Identidade: eu tenho, tu tens, ele tem

Data de publicação: 01/12/2016


Lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminam,

lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracteriza.

Boaventura de Souza Santos

pensador negro brasileiro

                                    

Por: Amarildo Vieira de Souza


Sempre que falamos em diferenças há quem prefira pasteurizar, padronizar e tornar tudo igual. Isto é uma armadilha, pois perdemos a característica principal do ser humano, onde “cada um é um”, não necessariamente igual. Certamente a reflexão é mais ampla, pois, ao pensarmos em igualdade e diferenças, há muitas variáveis que devem ser levadas em conta, isso se tratando de pessoas ou instituições.

No campo religioso, temos o diálogo entre as diversas religiões e o ecumenismo; no âmbito do cristianismo, são caminhos e encontro, não para que haja uma uniformização, mas, acima de tudo, para que se exercite o respeito ao que caracteriza cada um. É uma questão de identidade.

 


Que a fé não seja causa de vergonha

Quando tratamos do Ensino Religioso na escola, precisamos lembrar que, enquanto disciplina acadêmica, ele trata com igualdade as expressões que cada tradição religiosa utiliza para a relação com o sagrado. Sempre que visitamos um templo, gostamos de admirar a estética, o significado de cada símbolo, a arquitetura, os ritos, com linguagens diferentes. Tudo acentua uma maneira particular de revelar a fé. Com isso, percebemos o quanto a identidade está ligada ao conjunto de representações. Portanto, assumir os “sinais” externos e internos é respeitar a própria identidade.

As instituições religiosas ligadas ao ensino têm em mãos uma riqueza cultural-religiosa que não pode ignorar aqueles que usufruem do seu espaço. A visibilidade dos símbolos é a “identidade assumida” posta aos olhos de todos. Muitas vezes, a ocultação daquilo que se é constitui uma forma de desrespeito a si próprio, além de não dar a oportunidade de que outros conheçam uma possibilidade diferente da sua. É tão bonito quando visitamos alguém que nos mostra, com orgulho e satisfação, aquilo que representa a sua história, a sua tradição! Nem por isso nos sentimos desrespeitados por termos, muitas vezes, uma história diferente. Assim pode ser cada instituição educadora frente à sua história.

Se hoje sentimos falta de uma maior vivência de valores, entre as pessoas, ou até detectamos aquilo que denominamos “inversão de valores”, é importante podermos viver valores sem receio de que outros vejam a possibilidade de se ter uma identidade aberta a todos: não posso afirmar a minha identidade negando-a.

 

Que o exemplo venha da prática

Em uma escola cristã, testemunhei um bonito exemplo. Uma anciã, consagrada, que doou toda a sua vida à missão de educar, tendo encerrado sua atividade na sala de aula, reservava seu tempo para andar pela escola, passando pelos departamentos e se preocupando com as pessoas. Todas as manhãs e todas as tardes, nos horários de recreio dos estudantes, ela ia discretamente à capela e lá ficava à espera do que não demorava a acontecer: as crianças, espontaneamente, iam chegando e se reunindo para ouvir histórias. Era um momento de beleza ímpar, refletida nos olhinhos atentos e brilhantes, a cada história cheia de ensinamentos.

Hoje a identidade religiosa de uma instituição precisa ser resgatada, não por uma necessidade de marketing, mas por um compromisso de missão. Os pequenos atos, os detalhes da convivência, o cuidado com aquilo que está além do olhar podem ser a porta para que possamos revelar quem somos. Assim, como o ritual realizado por essa religiosa, por certo existem outros tantos exemplos, o ser humano procura, e, em algum lugar, ele vai encontrar. A iniciativa de ouvir alguém, cuja sabedoria e experiência de vida é comprovada, sugere que a ovelha sedenta procura o riacho (cf. Sl 42, adaptação litúrgica).

O ser humano, ao valorizar o simbólico, nas palavras, nos objetos ou no mistério, deixa claro o recado de que o conteúdo das religiões é importante. Os veículos da escrita, da oralidade e dos exemplos não podem ser deixados em lugares onde não sejam vistos, onde não possam ser tocados, nem podem ficar  reservados, guardados, por receio de exposição. Os sentidos da pessoa quando estimulados podem produzir a curiosidade, seja de conhecer (cognitivo), seja de sentir (emocional), por isso, todas as oportunidades que tivermos de colocar as pessoas na proximidade daquilo que é produção humana é um incentivo ao desenvolvimento de um ser humano integral e melhor.

Alguns grupos, dentro de algumas religiões, têm dificuldade em reconhecer o valor do diferente. Estes, comumente, são exemplos que não devem servir de referência a ninguém, até porque julgam que a verdade é patrimônio só deles. O reconhecimento da pluralidade é um ato de respeito. Por isso, ao assumir a própria identidade, cada instituição revela sua riqueza e convida o outro a também apresentar a sua. A valorização das diversas formas de crer não significa fraqueza, ao contrário, é sinal de força e coragem diante da tentação de ser o que não se é apenas para agradar. Quando isso acontece, podemos criar uma crise de identidade, tanto para a instituição quanto para aqueles que nela acreditam.


O fruto não cai longe da árvore

Não muito tempo atrás, as pessoas se orgulhavam de pertencer a uma família ou a uma religião. Essas instituições eram garantias de identidade, que, para todos os efeitos, salvaguardava a origem e os valores das pessoas. Com o processo de secularização, as instituições responsáveis pela educação nos valores e nos princípios éticos foram perdendo espaço. Deixou de ser interessante vincular a pessoa à instituição, assim, até as próprias instituições parecem fraquejar diante dessa nova forma de pensamento. Em nome do respeito à liberdade de expressão e de escolha, preferem assumir uma cômoda posição de “deixar as pessoas livres”.

Os parâmetros que poderiam servir para todos, os fundamentos que contribuiriam para o exercício da liberdade, as orientações necessárias para o discernimento diante das escolhas acabam não sendo entendidos como responsabilidade institucional. Lembremo-nos de que a prática da identidade pode ser, para muitos, a única referência para a estruturação da vida pessoal e do relacionamento em sociedade. Isso implica uma tomada de posição, não temos o direito de determinar caminhos, mas cada instituição precisa deixar claro, sem medo, por qual caminho anda.

A decisão do caminho é do caminhante, mas a apresentação de caminhos é missão de quem tem um caminho a propor. 

Fonte: edição nº 81, Janeiro/março
Postado por: Diálogo




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