao casamento, à família e ao trabalho. As nossas roupas, a arte visual e os símbolos são os principais sinais que identificam alguém nascido em Gana.

Diálogo – Os habitantes do interior e da cidade guardam os mesmos costumes?

Asante – Sim. Inclusive alguns adinkra (símbolos), por exemplo, foram assimilados pela cultura nacional, alguns deles são a espada cerimonial e a cadeira tradicional do chefe, além de outros.

Diálogo – O que é um adinkra?

Asante –  Os adinkras são objetos e formas que expressam vários temas ligados à história, às crenças e à filosofia do povo. Estão ligados aos provérbios, que são muito importantes na nossa cultura. O uso de provérbios é considerado uma marca de sabedoria. Outros adinkras lembram os eventos históricos, os comportamentos das pessoas ou seus atributos. Temos, por exemplo, o nkonsonkonson, que simboliza a unidade.

Diálogo – Você vem de um país de muitas línguas e o seu nome significa “Aquele que escuta bem”. Como é a educação do seu povo?

Asante – Temos a educação formal da escola, onde se aprende a ler e escrever.  E também a educação tradicional, em casa, que passa de geração em geração. Antes da chegada dos europeus, com sua religião e educação, os grupos étnicos de Gana praticavam só a educação tradicional. Por meio dela transmitiam a cultura, a identidade e as línguas, desenvolviam as habilidades dos homens e das mulheres e preparavam os jovens para responder aos desafios dentro da comunidade. Até agora, a educação dos meninos e das meninas começa nos primeiros anos de vida e continua até a idade adulta. As meninas são preparadas para casar-se, cuidar do marido e dos filhos, ou seja, ser esposas e mães. Esse tipo de educação ainda contribui ativamente nos valores das famílias de Gana.

Diálogo – Na comunidade todos ensinam?

Asante –  O  processo de educar os filhos nas comunidades não é um trabalho somente dos parentes próximos, mas da comunidade como um todo. Os educadores junto com os parentes fazem um bom trabalho para educar os filhos. Lembro-me bem de quando eu era criança, à noite, nos sentávamos para ouvir histórias contadas pelos idosos, eram assuntos ligados à geografia, poesia e provérbios. No interior do país, esses ensinamentos continuam muito fortes até hoje.

Diálogo – O que o povo de Gana pensa de Deus?

Asante – O meu povo acredita num Deus supremo que tem vários nomes, conforme cada religião e cultura. Os Akan o chamam de Onyankopon, que significa “aquele que satisfaz a pessoa que o possui”; Odomankoma, “o criador do universo”; Ananse Kokuroko, “o Grande Desenho”. Além disso, a crença em Deus é também demonstrada nos nomes das pessoas. Por exemplo, Nyamekye quer dizer “presente de Deus”. Por isso, concluímos que o povo de Gana é religioso.

Diálogo – Quem representa a religião na comunidade? 

Asante   É representada por hierarquias. A organização política do Akan, por exemplo, atua nos vários clãs, cada um com seu chefe. Abaixo destes, temos o chefe da comunidade, com seu conselho, que faz com que a religião funcione e organize os rituais ancestrais. O chefe também procura fazer o melhor para o seu povo.

Diálogo – Com a internet, o pensamento dos jovens da cidade está mudando?

Asante – O uso da internet está deixando os jovens cada vez mais sofisticados, especificamente com respeito ao lado social. Porque a mídia é um lugar de interação dentro da comunidade, no seu ambiente. A troca de informação ou ideias na comunidade é uma coisa global, e  nossos jovens estão sendo afetados.

Diálogo – Todos os jovens aceitam os costumes tradicionais?

Asante – É difícil para os jovens aceitar certos costumes, mas alguns os aceitam de coração. Por exemplo, a família é uma base forte em Gana, é fonte de identidade, obediência e responsabilidade. Cada pessoa tem seu reconhecimento no espaço familiar e, uma coisa que afeta a parte pessoal, interior, acaba afetando toda a comunidade. O casamento também é uma união entre duas famílias e não somente a do casal. Além disso, o uso das roupas tradicionais entre os jovens está aumentando. Também há símbolos que se chamam sankofa (certos animais que olham para trás). Os animais, eles nos lembram da importância de retornar às raízes e aprender. Nunca é tarde para retornar e aprender as coisas do passado novamente.

A memória oral não se conserva apenas em palavras. São todas as expressões da vida que guardam e comunicam o ethos de um povo. Morando no Brasil há apenas oito meses, Asante brinca com a língua portuguesa, que já aprendeu como poucos. Essa é uma prova da grande agilidade intelectual que as culturas orais desenvolvem nas pessoas.    

Fonte: Diálogo - nº80 -Outubro/dezembro 2015
Postado por: Diálogo




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