Cada vez mais Diálogo

Data de publicação: 22/02/2017


Cada vez mais Diálogo

Texto:
Karla Maria
Fotos: Sonia Mele

Promover o diálogo, o encontro e o respeito entre as diferentes religiões, tradições e culturas tem sido o objetivo destas páginas nos últimos 20 anos. Reportagens, fotografias, artigos acadêmicos e ilustrações gráficas trazem consigo cores, lendas e credos. Tentam traduzir sons, mistérios de fé, sabores e danças peculiares de cada povo para alimentar o conhecimento e assim o respeito no combate ao preconceito e à discriminação daquilo que nos parece diferente, bárbaro.

Cultura do encontro
Para celebrar esses 20 anos de publicação, esta revista contou, na noite de 22 de outubro, na sede de Paulinas Editora, em São Paulo (SP), com presença dos rrom – ciganos – do Grupo Vitsa Ramanush. A festa aconteceu ao som da música tradicional romani e deu espaço ao grupo para dar mais visibilidade à cultura do povo cigano, ainda hoje desconhecida e discriminada por grande parte da população brasileira.
As cores vivas da vestimenta do homem e da mulher cigana, o som do violão, do acordeon e do cajón e os passos soltos da dança – o idioma universal dos ciganos – trouxeram a alegria das lendas, da vida de um povo que entre si também é bastante diverso culturalmente.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 500 mil ciganos vivem no Brasil, mas os dados são "incipientes”, assim como as políticas públicas voltadas para eles. “O trabalho que a revista exerce merece todo o nosso apoio, porque é justamente difundindo a cultura que a gente vai ter a possibilidade de viver em um país melhor, um país onde a gente possa olhar para todos tolerando – não gosto desta palavra –, respeitando o próximo do jeito que ele é e do jeito que a cultura dele pede que ele seja”, diz Nicolas Ramanush.
Ele é presidente da Embaixada Cigana no Brasil e fundador do Grupo Vitsa Ramanush, o qual o difunde a cultura contra o preconceito e o estereótipo. “Essa é nossa luta, e usamos a linguagem universal da música, da dança, que é um atrativo para que as pessoas conheçam a nossa cultura”, revela Ramanush, antropólogo cultural por notório saber, professor de Cultura Cigana em diversas universidades e representante do estado de São Paulo no programa Patrimônio Cultural Imaterial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), órgão ONU.

Desafios do terceiro milênio

A revista surgiu em 1995, um ano antes de ser aprovada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e a Diálogo foi, naquele momento, um dos pilares de apoio aos professores do Brasil que defendiam que o Ensino Religioso fosse incluído nessa legislação. “A revista procurou nos ajudar a enfrentar o desafio que a própria globalização traz, o desafio da convivência harmoniosa, solidária, respeitosa com todas as diferenças que estão aí, no mundo atual. No Brasil, uma das iniciativas foi a implantação do Ensino Religioso na escola, com o objetivo de educar as crianças para a superação dos preconceitos, das rivalidades e das exclusões, tanto dentro como fora de sala de aula. Isso só é possível a partir do conhecimento da diversidade e da pluralidade religiosa não só do mundo, mas do povo brasileiro”, pontua a atual diretora da revista, Maria Inês Carniato.
O Ensino Religioso não significa o ensino de uma religião, mas de todas as religiões, promovendo a cultura do respeito entre os diferentes. E é o que tem ocorrido nesses 20 anos, como bem observa o jovem estudante André. “Meu nome é André. Tenho 9 anos. Nas aulas de Ensino Religioso nós estudamos os livros sagrados das religiões. Dessa forma podemos entender melhor as outras religiões e não causar novas guerras, por não entendermos os outros e não respeitarmos suas religiões. Parabéns, revista Diálogo, por ajudar a evitar isso”, escreveu ele à Redação da revista.
André conseguiu a proeza com a qual sonha esta publicação, de respeito para uma cultura de paz que ainda parece distante.

A ferramenta da educação
Luciana Schmidt Velloso é brasileira e vive em Curitiba (PR). É muçulmana e, por tradição, só sai de casa com o hijab, o véu que lhe cobre os cabelos. Luciana também é vítima da ignorância, do preconceito. Recentemente foi atacada por um senhor, nas ruas da capital paranaense, porque estava usando seu véu.
O senhor, acompanhado por uma criança que parecia ser sua neta, atirou em suas pernas uma pedra e a xingou, acusando-a de terrorista, confundindo-a por ser muçulmana com um integrante do grupo extremista Estado Islâmico (EI), responsável pelos recentes ataques terroristas a Paris. “Antes era constrangedor, agora se tornou amedrontador”, disse a jovem em coletiva de imprensa na mesquita Imam Ali ibn Abi Talib, no centro de Curitiba. E tudo por causa do véu, o símbolo de sua religião, de sua cultura.
Situações como essa, de intolerância e discriminação, baseadas na falta de respeito, informação e conhecimentos básicos sobre cultura e religião de determinados povos proliferam há décadas pelo Ocidente, dando raízes a um preconceito também por aqui cultural. É nesta realidade que as páginas da revista DIÁLOGO – RELIGIÃO E CULTURA seguem, há 20 anos, cumprindo seu objetivo, de educar para o diálogo, o encontro, a promoção humana. “No mundo de tanta intolerância, de muito fundamentalismo, é importante educar as pessoas para o respeito, para as diferenças religiosas”, lembra a irmã paulina Luzia Sena, a primeira diretora de Redação da Diálogo.

Revolução nas mãos
“É uma honra muito grande fazer parte do aniversário de uma revista chamada Diálogo, pois é o que falta na comunidade”, diz Robson César Correia de Mendonça, ex-morador de rua, coordenador do Movimento de Pessoas em Situação de Rua do estado de São Paulo. Não foi por acaso que o convite chegou a ele. Este homem, depois de perder a família em um acidente de carro, tornou-se morador em situação de rua e ainda assim encontrou nos livros, na educação e na cultura forças para recomeçar sua vida, mas não só, criou meios de levar conhecimento aos demais moradores em situação de rua da capital paulista com sua Bicicloteca.
“Lembro-me bem. Depois de uma semana que eu estava com a Bicicloteca na Praça da Sé, iam passando quatro moradores de rua com garrafas de cachaça na mão. Um deles entregou a garrafa ao outro e pegou um livro, dizendo que ali era o momento de mudança da vida dele. Hoje ele é advogado e ingressou na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), então isso não é uma vitória minha, é uma vitória dele”, conta Mendonça.
O “pai”, como é chamado pelas pessoas que estão em situação de rua na capital, cerca de 16 mil segundo a Prefeitura de São Paulo e mais de 23 mil pelas contas de Mendonça, também mantém um escritório, no qual realiza projetos de ressocialização e encaminhamento dessas pessoas para o mercado de trabalho, mas não só. O gaúcho natural de Alegrete promove a cultura, eleva a autoestima das pessoas, especialmente dos jovens que encontram no “pai” o estímulo para ler e escrever suas próprias histórias. “A quantidade de crianças que vêm pegar livro é incrível. Eu acho que o nosso papel é mostrar à comunidade, desde a criança até a chamada terceira idade, que é importante a nossa mudança. Eu mudei e coloquei na cabeça que ia ajudar as pessoas a mudarem”, conta Mendonça, que morou seis anos na rua e sobrevivia sob os efeitos da cachaça até ler o livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell.
Claudia Santos também acredita no poder dos livros. Ela mora em São Bernardo do Campo (SP), mas leciona para crianças de 4 a 6 anos em uma escola de ensino municipal na Vila Santa Catarina, em São Paulo.
“Meu alunos (580 crianças) ainda não leem convencionalmente, mas eles são leitores, e vim aqui aprender sobre como ajudá-los mais e mais. Aprender sobre a cultura cigana também é muito importante, os ciganos estão muito presentes em nossa cidade, mas pouco sabemos deles. Esta é uma cultura étnica que não tem visibilidade, então, nossa proposta é saber um pouco mais para desfazermos os mitos”, destacou a professora, que parece estar respondendo também ao objetivo da revista. “Nosso desejo é que, por meio da informação, as pessoas possam ir superando os preconceitos”, finaliza Maria Inês.

Fonte: edição nº 81, Janeiro/março
Postado por: Diálogo




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