Aprendizes da Misericórdia

Data de publicação: 10/03/2017


Aprendizes da misericórdia



A modernidade liquefez as instituições e desencantou o mundo. Trouxe benefícios tecnológicos, mas aprisionou a alma e os sentimentos. Muita gente vive segura, mas em casas sem janelas. Para respirarem e verem o sol, muitos garimpam espaços encantados na poesia, nos sonhos e no mundo simbólico. Procuram fora de si o que só poderão encontrar dentro de si mesmos. Este é o paradoxo da vida atual. Cada vez mais tateando em busca de sentido fora de si quando a resposta está dentro. Eis por que o Fenômeno Religioso e suas expressões culturais devem estar em voga e com adeptos em crescimento constante.
Um dos melhores analistas do mal-estar da modernidade é um professor jesuíta de literatura chamado Jorge Mario Bergoglio. Atento ao que os poetas encontraram burilando as almas humanas, este argentino pretende compartilhar com a humanidade a chave de um belo tesouro. A saída para nossa dor é pelo coração.
Felizmente este homem é atualmente o papa Francisco. Sua palavra motora é a misericórdia. Misericórdia como liberdade da alma prisioneira. Misericórdia como horizonte de sentido para os humanos desencantados.

Ano Santo da Misericórdia

É nessa ampla perspectiva que o papa Francisco proclamou 2016 como Ano Santo da Misericórdia, apresentando um novo rosto da religião católica neste tempo marcado por guerras e terrorismos. Ele reage contra os rigorismos proclamando a prioridade do amor e do perdão. Quer superar a rigidez dogmática e fria e encontrar as pessoas reais feitas de dores, esperanças, trabalhos e amores. Francisco evita o discurso religioso moralista e excludente. Para ele, praticar o amor é praticar Deus no mundo. Falar o nome de Deus pelos gestos mais do que por palavras. O papa Francisco crê que o músculo cardíaco que move a religião cristã é a misericórdia. Ele quer superar as fronteiras do catolicismo ao construir pontes com os outros crentes em Deus e mesmo com quem não tem fé religiosa. Convida para um mutirão de paz em favor de nossa Mãe Terra e de cada um de seus filhos.
Como afirma Francisco, na bula Misericordiae Vultus – O Rosto da Misericórdia, “a misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja. (...) Ela relaciona-NOS com o Judaísmo e o Islamismo (...) e com as outras nobres tradições religiosas; que ele (o Ano Jubilar da Misericórdia)nos torne mais abertos ao diálogo, para melhor nos conhecermos e compreendermos; elimine todas as formas de fechamento e desprezo e expulse todas as formas de violência e discriminação” (nº 23). E ainda mais, acrescenta Francisco, “a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém” (nº 24).

A misericórdia no judaísmo e no islamismo

Francisco foi buscar nos textos sagrados do povo judeu as palavras motoras para fazer essa revolução do amor. Ele sabe que misericórdia não é invenção sua ou novidade chique de um discurso papal pós-moderno. Misere-cor-dare é uma palavra da língua latina, que significa “dar o coração ao pobre” ou “colocar o nosso coração conectado às causas dos pobres”. Como se todos fizéssemos um transplante de coração.
A palavra coração está presente em 853 versículos da Bíblia hebraica. Coração (leb ou lebab, em hebraico) simboliza a pessoa humana multidimensional em sua inteligência, vontade, sentimentos e memória. Hoje, destaca-se muito a conexão restrita entre coração e emoção. Para o povo hebreu, entretanto, é no coração onde se guarda o essencial do viver e não só os sentimentos e os medos. Coração é o lugar do cuidar, do conservar e, sobretudo, o lugar central do meditar. Mais do que sentir, o coração é o lugar da decisão e da verdade de cada pessoa humana. O povo judeu tem a convicção de que o coração é o lugar excelente onde brotam as palavras que nos revelam ou que podem nos esconder. Sem o movimento do coração, não se pode entender a decisão de Moisés ou de Abraão.
Misericórdia se aprende pelos movimentos do próprio coração. É uma experiência que deve ser cultivada na família, na escola e na vida diária. Os cristãos falam de misericórdia; os muçulmanos acreditam que Allah é o Deus da misericórdia; e o povo judeu afirma que misericórdia é a essência da revelação divina.
A palavra misericórdia, em hebraico raham, rehem ou rahamim, significa “o útero materno”. Essa palavra aparece 131 vezes na Bíblia hebraica. Evoca o movimento interior das pessoas e de suas emoções vitais, tal qual uma mulher que está grávida. Quem aprende a misericórdia sabe de amor como a mãe gera um filho em seu ventre. Todo ser que foi gerado é capaz de reverberar o amor que recebeu antes mesmo de nascer. Por ser amado primeiro, será capaz de amar com alegria.

Aprendendo a ser misericordiosos
Conhecer a misericórdia não é um exercício intelectual, mas algo que exige a pessoa inteira: corpo, mente e coração. É mais que discurso, ainda que precise se expressar em palavras de gentileza. É mais que gesto, ainda que exija práticas concretas de compaixão diante daquele que chora ou está deprimido. É mais que um gesto individual, embora comece sempre no coração de cada pessoa e se agigante em movimento irreversível de transformação social. Misericórdia é uma pequena semente que brota por si mesma, mas se faz necessário que cuidemos dela, regando, cultivando e evitando vir a ser sufocada ou morta pelas pragas. É algo que vem de dentro para fora e exige que estejamos atentos ao seu processo educativo. É um afeto que precisa ser aprendido e cuidado.
Misericórdia não é um conceito, nem sequer palavra ou ideia. São as nossas experiências pessoais, sempre plurais. Podemos dizer que somos as misericórdias que vivemos, e essas misericórdias experimentadas nos fazem ser o que somos. Assim, cada um de nós pode falar e escrever sobre seus amores, suas dores, seus amigos, mas, sobretudo, deve saber falar de “suas misericórdias”. Essa é a melhor maneira de aprender as misericórdias: fazendo-as e depois falando das experiências concretas. Falando de nós mesmos, de nossas experiências, e usando a arte para exprimir aquilo que as ciências não conseguem explicar e compreender.  É isso que o filósofo Francês Blaise Pascal experimentou e assim resumiu: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Testemunhos de misericórdia

O papa Francisco, em suas viagens pelo mundo, tem se aproximado de todos os que perderam a esperança para anunciar a presença concreta da misericórdia. Assim fez em Lampedusa (Itália), nas fronteiras do México, em Brazzaville (Congo), na Bolívia, ou na prisão, em Roma. O papa quer que coloquemos nossos corações à disposição do Deus que nos ama primordialmente. Para que esse nosso viver seja pleno de alegria, como diz o salmista: “Puseste em meu coração mais alegria do que quando seu trigo e seu vinho transbordam” (Salmo 4,8); “para que o pão fortaleça o coração do homem” (Salmo 104,15). Como ensinou o mestre hindu Mahatma Gandhi: “Não há caminho para a felicidade, é a felicidade o caminho”.
Assim o pensador norueguês Ole Martin Høystad, em seu livro Uma História do Coração, explica: “A qualidade essencial do coração no cristianismo é servir como uma morada para a alma (que assim adquire substância). A chave do mistério da vida (e da morte), o mais secreto e irredutível, fica ocultado no coração humano como uma morada da alma dada por Deus, que não segue o caminho da carne, mas que, em certas condições, pode ser salva (ou perdida para o bem), a reluzente pérola que, na porta da morte, pode ultrapassar o limiar para bem aventurança eterna. É esta doutrina da alma que é desenvolvida no Novo Testamento, onde o coração de Deus (do Antigo Testamento) é completado e conectado com o igualmente importante amor ao próximo em ágape, que também tem o seu lugar no coração: Tu amarás o teu próximo como a ti mesmo (Mt 22,39). Todas as outras formas de amor estão subordinadas e sujeitas a estas duas formas” (p. 80-81).
O papa Francisco tem sugerido uma nova compreensão de Deus manifestada pela misericórdia. Ele assume que religião vem de re-ligare, ligar de novo e re-legere, ler novamente. Francisco quer pontes e releitura dos textos antigos das religiões para alimentar o amor e renegar a violência e o preconceito em nome de Deus.
O coração livre de uma pessoa religiosa deveria ser sem fronteiras, pois fundado no amor. Assim a fé cristã, a fé islâmica e a fé judaica têm em comum essa descoberta de que segundo o jesuíta espanhol Jon Sobrino, O Princípio Misericórdia – Descer da Cruz os Povos Crucificados, “a misericórdia é a reação correta ante o mundo sofredor, e que é reação necessária e última; que sem aceitar isto não pode haver nem compreensão de Deus, nem de Jesus Cristo, nem da verdade do ser humano, nem pode haver realização da vontade de Deus, nem da essência humana” (p. 67).

Amar é mais que gostar

No Evangelho escrito por João, lemos uma intrigante e insistente pergunta de Jesus feita a Simão, o filho de João, por três vezes (cf. Jo 21,15-17): “Tu me amas?”. e uma resposta simplista: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te quero bem”. As religiões que caminham no diálogo inter-religioso hoje estão respondendo com audácia e amor: “Sim, eu te amo com toda a força de meu coração, de meu entendimento e com os gestos de todo o meu corpo” (cf. Lc 27,10). Em lugar da resposta medíocre do mero gostar, optemos pela resposta exigente da misericórdia comprometida. Amor que se aprende pelo respeito aos diferentes. Aprendido e ensinado na escola da misericórdia como uma experiência plural de nossos amores concretos. Assim nossas escolas poderão ser lugares bonitos onde saber, amizade e conhecimento possam ser condimentados com o sal da compaixão. Foi isso que eu mesmo aprendi de minha avó Dolores, de meus pais, Fernando e Carmen, de minha esposa, Maria, e que procuro ensinar aos meus filhos, Gabriel e Ana Clara. Algo que confirmei assistindo ao filme A Eternidade e Um Dia (Mia Aioniotita kai Mia Mera), do cineasta grego Theo Angelopoulos (1998), que mostra um escritor vivendo o seu último dia de vida e, de forma inusitada, abrindo a porta de seu carro para um menino de rua que, em seguida, seria deportado para a Albânia. O escritor abre a porta de seu coração ao menino desconhecido sem sequer saber o seu nome. Por que ele fez isso? Para que fez? O que o terá comovido? Antes de morrer será que é preciso fazer algo?
Abrir os corações e as portas deveria ser uma disciplina básica para fazer o vestibular da vida. Creio que deveria ser inserida no currículo escolar quanto antes. Assim os aprendizes se tornariam professores e os professores aprendizes.

* Fernando Altemeyer Junior

Mestre em Teologia e em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Lovaina (Bélgica), doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professor assistente e doutor na PUC-SP. 

Referências

FRANCISCO, papa. Misericordiae Vultus – O Rosto da Misericórdia. São Paulo: Paulinas Editora, 2015.
HØYSTAD, Ole Martin. Uma História do Coração. Petrópolis: Vozes, 2015.
SOBRINO, Jon. O Princípio Misericórdia – Descer da Cruz os Povos Crucificados. Petrópolis: Vozes, 1994.

Fonte: Diálogo - nº83 -Julho/Setembro 2016
Postado por: Diálogo




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