Pedagogia do cuidado

Data de publicação: 18/01/2017


PEDAGOGIA DO CUIDADO
RESOLUÇÃO DE CONFLITOS NA ESCOLA
                               
José Boeing*


Hoje se vive num mundo marcado pelas divisões, conflitos, crises ambientais, econômicas, políticas, culturais e religiosas. O ser humano perdendo o equilíbrio de sua integridade na relação com o outro, esquecendo que tudo está conectado como nos ensinam os povos indígenas nas culturas milenares de respeito e convívio integral entre todos seres vivos. Por isso, o conflito gera violência e causa dor e sofrimento na pessoa humana e no seu espaço familiar, escolar e social. Faz-se necessário estudar as causas de tantas divisões, conflitos e indisciplina no processo educacional. Daí a importância de buscar alternativas a partir do ambiente escolar. Por isso, este artigo se propõe apresentar a pedagogia do cuidado, utilizando o método do perdão e reconciliação para a superação dos conflitos, agressões e violências, condenando o crime ou dano e restaurando a vítima e o agressor.

Escolas de perdão e reconciliação

Esta metodologia surgiu da Fundação para a Reconciliação, em Bogotá, na Colômbia, por iniciativa do Pe. Leonel Narvaez que criou as Escolas de Perdão e Reconciliação – ESPERE. Começaram o projeto pela cura das dores e feridas da vítima, causado pelo agressor nos diversos ambientes: familiar, escolar e social.
As Escolas de Perdão e Reconciliação são espaços coletivos de diálogo, construção e compreensão, onde as pessoas vivem uma experiência efetiva de cura de suas feridas. Procura transformar raivas, ódios e desejos de vingança em sentimentos que promovam o desenvolvimento integral das pessoas e das comunidades. Segundo a terapeuta americana Robin Casarjia, o perdão é um processo de natureza interna. Em sua obra “O livro do perdão”, ela afirma que o perdão é porta para paz mental que engloba uma decisão, uma atitude, um processo e uma forma de vida. Já a reconciliação é uma ação planejada que engloba três componentes: verdade, justiça e pacto. Isto é, precisa de um mediador para facilitar o diálogo em vista da reconciliação, restaurando a vítima e o agressor para a paz social.

A pedagogia do cuidado no ambiente escolar

Como a escola poderá aplicar a pedagogia do cuidado e da reconciliação? Primeiro deve haver um treinamento para mudar o foco da maneira de solucionar os conflitos que deve superar a punição. Deve perceber se a dimensão do conflito é pessoal, inter-relacional, estrutural, cultural ou religioso. A pedagogia do cuidado é a forma de criar na escola um espaço, onde primeiro se detecta os tipos de violência, envolvendo todos os atores da rede escolar. Inicia-se com o levantamento de todos os tipos de violência que acontece no ambiente escolar, inclusive com a participação dos pais e da comunidade onde a escola está situada. Primeiro surge a pergunta: O que acontece na escola? Que tipos de violências se manifesta cada dia? A violência pode aparecer entre estudantes como racismo, exclusão, bulling, vítimas de violência de adultos, maus tratos domésticos, ou também pode ter educadores sem experiência para prevenir os excessos de agressividade, usando apenas técnicas de punição.
Diante, da violência no ambiente escolar ou social se deve trabalhar a ética do cuidado e da reconciliação, pois a complexidade do fenômeno exige formar os indivíduos para que desde a infância tenham critérios para decidir e construir vínculos fortes para orientar sua vida de maneira autônoma e responsável. Se deve garantir o autocuidado e a possibilidade de conviver de maneira pacífica e produtiva no mundo atual, porque as grandes mudanças da sociedade conduzem necessariamente à reinvenção do cuidado da vida.

Capacitação de mediadores de conflitos

Uma vez detectada a necessidade de reparar os danos causados pela violência na escola, é preciso capacitar todos os atores da rede educacional para iniciar um processo pessoal de autocuidado com atitudes de não-violência. Com isso vai preparando mediadores dos conflitos que terão a tarefa de primeiro ouvir a vítima ajudando-a no processo do perdão que oferecerá ao seu agressor. Depois ouvirá o agressor, fazendo-o perceber e reconhecer que causou a dor e sofrimento na vítima. Assim poderá propor a mediação com um diálogo entre as partes para obter o pacto de não mais agressão e de convívio no ambiente escolar.
Este curso pode ser aplicado em 10 módulos, sendo os 6 primeiros com o tema do perdão e os outros 4 módulos com o tema da reconciliação. O perdão é na perspectiva de natureza interna de cada pessoa, pois o perdão é uma decisão pessoal e de vontade própria. Já a reconciliação precisa ser uma ação planejada com o outro que me fez sofrer. Nesses módulos se trabalha a motivação para superar todo tipo de violência, identificando cada violência e emoção da vítima. Isto é, classificar as emoções inibidoras. Por exemplo, mágoa, ressentimento, ira, raiva, rancor, vingança, tristeza, vergonha, medo, ansiedade, repugnância, angústia, estresse, nervosismo, culpabilidade, timidez, baixa-estima, inferioridade, superioridade, racismo, preconceito etc. Por outro lado, não se pode esquecer as emoções favoráveis de cada pessoa como: alegria, felicidade, humor, amor, entusiasmo, solidariedade, simpatia, empatia, carinho, ternura e paz interior.

Causas da violência

Somos seres humanos que precisamos aprender a lidar com as emoções, porque segundo o estudo da Fundação para a Reconciliação as causas da violência são: a) Falta de controle das emoções; b) Impossibilidade de negociar conflitos; c) Inexistência de mediadores. É por isso, que 80% dos agressores antes foram vítimas. Daí a necessidade de trabalhar a cura das feridas e da dor da agressão, porque perdoar não é esquecer e sim não sofrer mais pela agressão. Assim, se pode sair da escuridão à luz como caminho da esperança, decidindo perdoar, vendo o outro com outros olhos. Isto é, não mais com aquela raiva, mas como uma pessoa humana que tem atitude de agressão, mas que também tem valores. É o processo de ver com outros olhos e colocar-se no lugar do outro, compreendendo meu ofensor.
E por fim, limpar a dor da agressão, me preparando para um possível encontro com o agressor, pois além curar a ferida da agressão, quero me reconciliar com o outro para restabelecer a paz social. Vale ressaltar que havendo o perdão nem sempre será possível a reconciliação em vários casos da vida, pois pode haver perdão sem reconciliação, mas não haverá reconciliação sem o perdão. O processo da reconciliação necessita de 3 elementos fundamentais: a verdade, a justiça e o pacto, obtendo assim o 4º elemento que é a celebração, superando o conflito que traz a paz social.

 Reconciliadores

A experiência exemplar da África do Sul, com Nelson Mandela, que depois de 27 anos preso, devido a sua luta contra o aparthairt, e o bispo anglicano Desmond Tutu, decidem trabalhar o processo de perdão aos agressores, como único caminho para a reconciliação entre os povos. Isso demonstra claramente que ao assumir esse processo de cura das feridas e da perda, se propõe a superação em vista da reconciliação e da vivência humana, restabelecendo a paz na escola e na sociedade.
Em sua obra “O Livro do perdão – Para curarmos a nós mesmos e o nosso mundo” (publicada no Brasil pela Editora Valentina, 2014) Desmond Tutu, registra a experiência dos centros de reconciliação no seu país, a África do Sul, apontando 4 passos: primeiro, deve-se contar a história da dor e do fato; segundo, dar vazão à mágoa, pois adoecemos ao guardar mágoa e raiva ao longo da vida; terceiro, conceder o perdão e por fim, renovar ou abrir mão do relacionamento.
No mesmo sentido a Fundação para a Reconciliação destaca o cuidado como as seguintes características: 1) dar atenção à multiplicidade de pensamentos, sentimentos, interesses e desejos que as vítimas e agressores manifestam após um conflito e agressão. 2) o cuidado é também uma atitude de não ter ganhadores e perdedores, pois no conflito todos perdem e na reconciliação todos ganham. Então é perder/perder ou ganhar/ganhar; 3)  dar atenção à resolução do conflito, superando a aplicação dos castigos. Assim, a importância do cuidado está fundamentada na necessidade de fechar o ciclo das violências; 4) necessidade de reparar os danos diante do ódio e vingança; e, 5) necessidade de aprender e ensinar a reconhecer as situações de dores geradas pelos conflitos. Este programa aplicado nas escolas deve envolver todos os atores no processo no processo: educadores, direção, funcionários, estudantes, associação de pais e mestres e a comunidade local.

Oficinas e práticas restaurativas
As atividades fundamentais para a superação dos conflitos são a formação de educadores, oficinas para estudantes, formação e participação dos pais, rede de jovens, rede de pais, comitê de convivência e projetos sociais voluntários. Esse processo pode ser desenvolvido na escola com 4 etapas: Perícia, como habilidade de resolver conflitos; Protagonismo, onde os atores de cada escola têm a solução; Postura, com valores, comportamento, filosofia dos educadores e da escola; e Plataforma, com mediação de conflitos e prática restaurativa que facilite a convivência e o desenvolvimento de soluções.
O caminho para estabelecer a paz no espaço escolar parece longo e difícil. Mas a construção de uma cultura política do perdão, resolvendo conflitos poderá trazer um resultado formidável para todos.

*José Boeing

É missionário do Verbo Divino. Mestre em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara (ESDHC). Graduado em Filosofia Pontifícia Universidade Católica, do Paraná (PUC/PR). Bacharel em Teologia Instituto São Paulo de Estudos Superiores, de São Paulo (ITESP/SP). Graduado em Direito, Faculdade Integrada do Tapajós, do Pará (FIT/PA), pós-graduação em Ciências da Religião, Instituto Esperança de Ensino Superior, no Pará (IESPES/PA). Advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Pará e dos missionários do Verbo Divino na Amazônia na Comissão de Justiça e Paz e Integridade da Criação. Pároco da Paróquia Nossa Senhora Aparecida de Trairão, no Pará. zboeing@hotmail.com

Fonte: Ediçao 83 - Julho/Setembro de 2016
Postado por: Diálogo




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