Reunidos em defesa da liberdade de crer diferente

Data de publicação: 03/01/2017


Reunidos em defesa da liberdade

de crer diferente
                               

Entre os dias 25 e 27 de janeiro, em Marrakesh, no Marrocos, cerca de 250 clérigos muçulmanos, estudiosos e acadêmicos, chefes de Estado e representantes de diferentes credos, de mais de 120 países, inclusive vítimas de perseguição, emitiram uma declaração conjunta na qual defendem medidas concretas visando à proteção dos direitos de todas as minorias religiosas que habitam o mundo islâmico. A declaração intitulada Os Direitos das Minorias Religiosas em Terras de Maioria Predominantemente Muçulmana – Diretrizes Legais e Chamado à Ação, ou simplesmente A Declaração de Marrakesh, representa uma síntese das pesquisas e discussões conduzidas na conferência, organizada pelo Fórum para a Promoção da Paz nas Sociedades Islâmicas, em cooperação com o governo do Marrocos.
A declaração firmada na Conferência de Marrakesh inspira-se no antigo documento conhecido como Carta ou Constituição de Medina – espécie de contrato firmado há mais de 1.400 anos entre  Maomé (fundador do islamismo, falecido em 632 depois da Era Comum ou Era Cristã, d.E.C.) e os diferentes povos e grupos religiosos que habitavam a região de Medina (cidade sagrada do islamismo, na Arábia Saudita) e que rejeitaram a nascente crença islâmica. Considerada a primeira Constituição escrita da História, a Carta promulgada, pelo próprio profeta Maomé, estabelece um pacto de não violência e de defesa de direitos e garantias fundamentais para essas pessoas.
Revisitada, a Carta de Medina oportunizou medidas de diálogo nas escolas e instituições de ensino, propondo uma corajosa revisão dos programas educativos, a fim de eliminar qualquer tema ou abordagem que possa instigar à agressão e ao extremismo, gerando conflitos, guerras e destruição. Já em relação aos governos, pediu-se a observância da liberdade de circulação, direito de propriedade e solidariedade mútua, bem como o respeito aos princípios de justiça e igualdade perante a lei entre muçulmanos e não muçulmanos.

Nova jurisprudência islâmica
Um dos objetivos dessa conferência foi desenvolver uma nova jurisprudência islâmica sobre o conceito de cidadania, inclusiva para as minorias. Um passo importante rumo à proteção da liberdade religiosa, do combate à intolerância e do respeito ao diálogo e à diversidade. Dar ressonância a esse evento é relevante, pois serve de contraponto e alternativa aos que defendem um fundamentalismo fechado e extremista, que nega e atropela as outras identidades religiosas, afirma dom Roberto Francisco Paz, bispo de Campos (RJ), ao se referir à Declaração de Marrakesh, no site do seu Regional (http://cnbbleste1.org.br).
O documento destaca que “a situação (das minorias religiosas) vem se deteriorando perigosamente em muitas partes do mundo islâmico (…) devido ao uso da violência e da ação armada como meio de resolução de conflitos, bem como para a imposição forçada de pontos de vista.” Grupos criminosos têm se mobilizado para promover ideias que “deturpam de modo chocante os preceitos e objetivos do islã”.
“É inaceitável que a religião seja empregada para ferir os direitos das minorias religiosas estabelecidas nos países muçulmanos”, prossegue o texto, exortando ainda os juristas e acadêmicos islâmicos a “dedicarem seus esforços no desenvolvimento de jurisprudência”, abordando especificamente do “conceito de cidadania”, tendo em vista garantir sua eficácia como instrumento “inclusivo para os diferentes grupos”.
O cardeal Theodore E. McCarrick, arcebispo emérito de Washington (EUA) e membro da delegação enviada à conferência, comentou: “Foi um grande privilégio estar presente e poder ouvir esta declaração em sua versão final. Trata-se verdadeiramente de um documento de grande importância, que influenciará nosso tempo presente e nossa história futura. Na condição de membro do Povo do Livro, agradeço a todos aqueles que se empenharam em sua elaboração, e agradeço a Deus por ter-lhes dado a coragem necessária para levar a cabo essa realização”.
E um dos participantes, dirigente do Fórum para a Promoção da Paz nas Sociedades Islâmicas, o sheik Abdallah Bin Bayyad, dos Emirados Árabes Unidos, afirmou: “É inconcebível usar a religião para lesar os direitos das minorias religiosas em países muçulmanos... Que o Senhor dos povos e nações faça avançar as tentativas de paz, de reconciliação e de concórdia entre as religiões. Deus seja louvado!”.

Fonte: Ediçao 83 - Julho/Setembro de 2016
Postado por: Diálogo




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

A ótica literária sobre a morte
A morte é um tema presente inelutavelmente na vida humana, e, como se costuma dizer, “é a única certeza que todos temos nesta vida”.
Danças Circulares Sagradas
Os ritos dançados sempre existiram e existem como expressão mítica que vem traduzir ao longo do tempo
Currículo interdisciplinar, novo paradigma
A diversidade e a diferença são manifestações dos fatos sociais, das culturas e das respostas individuais frente à educação escolar
Multiculturalismo e diversidade religiosa na escola
Com o fim das utopias e a descrença no futuro, o melhor é viver o dia possível sem pensar no amanhã
Mandala, uma fonte inesgotável
Mandala, um elemento rico em simbolismo que se inspirou na observação do sol, da lua e das estrelas
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados