Crônica da terra dos Papagaios

Data de publicação: 17/04/2017


"Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vêem em todo o ano árvores nem erva seca.
Os arvoredos se vão às nuvens de admirável altura e grossura e variedade de espécies.
 Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade”.



“Em verdade, não é fácil dizer quanta diversidade há de aves ornadas de várias cores. Os papagaios são mais comuns aqui do que os corvos, e de diferentes espécies, todos bons para se comerem; alguns deles produzem prisão de ventre; outros imitam a voz humana; outros há que, comendo o milho quando está granado, voam em bandos, e, quando estão nesse trabalho, fazem de maneira que, quando descem para comer, fiquem sempre um ou dois no alto de uma árvore, como de vigia, os quais, espiando o lugar por todos os lados, em vendo alguém aproximar-se, tocam rebate e fogem todos; mas se não houver perigo algum, quando os outros, fartos, sobem, descem os vigias por sua vez para comer.”
Assim as aves devastavam os primeiros roçados do Brasil, quando o território ainda era identificado por Terra dos Papagaios, na Carta de Catino, anônima; no Planisfério de Johannes Schöner (1477-1547) renomado geógrafo europeu do começo do século 16.


O escritor
Quem descreve esses detalhes pitorescos e outros particulares da fauna brasileira é o poeta e cronista José de Anchieta, na Carta de São Vicente, um relatório que ele escreveu ao superior geral dos Jesuítas, em 1560.
Depois da saudação formal ao destinatário, José de Anchieta passa a falar das maravilhas naturais da terra, pintando uma grandiosa visão global, da qual seguem  alguns destaques extraídos da versão do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, com o patrocínio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Estado de São Paulo e do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, publicada em 1997.
 
O clima
(...) No inverno e no verão há grandes chuveiros, que servem para temperar os ardores do sol, de sorte que ou precedem de manhã, ao estio, ou vêm à tarde. Na primavera, que principia em setembro, e no estio, que começa a vigorar em dezembro, as chuvas caem abundantemente, com grande tormenta de trovões e relâmpagos.  Então, há não só enchentes de rios, como grandes inundações dos campos. 

Os animais aquáticos
Nessas ocasiões, uma imensa multidão de peixes, que saem da água para pôr ovas, deixam-se apanhar sem muito trabalho entre as ervas, e compensam por algum tempo o dano causado pela fome que trouxera a subversão dos rios (...).
Há também outros animais do gênero anfíbio, chamados capiyûára (capivara), isto é, “que pastam ervas”, pouco diferentes dos porcos, de cor um tanto ruiva, com dentes como os da lebre, exceto os molares, dos quais alguns estão fixos nas mandíbulas e outros no meio do céu da boca; não têm cauda; comem ervas, donde lhes provém o nome; são próprios para se comer; domesticam-se e criam-se em casa como os cães: saem para pastar e voltam para casa por si mesmos.
Há muitas lontras, que vivem nos rios; das suas peles, cujos pelos são muito macios, fazem-se cintos. Há também outros animais quase do mesmo gênero, designados, no entanto, por nome diverso entre os índios e que têm idêntico uso (...).

Os animais terrestres
Até aqui tenho falado dos animais que vivem na água; tratarei agora dos terrestres, alguns dos quais são desconhecidos dessa parte do mundo (a Itália, onde vivia o superior geral) (...). Há também outro animal de feio aspecto, a que os índios chamam tamanduá. Avantaja-se no tamanho ao maior cão, mas tem as pernas curtas e levanta-se pouco do chão; é, por isso, vagaroso, podendo ser vencido pelo homem na carreira (...). Tem o pescoço comprido e fino; cabeça pequena e mui desproporcionada ao tamanho do corpo; boca redonda, tendo a medida de um ou, quando muito, dois anéis; a língua distendida tem o comprimento de três palmos só na porção que pode sair fora da boca, sem contar a que fica para dentro (que eu medi), a qual costuma, pondo-a para fora, estender nas covas das formigas, e logo que estas a enchem de todos os lados, ele a recolhe para dentro da boca, e esta é a sua refeição ordinária: admira como tamanho animal com tão pouca comida se alimente (...).
Há outro animal que os índios chamam aig e nós chamamos preguiça, por causa da sua excessiva lentidão em se mover; na verdade, é preguiçoso, pois é mais vagaroso que um caracol; tem o corpo grande, cor de cinza; a sua cara parece assemelhar-se alguma cousa de rosto de uma mulher; tem os braços compridos, munidos de unhas também compridas e curvas, com que o dotou a natureza para poder trepar em certas árvores, no que gasta uma boa parte do dia e se alimenta das suas folhas e rebentos: não se pode dizer, ao certo, quanto tempo leva em mover um braço; tendo porém subido, ali se demora finalmente, até que consuma a árvore toda; passa depois para outra, algumas vezes também antes de chegar ao cume; com tanta tenacidade se agarra no meio da árvore, com as unhas, que não se pode arrancá-lo dali, senão cortando-lhe os braços (...).
Há uma infinita multidão de macacos dos quais se contam quatro variedades, todas elas mui próprias para se comer, o que muitas vezes provamos; é comida mui saudável para doentes. Vivem sempre nos matos, saltando em bandos pelos cumes das árvores, onde se, por causa da pequenez do corpo, não podem passar desta árvore para aquela que é maior, o chefe da tropa, curvando um ramo, que ele segura com a cauda e com os pés, e segurando outro macaco com as mãos, dá caminho aos restantes, fazendo uma espécie de ponte, e assim passam, com facilidade, todos (...).
Em verdade, não é fácil dizer quanta diversidade há de aves ornadas de várias cores (...). Há, ainda, galinhas silvestres, das quais se contam três espécies: perdizes; faisões; e outras aves todas cor de púrpura, outras verdes, outras pardacentas, vistosas na sua múltipla variedade de cores. Isto quanto aos animais (...).

As plantas e árvores

Ha diversas árvores de frutos excelentes para se comer, muitos de suavíssimo cheiro, e de mui deleitável sabor. Úteis à medicina, não há só muitas árvores, como raízes de plantas; direi, porém, alguma coisa, máxime das que são proveitosas como purgantes (...).
Narrei essas coisas brevemente, como pude, posto que não duvides que haja muitas outras dignas de menção, que são desconhecidas a nós, ainda, aqui, pouco práticos (...).
Escrito em São Vicente, que é a última povoação dos portugueses na Índia Brasílica voltada para o Sul, no ano do Senhor 1560, no fim do mês de maio.

O olhar do poeta
Em um documento posterior, a Informação da Província do Brasil para Nosso Padre, escrita ao superior geral em 1585, Anchieta confirma sua admiração pelo litoral brasileiro: "Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vêem em todo o ano árvores nem erva seca. Os arvoredos se vão às nuvens de admirável altura e grossura e variedade de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade”.
Era assim a Terra dos Papagaios! A biodiversidade viceja entre as palavras e faz da carta o primeiro documento sobre a Mata Atlântica, quando ela se estendia por 1 milhão e 100 mil quilômetros quadrados, em perfeito equilíbrio, abrigando milhares de espécies animais e centenas de nações indígenas, que desfrutavam de todos os bens necessários à alimentação, saúde, abrigo e cultura material e espiritual.
Em 500 anos, pouco existe de tanta exuberância, restando-nos o sonho e a ação para que a natureza volte a nos mostrar ao vivo tudo aquilo que José de Anchieta tão bem descreve em sua longa e fascinante carta.

Mãos à obra
Acesse a versão completa da Carta de São Vicente: http://www.rbma.org.br/rbma/pdf/Caderno_07.pdf
Leia, debata, divulgue e participe das ações que visam reconquistar o equilíbrio ecológico no mundo e na Terra dos Papagaios.

Fonte: Edição Abr/Jun 2016 - Nº82
Postado por: Diálogo




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