Manto Real

Data de publicação: 21/02/2017


A fascinante floresta tropical, que já revestiu de realeza a terra inteira, guarda, como em uma cápsula do tempo, heranças genéticas de milhões de anos de evolução, e o ser humano do século 21 tem poder de decidir se ela continuará viva ou se será extinta da Terra.

                                          

Por
Maria Inês Carniato

Vida em movimento

Presente nos cinco continentes como fragmento da única floresta global que recobria o planeta antes de a terra e os mares terem a configuração que conhecemos, a mata tropical resiste e, por 100 milhões de anos, cumpre a tarefa diária de regular o ciclo de vida entre a terra, a água, o ar e o sol. Ignorando tal importância, a interferência humana no último século é grande o suficiente para desequilibrar essa harmonia planetária e pôr em risco todas as formas de vida.
Eleita em 2011 como uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo, pelo site suíço New 7 Wonders, a Floresta Amazônica é a maior parcela de mata tropical do planeta, com quase 6 milhões de quilômetros quadrados cobrindo o norte da América do Sul, com a maior área no Peru e no Brasil. Nosso território já foi Selva Amazônica em 40% de seu espaço, e hoje vê destruídos quase 20% dessa área, segundo cálculos publicados pelo Instituto Brasileiro de Florestas (IBF). Só no Maranhão, 80% da mata desapareceu, como mostram fotos e dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ainda assim, ela não deixa de ser um gigantesco bioma de diversidade inigualável. No Parque Estadual do Cristalino, ao norte de Mato Grosso, por exemplo, existem 500 espécies de árvores em um único quilômetro quadrado.
Cerca de 20% da água doce do planeta flui pela Amazônia e três quartos dela evaporam e voltam em forma de chuva, o que faz da mata um filtro que subtrai da atmosfera o efeito estufa e transpira umidade, formando um dossel de nuvens que reflete o calor do sol de volta para o espaço e refresca o clima.
O solo sempre úmido decompõe os elementos mortos e alimenta a vida, que é abundante nas espécies terrestres e aquáticas de todos os tamanhos, das quais a metade ainda está por ser descoberta; a maioria, minúscula e arredia, vive em níveis profundos, ainda inacessíveis à ciência. Essa variedade alcança uma estimativa de 30 milhões, conforme projeções da ciência publicadas pelo IBF, sendo que cada espécie tem seu nicho específico na mais complexa e eficiente trama ecológica da Terra.
Os insetos, depois das bactérias, são os organismos vivos mais resistentes da natureza. Em número estimado no triplo da soma dos outros animais de todas as espécies, adaptam-se a todos os nichos ecológicos do planeta. A floresta não existiria sem eles, que também saciam milhares de bocas famintas na cadeia alimentar; polinizam as flores e, ao lado das aves e de outros animais pequenos que dispersam as sementes, são responsáveis pela perpetuação das espécies vegetais; se um polinizador for extinto, a planta desaparecerá com ele.

Condomínio múltiplo
Segundo os biólogos Sérgio Borges e André Carvalhaes, da Fundação Vitória Amazônica, de Manaus (AM), a floresta não é apenas o tapete verde que se pode ver ao sobrevoá-la. É um verdadeiro condomínio de vários andares, funcional e muito bem conservado por seus habitantes, enquanto eles se ocupam na procura de comida.  
A começar pela população subaquática e aquática dos rios e igarapés, vemos depois os seres que moram sob as folhas secas e os troncos podres; a seguir, os que  andam no solo, comendo o que está à vista; destes, alguns são também inquilinos do sub-bosque, porque escalam arbustos na caça a insetos e frutinhas desse estrato. Mais acima, vivem os animais do ambiente vertical, aves, mamíferos, insetos e répteis escaladores dos troncos; levantando o olhar, avistam-se os da subcopa, especializados no ambiente das árvores altas e na fácil passagem de uma para outra; e, sobre estes, os que vivem no topo das copas e sobrevoam a vastidão da floresta. A distribuição das espécies é restrita a setores do biossistema e, destes, há muitos ainda incógnitos na Amazônia; no caso das aves, apenas 50% são conhecidas. Apesar disso, elas são as principais agentes das vozes harmônicas que encantam e assustam quem as ouve. Com vocalizações ou ruídos das asas, elas marcam território, fazem a corte para atrair a fêmea e se comunicam com sua espécie, emitem sons especiais para avisar o bando de que acharam alimento ou que viram um predador por perto.

Abismo camuflado
Os povos indígenas vivem há milhares de anos na Amazônia, caçando animais pequenos, extraindo plantas comestíveis e medicinais e usando o fogo de modo seguro e inteligente. Esse quadro de reverência homem-natureza mudou drasticamente com a colonização. No século 16, agravou-se no ciclo da borracha, e, no século 19, chegou aos alarmantes atos criminosos de alcance global, cometidos por brasileiros e estrangeiros, que vão do extrativismo biológico e mineral à agricultura e à pecuária, praticados com métodos irracionais.    
O século 20, com tecnologias de largo alcance, foi o campeão dos projetos nacionais e internacionais impostos sob barbáries como extinção de espécies animais, genocídios de povos indígenas, incêndio de casas e expulsão dos habitantes nativos. Um dos capítulos mais grotescos dessa história deu-se nas décadas de 1920 a 1940, quando o magnata capitalista norte-americano Henry Ford, então o homem mais rico do mundo, decidiu desmatar mil hectares do Vale do Rio Tapajós, no Pará, e plantar seringueiras para extrair o látex, que seria embarcado em navios diretamente para a fábrica de carros em Detroit, nos Estados Unidos, onde viraria pneu. Habitantes da região, citando as memórias de seus pais, contam que a imensa área desmatada foi queimada em um único dia e a densa fumaça deixou vermelha a visão do sol, algo jamais testemunhado pelos povos da floresta.
Henry Ford mandou trazer, em dois navios, todos os materiais, maquinários e equipamentos necessários para edificar a cidade de Fordlândia (hoje abandonada), que abrigou os técnicos americanos e suas famílias. Milhares de trabalhadores brasileiros foram explorados nesse curto período e herdaram as consequências desastrosas, quando o projeto faliu diante da concorrência da borracha sintética na indústria de automóveis.
Tragédias bem piores do que a epopeia Ford seguem seu curso todos os dias na Amazônia neste início do século 21 em nome de um desenvolvimento irracional e inconsequente. Exemplos disso são a mineração, a agricultura e a pecuária. O ciclo de extinção da floresta e de seus habitantes amplia-se continuamente, com o curto tempo de plantio no solo arenoso e pobre, que, despojado do húmus superficial que a floresta produz, rapidamente se esgota e é abandonado e seguido de novos avanços floresta adentro. 
Os índios Waimiri-Atroari, do Amazonas, os mais resistentes ao contato com os brancos, por mais de 130 anos se defenderam dos ataques de garimpeiros, castanheiros, caçadores e soldados. Na década de 1970, durante a construção da Rodovia BR-174, Manaus-Boa Vista, aberta pelo 6º Batalhão de Engenharia de Construção do Exército, eles foram quase extintos por ataques de guerra, quando barcos com canhões de proa e aviões militares com bombas químicas devastaram as aldeias matando quase 6 mil pessoas.  

Grandes perguntas
Se for correta a hipótese científica de que o último aquecimento global causado por vulcões na Era Paleozoica, há 250 milhões de anos, extinguiu quase todas as espécies vivas, será válido também dizer que as florestas e os oceanos conseguiram reciclar o planeta em toda a sua biodiversidade.
O aquecimento pré-histórico, com suas causas e efeitos, foi natural e fez parte da formação da Terra. Hoje, porém, a ameaça de aquecimento global é artificial e antinatural, tomou o planeta de assalto e ele não tem mais energias reservadas para reagir. Tais como os seres vivos encurralados pelo fogo nas matas queimadas, nós humanos, no planeta Terra, não teremos para onde fugir. Os 20% restantes das florestas do mundo poderão nos salvar outra vez?

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Canal YouTube:
Homem Branco em Marãiwatsede (12:37 minutos)
Momento Ambiental – Desmatamento (14:00 minutos)
O que Vai Acontecer com a Amazônia (6:48 minutos)
Sem Florestas não Há Clima (15:37 minutos)
National Geographic Amazônia Selvagem Berço da Vida (45 minutos)

Fonte: edição nº 81, Janeiro/março
Postado por: Diálogo




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