Compaixão - um estado natural de prontidão

Data de publicação: 18/01/2017


Compaixão
Um estado natural de prontidão


Monja Heishin Gandra *


A palavra compaixão nos evoca a algo como “perceber”... sensibilizar-se por alguém... ter empatia pelo outro... acolher... observar necessidades e, espontaneamente, se colocar em movimento, ao encontro... Compaixão não é um objetivo a ser alcançado ou um sentimento a ser adquirido, mas um estado intrínseco, espontâneo, de quem despertou para a realidade de que somos interconectados a tudo o que existe, onde nada é separado, interdependemos...

A compaixão no budismo

No contexto do budismo, a compaixão é um “estado natural de prontidão. É estarmos atentos – olhos, ouvidos, braços, mãos, para todos os lados e dimensões –  às necessidades, aos sons, aos lamentos do mundo...”.
Para compreendermos melhor do que estamos falando, precisamos conhecer um dos princípios importantes do budismo, nesta breve introdução. Budismo vem da palavra Buda, em sânscrito, antiga língua da Índia, significa “desperto” ou “iluminado”. E, iluminado no sentido de lucidez, clareza da mente, “mente clara”. Historicamente, muitos seres humanos despertaram e, com lucidez, compreenderam o significado da vida e da morte. Mas, um jovem se destacou, e ele se chamava Sidarta Gautama, aproximadamente 600 anos antes da Era Comum ou Era Cristã (a.E.C.)
Nasceu na Índia, filho de rei, portanto, um príncipe, que aos 19 anos de idade conheceu o sofrimento ao se deparar pela primeira vez com pessoas doentes, bem como a realidade da velhice e da morte. Assustado, percebeu que tudo isso iria acontecer também com ele e com seus amados familiares, pai, esposa, filho.
Mas Sidarta também encontrou um praticante de meditação, um renunciante, um asceta, e compreendeu que, seguindo pelo mesmo caminho, poderia mergulhar em práticas que permitissem descobrir a verdade, às razões do sofrimento. Esses praticantes se isolavam na floresta, jejuavam, renunciavam à vida comum e se dedicavam a superações de si mesmos. Assim, durante a noite, enquanto todos dormiam, se despediu de sua linda esposa e de seu filho ainda nenê e fugiu das terras de seu pai e foi ao encontro dos renunciantes na floresta. Por seis anos, entregou-se intensamente ao jejum, ao silêncio, às práticas para a ampliação da mente e abandono das necessidades do corpo. Isso o enfraqueceu muito, levando-o quase à morte. Porém, pensou que, se caso morresse, não descobriria a verdade.
Quando estava em meditação, uma jovem que passava por perto, observando o seu estado físico, de ossos aparentes, ofereceu-lhe arroz. Ela percebeu a sua necessidade. E ele aceitou. Ao alimentar-se, restabeleceu um pouco de energia. Sentou-se novamente e por sete dias e sete noites, determinado, permaneceu imóvel, em respiração consciente. Na manhã do oitavo dia, teve uma forte experiência, ao olhar a estrela da manhã, e exclamou: “Eu, a grande Terra e todos os seres nos tornamos simultaneamente o caminho!”.
Nesse instante, como o “desabrochar de uma flor na madrugada”, surgiu um Buda... Consta, no Sutra do Diamante ou Sutra de Perfeição da Sabedoria que corta como Vajra, Sermão de Buda, que Sidarta teve a experiência do despertar. Teve a compreensão do sentido e funcionamento de tudo o que existe. Teve a percepção de que tudo o que existe está interligado, interconectado... não existia mais alguém meditando ou mesmo desperto, mas ele era a lua, as árvores da floresta, a pedra, os insetos, a brisa, o sol, a terra... e todos esses elementos não estavam discriminados em sua mente, segundo seus nomes... Assim, Sidarta Gautama tornouse o Buda Xaquiamuni, o desperto da família de Xaquia, “nome de sua família” e muni, “iluminado, desperto”.
O despertar: momento Buda
Essa experiência de interconexão com tudo o que existe o despertou para a prontidão, atenção plena a tudo o que existe. O coração mente, interligado a todas as formas de vida e suas inter-relações. E, por essa interconexão, o compromisso com todas as formas de vida se torna algo inerente, vital, inseparável.
Todas as formas de vida se movimentam, simultaneamente, com+presença, em transformação constante, nada é fixo, porém dinâmico, um movimento genuíno que podemos dizer que seja as sementes compassivas, a expressão inerente da compaixão. “Nos movemos e somos movidos simultaneamente...” Observo o outro como a mim mesmo. Somos diferentes e semelhantes em necessidades, assim, vínculos são percebidos e cuidados, porque nos sustentam.
O momento do despertar, o momento Buda, tratou-se de um momento único de percepção, que antecedeu qualquer processo de racionalização mental e, assim, desabrochou a dimensão conectiva, podendo ser expressa por compaixão, unicidade ou sabedoria.
Após a experiência do despertar, o jovem Sidarta, já um Buda, passou a compartilhar o que compreendeu aos seus companheiros de caminho, a todos os que o procuravam e por onde andava. Aos 80 anos de idade, entrou em Parinirvana (paz infinita, fim do sofrimento).
Seus alunos dividiram-se em grupos e seguiram pelos vastos territórios da Ásia antiga. O budismo, ensinamentos de Buda Xaquiamuni, é assim divulgado e se constituiu, nesses 2.700 anos de existência, pela Ásia, Japão, Europa, Estados Unidos, América do Sul, Brasil, em diversas escolas, culturas e tradições.

Tudo está interconectado

Os ensinamentos de Buda levam-nos ao âmago das existências, ao conhecimento da natureza humana, às expressões de todas as formas de vida, também não separadas de um respirar humano. O olhar em profundidade é o grande diferencial na prática budista e movimento de compreensão da realidade e suas necessidades – pratica-buda –.
Assim, a palavra compaixão é traduzida na dimensão budista como uma realidade inerente a todas as coisas, isto é, estamos interconectados a tudo o que existe; e o que nos sustenta é o equilíbrio dessa rede de todas as coisas. O sofrimento é a crença no rompimento, e onde surgem as sensações de necessidades, compreensões fixas da realidade, separatividade, delusões (quando acreditamos que as ilusões são verdadeiras. O mágico transforma o coelho em um lenço. Pessoas compreendem que se trata de um truque do mágico, mas há pessoas acreditando que isso de fato aconteceu, ou seja, o coelho se transformou em um lenço. Assim é o pensamento deludido, acreditamos em falsas realidades, nos fixando nelas e por isso sofremos).
A prática budista está apoiada no cultivo de uma mente clara, onde são identificadas as interpretações equivocadas da realidade, perturbações, ansiedades, dúvidas, a ganância, a raiva. E como consta no livro A Espiritualidade Budista, essa prática promove a compreensão das raízes do sofrimento e promove o cultivo de qualidades, tais como a concentração, a percepção, a atenção, a inteligência, a vontade, a energia, a capacidade de compreensão, a confiança, a alegria, a tranquilidade.
No budismo, a compreensão da não separatividade, isto é, de que somos a vida na Terra (cosmos) e que, portanto, tudo o que fazemos é movido por causas, condições e provoca efeitos, amplia em nós a percepção do cuidado, da ação responsável, do compromisso com a existência. Podemos chamar isso de compaixão ativa... Ação Bodisatva (bodisatva é aquele ou aquela que, movido por grande compaixão, atua para o benefício de todos os seres para que atinjam o despertar, a libertação de todo sofrimento).

A compaixão na convivência humana

As sociedades constituem-se em dinâmicas das mais diversas, interagindo culturas, ideologias, processos históricos, políticos, religiosos, entre outros e, assim, influenciam diretamente as percepções que temos sobre convivência humana, orientando hábitos, costumes, valores, regras sociais. A palavra compaixão pode ser confundida com o sentimento de “piedade”, isto é, “ter pena”, achar o outro insuficiente, fraco e, por isso, o ajudamos.
No budismo, o olhar em profundidade pode ser, em muitos casos, a não ação. Observar o observado é, antes de tudo, observar a si mesmo. O olhar buda é o olhar que percebe, identifica a rede de causas e condições. Nenhum caso, acontecimento, pessoa, reação, realização, acontece isoladamente, e de forma fixa e determinada.
“O olhar em profundidade questiona, e fica em silêncio, para a escuta das inúmeras respostas.” O olhar em profundidade pergunta: Quais necessidades estão ocultas nesse fato, acontecimento e que não estão sendo atendidas? E nem reveladas? E, para cada necessidade não atendida, inúmeras possibilidades de atenção. Ouvir para compreender e demonstrar nossos pressupostos dos fatos.
Antecede a importância da compaixão na convivência humana, a compreensão correta. A compaixão não deve ser um objetivo a ser praticado, mas algo natural, com diversos nomes, e que promova aproximações no viver com.
O olhar buda nos ajuda a desenvolver percepções mais abrangentes das necessidades humanas e de todas as formas de vida. Não apenas na convivência humana, mas na convivência com tudo aquilo que nos torna possíveis.
Na adequação do sentido compassivo, desenvolvemos naturalmente a percepção das relações sem pressupostos ou preconceitos e nos tornamos sensíveis, por meio da “escuta além dos sons”, a todos os sinais sutis, e criamos oportunidades de expressão da diversidade, enriquecendo o conviver. Esse é um dos olhares buda para a convivência humana

A compaixão é inerente à natureza humana

Importante ter claro que a compaixão não é um sentimento que pertence a grupos religiosos ou grupos especiais. Trata-se de um sentimento inerente à natureza humana, está em todos e em tudo e surge quando as “afinidades foram conectadas”.
O cultivar a compaixão é desenvolver o olhar em profundidade diante de todos os fatos cotidianos, a observar que nada existe isoladamente e que inúmeras causas e condições influenciam  tudo o que nos acontece. Não dividir o mundo entre pessoas certas e erradas, o bem e o mal, os que sabem e os que não sabem. Não criar nem alimentar discriminações. Mas voltar-se ao olhar de compreensão. Aquele olhar questionador das origens de todas as formas de sofrimento que promovem ações violentas.
Testemunhamos a cada momento atos de violência, e dos mais diferentes aspectos: fala, gestos, atitudes, agressões físicas, simbólicas, injustiças. Antes de nos posicionarmos com as interpretações que nos levam a julgamento, recomenda-se cessar as falas internas e externas e permitir-se perceber se já estamos sendo tomados pela raiva, por pressupostos, pelo medo, pela insegurança ou até mesmo pela indiferença.
E, para cultivar a compaixão diante das mais diversas circunstâncias, respirar conscientemente várias vezes e perguntar a si mesmo: O que poderia ter acontecido com as pessoas envolvidas para agirem dessa forma? Quais necessidades básicas não foram atendidas? O que lhes falta?  E não precisaremos ter as respostas, pois muitas vezes não há, mas, ao perguntarmos abrimos nosso coração mente às dimensões profundas do humano. Essa dinâmica é a compaixão ativa.
O cultivar e viver a compaixão, ou melhor, o sentido de solidariedade, de cuidado recíproco, se dá diante dessa forma, cultivando a clara compreensão. A convivência humana é o território fértil, estimulador, desafiador, onde tudo o que somos se manifesta. E é nesse local que aprendemos a nos conhecer e nos reconhecer que não somos realidades fixas, mas em constante transformação, e nos sustentamos reciprocamente.

* Monja Heishin Gandra
 É monja da tradição Budista Soto Zen/Japão, da comunidade Zen-Budista. Formada em Pedagogia, com especialização em Gestão Ambiental. Atua em políticas públicas, em planejamento participativo e educação ambiental e em iniciativas de Cultura de Paz e Não Violência.
Referência
YOSHINORI, Takeuchi (org). A Espiritualidade Budista. Editora Perspectiva, 2006.

Fonte: Ediçao 83 - Julho/Setembro de 2016
Postado por: Diálogo




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