Tem atabaque na escola

Data de publicação: 01/12/2016


A sala de aula é a janela da escola para a diversidade cultural e religiosa do mundo, e isso, em grau máximo, se a disciplina em ato for o Ensino Religioso. Para a professora Silvana Maria de Lara, da Escola Municipal Irmã Dulce, em São José dos Pinhais (PR), essa é uma prática constante, que ela mesma passa a contar.


A atividade de Ensino Religioso, feita com duas turmas do 5º ano do Ensino Fundamental I, surgiu da observação de como os alunos se referiam às religiões de matriz africana, associando-as com o mal. Esse é um preconceito arraigado no senso comum, que requer da escola, e principalmente do Ensino Religioso, um esclarecimento e um olhar mais amplo. Foi assim que surgiu a ideia de trazer um líder religioso para a sala de aula, e o escolhido foi o sacerdote Edinei Cavalheiro, que prontamente atendeu ao convite e veio acompanhado de outros integrantes do Terreiro de Umbanda Cruzeiro das Almas (Tuca), de Curitiba (PR).

O sacerdote Edinei descreveu a origem da umbanda, explicou os orixás, respondeu as questões levantadas e mostrou um lado da umbanda nem sempre conhecido, a prática da caridade, dando como exemplo o Projeto Meu Amigo Carrinheiro, por meio do qual o Tuca, ao lado de pessoas de diversas crenças, serve lanche e entrega roupas e alimentos uma vez por semana a famílias carentes do bairro Rebouças, em Curitiba. Foi surpresa para os alunos, que não imaginavam uma atividade de cunho social no terreiro. As turmas participaram fazendo perguntas com o interesse que lhes é característico. Houve poucas faltas no dia, uma vez que, se tratando de uma atividade diferenciada, os alunos são livres para participar ou não.

O ponto culminante da visita ficou por conta da Curimba, o grupo que toca os atabaques e canta os pontos para as entidades do terreiro. Eles tocaram músicas sagradas de rituais, enquanto os alunos marcavam o ritmo com palmas.

A atividade foi muito esclarecedora para todos, inclusive para mim como pessoa e como profissional da educação. E a ressonância positiva nas aulas seguintes comprovou a importância de um diálogo assim, os alunos continuavam surpresos diante da doutrina da umbanda, pois imaginavam algo muito diferente, segundo eles mesmos relataram.

Mas nem tudo e só alegria, houve reclamações de alguns pais, temerosos de que a escola estivesse doutrinando os alunos, nada que não fosse resolvido com um diálogo franco comigo e com as diretoras. Depois da conversa, eles perceberam o valor do trabalho com a diversidade, sabendo que, assim que possível, eu levarei também pessoas de outras matrizes religiosas para a sala de aula.

Agradeço a presença de todos os membros do Tuca, o sacerdote dirigente Edinei Cavalheiro; a ogã, Thais dos Santos Correia; os capitães, Alceu Roberto Pansolin, Alexandra Teodoro dos Santos Pansolin, Marcia dos Santos Silva e Marlene de Rosso e os músicos da Curimba, Ana Júlia de Souza Santos, Cristiano Costa de Oliveira, David Alexandre Pansolin e Jéssica Cristina Pansolin. A maioria deles pediu licença do  trabalho para estar na escola e, atendendo a um convite de forma voluntária e generosa, trouxeram a luz do esclarecimento.

Que as bênçãos do Transcendente iluminem seus caminhos e que vocês possam viver momentos como este em outras escolas, pois foi uma oportunidade única de conhecer uma religião que ainda sofre tanto preconceito.

Um grande abraço a todo o grupo do terreiro, muita luz, paz e axé para todos

 os integrantes do Tuca.

            Professora Silvana Maria de Lara

 

Mão à obra

Boxe

Plano de Aula

Tema – Conhecendo as crenças e as origens da umbanda.

Ano – 5º ano do Ensino Fundamental I

Objetivo geral – Desfazer os preconceitos sobre as religiões de matriz africana, especificamente da umbanda, por meio de conversa com um líder religioso dessa crença.

Desenvolvimento

·         Em primeiro lugar, eu expliquei em linhas gerais quais são as crenças da umbanda.

·         A seguir, conversei com os alunos sobre a importância da visita e os incentivei a fazerem perguntas pertinentes e a tratarem os visitantes com muito carinho e respeito.

·         Também lembrei a todos que, se não se sentissem bem ou soubessem que a família não iria gostar, poderiam ficar em casa.

Avaliação

No diálogo com as turmas, pude constatar que:

·         O projeto foi um sucesso.

·         Os alunos ampliaram a visão sobre a umbanda e perceberam que seus preconceitos estavam equivocados.

·         Muitos até solicitaram que o grupo venha outras vezes,  pois querem aprender mais.

 

 

 

Fonte: edição nº 81, Janeiro/março
Postado por: Diálogo




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