Replantando a esperança

Data de publicação: 03/01/2017


O exemplo da Fazenda Bulcão mostra que é possível, aos poucos e com a força de toda a sociedade, recuperar as nascentes de água da Mata Atlântica


Por:
Nathan Xavier

Era apenas mais uma fazenda de gado. Pouco mais de 608 hectares de terra, que dias atrás foi uma frondosa floresta, transformada em pasto, com terra pobre em nutrientes e nascentes de água seca. O destino da Fazenda Bulcão, em Aimorés, no interior de Minas Gerais, começou a mudar em 1998 quando o Instituto Terra foi criado e a antiga fazenda de gado transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), a primeira do Brasil. A propriedade era da família de Sebastião Salgado, conhecido e premiado fotógrafo brasileiro, que passou boa parte de sua infância no local. O fotógrafo e sua esposa, Lélia Deluiz Wanick Salgado, mobilizaram parceiros, captaram recursos e fundaram, em abril de 1998, a organização ambiental dedicada ao desenvolvimento sustentável do Vale do Rio Doce, chamada Instituto Terra.


O plantio de árvores

A forma escolhida para recuperar a fazenda foi, justamente, o plantio de árvores. Jader Lopes Vieira, 51 anos, engenheiro-agrônomo, analista ambiental e biólogo, trabalhando no instituto quase desde o começo do plantio, explica: “Todo processo de recuperação ambiental se inicia com o plantio da vegetação, pois só ela é capaz de transformar matéria inorgânica em orgânica”. O biólogo conta que uma das propostas era resgatar a Mata Atlântica, a biodiversidade local que existia antes da degradação, por isso, iniciaram o plantio com 2.500 mudas por hectare, com, aproximadamente, 200 espécies desse bioma em cada plantio.
Aos poucos, além da recomposição do solo, as oito nascentes da fazenda voltaram a minar água e hoje, mesmo em períodos de seca, apresentam vazões em torno de 20 litros por minuto. A fauna também voltou a habitar o local, com muitos animais avistados nas atividades de monitoramento na RPPN: aves, mamíferos, anfíbios e répteis, muitos deles ameaçados de extinção, como os pássaros araponga, papagaio-do-peito-roxo e o canário-da-terra-verdadeiro, além da onça-parda (ou suçuarana) e a jaguatirica. Segundo Jader, as árvores são a chave de tudo: “Elas não permitem que a água da chuva cause mais erosão ao solo, servem de alimento e abrigo para diversas espécies de fauna e também porque reciclam nutrientes melhorando a qualidade do solo e proporcionando uma maior infiltração da água. É um conjunto de fatores biológicos que são contribuídos através do plantio de árvores”.
Porém, apesar de todos os resultados positivos num espaço de tempo relativamente curto, o trabalho do Instituto Terra na Fazenda Bulcão ainda não terminou: “A gente está falando de uma floresta que, naturalmente, foi constituída a milhões de anos e, agora, a árvore mais velha tem apenas 18 anos. Ela está entrando na fase adulta. Temos que continuar o monitoramento e ajudar a enriquecer essa floresta jovem, plantando mais árvores nativas da Mata Atlântica”, afirma Jader.
Um projeto como esse, gerando bons resultados, logo se expandiria além das divisas da fazenda: “Percebemos que nada adiantava fazer daqui uma bela floresta sem levar esse conhecimento e possibilidade para a sociedade. Por isso, temos um programa de educação ambiental e começamos a recuperar nascentes em outras fazendas”. Hoje, mais de 7 mil hectares de áreas degradadas estão em processo de recuperação na região, e mais de 4 milhões de mudas de espécies de Mata Atlântica já foram produzidas em seu viveiro para abastecer tanto os plantios na Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Bulcão quanto os projetos de restauração que desenvolve em outros locais. Segundo Jader, mais de 1.200 nascentes de água foram recuperadas fora da RPPN.

Conscientização e ampliação do projeto

O engenheiro-agrônomo explica como é o processo para levar a outros locais a experiência da RPPN Fazenda Bulcão: “A proposta é captarmos recursos na sociedade para financiar os projetos aos proprietários rurais”. E por que os produtores e proprietários rurais? “Porque são eles que detêm a propriedade dessas nascentes que produzem água para toda a sociedade. Então, a sociedade precisa ajudar esse produtor, que no passado foi incentivado a desmatar, a recuperar essa nascente.” Um dos grandes trabalhos do projeto é o do convencimento daquele proprietário que deve destinar parte de sua área agrícola ao replantio das árvores. “Tem, obviamente, um custo para ele porque é uma área que não poderá usar para plantação. Mas ele já está sensível a isso porque sabe que é necessário para que continuemos a ter água na torneira. É uma relação mútua, de comprometimento, onde entregamos os projetos e insumos e acompanhamos o produtor por dois anos para saber o que de benéfico aquela ação está produzindo tanto para ele quanto para a sociedade.”
Jader comemora que também entre os grandes proprietários de gado já existem alguns com maior consciência da importância de se preservar as florestas. “Pensamos que é compatível conciliar a grande produção agrícola e pecuária com a preservação. Temos um exemplo próximo à nossa fazenda, onde uma grande proprietária nos procurou querendo implantar na terra dela. São cerca de 1.500 hectares onde produz gado para corte e leite. Ela já está no trabalho de recuperação das 43 nascentes da propriedade, então não devemos fazer distinção da importância. Nossa proposta é voluntária e conseguimos trabalhar tanto com o pequeno quanto com o grande.”
O Instituto Terra foi uma das entidades que propôs projetos para um possível fundo de recuperação do Rio Doce, após o desastre da Samarco/Vale, em novembro de 2015. “Aquilo é de uma magnitude tão grande que uma única universidade, uma Organização Não Governamental ou um instituto não conseguem dimensionar o tamanho do problema ambiental desse desastre.” Para Jader,  o instituto entende que não há como fazer juízo de valor, ainda mais com as perdas de vida, que são imensuráveis, mas é importante lembrar que o Rio Doce “já estava agonizando e esse desastre foi a punhalada final”. A proposta do instituto baseia-se em um tripé: recuperação e proteção da mata ciliar, aumento da permanência da água do rio tratando a nascente dele e implantação de saneamento básico nas propriedades e cidades que, atualmente, jogam o esgoto in natura na bacia do Rio Doce.
Como denuncia a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, iniciativa criada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e, esse ano, também organizada por diversas denominações cristãs, o saneamento básico é um problema grave no Brasil, e o Rio Doce é apenas um dos milhares de rios no País que sofrem com o mesmo problema. Jader lembra que há alternativas viáveis, além do correto tratamento de esgoto nas grandes cidades: “Tem uma tecnologia da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) que são as fossas biodigestoras, de tecnologia livre. Isso é muito bom e pode ser implantado em todas as propriedades rurais, o que ajuda a tratar naturalmente a água sanitária antes de ir para o rio”.
Jader também se lembra da importância da pequena floresta que temos no quintal, na frente de casa ou nas praças das grandes metrópoles. “As cidades estão impermeabilizadas, e a árvore não ajuda apenas nisso, mas também na qualidade do ar, na retenção de partículas, aumento da biodiversidade e na diminuição da temperatura. As pessoas têm de entender que uma ação individual acarreta um impacto global. Derrubar uma árvore saudável na minha casa causará uma perda na qualidade de vida para mim, para meu vizinho, para meu bairro. Todos sofrerão com esse impacto. Temos de compreender que as florestas urbanas são extremamente importantes até para a beleza do espaço”, conclui Jader.


Importância da Mata Atlântica
A Mata Atlântica original ocupava mais de 1 milhão de quilômetros quadrados do território nacional, estendendo-se do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul, com faixa de largura variável, chegando, em alguns pontos, a atravessar as regiões onde hoje estão as fronteiras com a Argentina e o Paraguai. Atualmente, a meta cobre menos de 8% da sua área original. Essa redução se deveu aos diferentes ciclos de exploração durante a história brasileira e à concentração das maiores cidades e núcleos industriais do País em sua área original. Hoje, a área tomada é responsável por quase 70% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, abriga mais de 60% da população brasileira, garantindo o abastecimento de água para cerca de 100 milhões de pessoas, e possui as maiores extensões dos solos mais férteis do Brasil.
Para se ter uma ideia da riqueza do patrimônio genético e paisagístico da Mata Atlântica, basta saber que 55% das espécies arbóreas e 40% das espécies não arbóreas presentes na região são endêmicas, ou seja, ocorrem exclusivamente naquele local. Assim como a diversidade vegetal, a fauna também impressiona: 39% dos mamíferos que vivem na Mata Atlântica são encontrados exclusivamente nessa área, e a maior parte das espécies de animais brasileiros ameaçados de extinção é originária da Mata Atlântica.

Fonte: Ediçao 83 - Julho/Setembro de 2016
Postado por: Diálogo




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