Ouro a preço de couro

Data de publicação: 13/03/2017


Ouro a preço de couro

O típico humor brasileiro levado na bagagem dos imigrantes que vivem nos Estados Unidos da América costuma definir a pátria adotiva como o lugar onde você “ganha ouro, mas deixa o couro”. Isso faz sentido, sabendo-se da enorme porcentagem de estrangeiros empregados em trabalhos cansativos, desgastantes ou insalubres, no País.
E a “corrida do ouro” parece ser mundial, conforme o último relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no qual se vê que 20% dos migrantes em trânsito no mundo se dirigem ou sonham se dirigirem para os Estados Unidos da América.
Apesar das lutas e das saudades, muitos brasileiros encontraram lá um novo chão e se sentem em casa. Essa é a experiência das famílias Almeida e Vieira, amigas de Irmã Líria Grade, correspondente da revista Diálogo – Religião e Cultura em Boston. 

Tudo pela família
 
Diálogo – José Ferreira de Almeida, nome bem brasileiro! Das pessoas que vivem o sonho americano com você, quem veio da “Pátria amada”? E quem nasceu na nova terra?        
José – Eu vim para os Estados Unidos com a minha esposa, Solange Salgueiro de Almeida, e os filhos, Alexandre e Daniela. Aqui eles se casaram e nasceram os nossos netinhos, Vitória, Davi, Isaac e Verônica.
Diálogo – Por que resolveram migrar?
José – Tomamos essa decisão porque o meu filho e a minha filha, na juventude, sentiram a necessidade de conquistar uma vida melhor, com boas condições de trabalho, estudo e segurança. Minha esposa e eu resolvemos apoiá-los nessa mudança e migramos com eles, para manter a família unida. 
Diálogo – A união da família é o sonho de milhões, e vocês já a possuíam. O que sonharam, então, ao deixar o Brasil?
José – Ver os filhos realizados.
Diálogo – O custo do sonho foi alto?
José – Muito alto! Quando partimos eu senti imensa dor ao deixar os amigos chorando por nossa saída da comunidade que frequentávamos. E, quando chegamos aqui,  continuamos pagando tributo às saudades de pessoas que não tínhamos mais a certeza de rever um dia.
Diálogo – E agora? O vazio de amigos no coração já foi preenchido?
José – Sim, na chegada nós fomos recebidos por familiares que já viviam nos Estados Unidos e nos ajudaram a conseguir casa, trabalho e assistência à saúde. Em seguida, os irmãos de fé da comunidade católica de Allston/Brighton nos deram todo o apoio, ocupando, de certa forma, o espaço aberto à fraternidade que trazíamos no coração. Destes, quero lembrar em particular a Eliane Lírio, o padre José Mário Ribeiro, a irmã Elizete Signor e o nosso compadre, Adelson Silva.
Diálogo – Fora do círculo de brasileiros, foi muito difícil se adaptar ao convívio social?
José – No começo tudo foi novo e interessante. A primeira neve, a primavera, o outono, tudo muito lindo. Mas não se convive só com a natureza. Tudo o mais foi difícil, a começar pelo trabalho, tive um patrão arrogante, sofri humilhações e trabalhei como um escravo, porém nunca deixei de lutar.
Diálogo – O que você sofreu não é regra para todos. Por outro lado, viver em outro país é sempre difícil. O que mais desafiou sua coragem nos primeiros tempos?
José – O pior foi não saber a língua, o que dificultou a procura de um bom trabalho. Depois, ter que dirigir sem habilitação, devido à situação de migrante. Sofri multas, e cortes e tive o carro rebocado, mas nada tinha a fazer, eu precisava dele para ir trabalhar.
Diálogo – Tudo isso é passado? Valeu a pena?
José – Claro! Hoje eu exerço a profissão de eletricista, a que sempre tive no Brasil. Sou feliz e amo o que faço.
Diálogo – Pensa em um dia voltar a viver na terra natal?
José – Antes eu sonhava voltar para o Brasil, mas com o passar do tempo os planos mudaram. Sinto-me bem, aqui, amo a comunidade da qual participo, tenho meus filhos, netos, genro e nora, todos com cidadania norte-americana. Tenho muitos amigos e parentes, um bom trabalho, saúde e segurança. Minha esposa e eu conquistamos o visto de residência permanente, o green card (cartão verde), e eu estou me preparando para um dia me tornar cidadão desta pátria, também.
Diálogo – Que “tempero” faltaria para completar o sabor de ser brasileiro nos Estados Unidos?
José – O calor humano que só o povo brasileiro tem. Eu amo o Brasil e nunca vou deixar de amá-lo, porque a nossa cultura é linda em tudo, até mesmo nos pequenos detalhes.

Sonho construído
Diálogo – Nágila Aparecida Vieira, a xará da Padroeira do Brasil! Onde está o seu coração?
Nágila – É verdade que ele voa, de vez em quando, para a Basílica de Aparecida (SP), mas sua morada permanente é aqui nos Estados Unidos, onde vivo com meus três filhos e meu esposo, Edmilson Corbelli Vieira.
Diálogo – Você veio atrás de que sonho?
Nágila – Na verdade, eu resolvi migrar mais por curiosidade, porque os meus irmãos mais velhos e outros familiares já moravam aqui. O meu principal sonho era encontrar o homem da minha vida, casar-me e construir uma família.
Diálogo – Pelo visto, então, nada mais lhe falta...
Nágila – Posso confirmar isso, porque os meus sonhos estão todos realizados. Hoje eu me sinto muito feliz, encontrei a quem procurava, estamos juntos há 15 anos e temos uma linda e abençoada família. Nossos filhos são como milagres, pelo fato de sermos primos em primeiro grau! Só uma coisa eu continuo pedindo a Deus, a legalização de minha permanência aqui nos Estados Unidos.
Diálogo – Você entrou no país de forma ilegal?
Nágila – Sim, entrei pela fronteira do México.
Diálogo – Correu riscos?
Nágila – Corri, sim, a viagem é muito arriscada. Mas a minha foi tranquila, apenas senti grande pressão psicológica por saber que estava entrando ilegalmente no país.
Diálogo – O que significou, nos primeiros tempos, ser imigrante na ilegalidade?
Nágila – Foi muito difícil encontrar emprego e ganhar o suficiente para me manter e pagar minha dívida, porque eu cheguei devendo bastante dinheiro para minha irmã e meu cunhado. Os primeiros tempos foram de lutas e muito trabalho como faxineira.
Diálogo – Sentiu a falta do Brasil nos primeiros tempos?
Nágila – Não só naquele tempo, mas até agora sinto saudades de meus pais, irmãos, sobrinhos, além da dor de ter deixado os amigos da comunidade cristã da qual eu fazia parte. Meus pais vieram ao meu casamento e continuam a vir passear aqui, todos os anos, mas o aconchego da casinha deles, o almoço em família, o estarmos juntinhos são coisas que ainda me fazem falta.
Diálogo – Ninguém preencheu a falta de aconchego que veio com você?
Nágila – Eu tive, sim, quem me cercou de aconchego aqui. Encontrei forças em alguns dos familiares, e, especialmente em meu primo Edmilson, que me ajudou muito e teve compaixão de mim e solidariedade com minhas lutas. Com tudo isso, começamos um relacionamento de namoro e hoje somos casados há 12 anos.
Diálogo – Foi bom encontrar à sua espera pessoas que já a conheciam e amavam. E se os seus parentes não estivessem aqui?
Nágila – Sempre podemos contar com as comunidades cristãs formadas por brasileiros. Eu fui muito bem acolhida também pela comunidade Santo Antonio, da cidade de Everett, que tinha sido recém-fundada quando eu cheguei.
Diálogo – Tudo isso a fez riscar do futuro a volta para o Brasil?
 Nágila – De fato, eu não penso em voltar a residir no Brasil. Tenho os Estados Unidos por minha casa e aqui já teci laços de amizade, além da minha família.
Dicas fraternais para quem pensa em migrar
Nágila – Tenha sempre um sonho e não deixe de lado a esperança em Deus, pois todo sonho sonhado em Deus se torna um desígnio.
José – Aqui só se vence com muito trabalho, honestidade e luta incessante e diária. Você ganha em dólar, mas tudo o que gasta é também em dólar. Como diz o ditado: “Você ganha o ouro, mas deixa o couro”. Acima de tudo, porém, a confiança em Deus é o principal.
Perder o “couro” não chega a ser um risco que desencoraje os que estão dispostos a correr os riscos da migração, porque segundo análise divulgada há pouco pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), as redes sociais das comunidades de brasileiros nos Estados Unidos não param de receber posts de pessoas interessadas em saber como estão as condições de vida e de trabalho na terra do Tio Sam.

Fonte: Diálogo - nº82 -Abril/Junho 2016
Postado por: Diálogo




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