Educar para o despertar da compaixão

Data de publicação: 19/04/2017

Por Monja Heinshin Gandra

A indiferença é muitas vezes um problema de falta de conhecimento, não houve estímulo para a observação.



A compaixão, o sentimento de ir ao encontro do outro, pode ser despertada. A indiferença é como uma “porta de ferro que se fecha”, cortando som e luz. Mas percebe-se a respiração. E também a respiração do outro lado da porta. Há vida, como a minha vida. Como perceber? Silenciar-se.
Há necessidades de sobrevivência, de liberdade, de segurança... E isso é comum a todos os seres vivos. Quando essas necessidades são ameaçadas, as violências surgem.
Desenvolver o olhar para cada fato, pessoa, relacionamento, e perguntar a si mesmo: Qual necessidade está oculta nesse fato? O que não consigo perceber? O que o outro não consegue me dizer? São perguntas que vão ampliando a nossa capacidade compassiva.
Tais perguntas são utilizadas em círculos de mediação de conflitos, em processos de comunicação não violenta. Porque se desenvolve, nesses questionamentos, algo muito importante: a suspensão de nossas ideias fixas sobre a realidade.
A meditação que no zen-budismo chamamos de zazen, isto é, sentar em presença absoluta, é uma forma essencial para o desenvolvimento da mente compassiva. Nessa prática, desacelera-se a roda de palavras, conceitos e preconceitos, expectativas e aquietam-se os pensamentos, assim a mente flui clara e percebe-se na totalidade do que somos.


Prática incessante
A prática do zazen, do apenas sentar, permite o despertar, mas é necessária a determinação, como ocorreu com Sidarta Gautama, Buda Xaquiamuni.
Os ensinamentos budistas, quando praticados com regularidade e empenho, transformam-nos. As Regras de Ouro, o entendimento das origens do sofrimento, os caminhos para a superação das causas do sofrimento, o caminho de oito aspectos para o fim do sofrimento, enfim, uma vez vividos pelo praticante, a mente torna-se compassiva.
Sem prática não há iluminação, assim como dois gravetos de madeira, que, ao serem atritados entre si, geram fogo. Se eu parar de atritar graveto com graveto, não haverá fogo. A prática para o desenvolvimento da mente de compaixão é incessante. Quando acharmos que adquirimos essa mente, já perdemos. E isso é o ensinamento de Buda.
Temos hábitos mentais que nos levam ao sofrimento. E, para mudarmos esses hábitos, primeiro devemos ter consciência de como atuam em nós e, com generosidade, modificamos suas respostas.

Educando para a compaixão
O educador Paulo Freire destacava em seus trabalhos a importância do “ato de ler o mundo”, de desvelar a realidade. E a escola tem essa função pedagógica. Como a escola cria situações que instiguem crianças e jovens a quererem compreender o mundo, a história, as culturas, os povos, a linguagem, a forma de pensar?
O diferencial está no perfil do professor, da professora, pois na escola o conteúdo já está organizado, mas a metodologia para tratar dos conteúdos depende dos professores. Os conteúdos relacionados ao meio ambiente, por exemplo, vêm permitindo o desenvolvimento do “olhar em profundidade”. No caso dos programas educacionais para a implantação de coleta seletiva nas escolas, o lixo passa a ser visto com um novo olhar.
São desenvolvidas aulas para implantar a coleta seletiva. Os alunos realizam trabalhos sobre o destino dos diferentes materiais descartados: metal, papel, vidro, plástico e orgânicos, bem como são questionados sobre a origem desses materiais: matéria-prima, minério, árvores, areia, além do conceito dos 3Rs – reduzir, reutilizar e reciclar
Nessas atividades, os professores estimulam o aluno para que observe um fluxo vivo daquilo que integra o consumo, e ações responsáveis de os todos envolvidos. E, hoje, é comum observar as crianças questionando adultos quanto aos cuidados com o lixo em sua casa e mesmo nas ruas da cidade. As crianças passaram a enxergar algo que antes lhes passava despercebido. Essa é a questão. A indiferença é muitas vezes um problema de falta de conhecimento, não houve estímulo para a observação.
Em relação ao sentimento e percepção compassiva, prosseguimos com exemplos: Há um crime, e os jornais televisivos destacam esses fatos pela televisão. As crianças e jovens assistem “indiferentes”, pois a televisão é uma extensão de seu jogo no celular, tablet ou computador. Mas, é real. Pessoas morreram, pais ficaram sem seus filhos, ou filhos sem seus pais, prédios desabaram, bombas deixaram crianças órfãs pelas ruas, homens sem sua família, crianças morrem de fome, a batalha contra o avanço das drogas etc. Para elas, é tudo um jogo de bem e mal? Como desenvolver o sentimento compassivo?
O olhar compassivo começa a ser desenvolvido por meio de uma pedagogia indagadora, com a participação de todos os grupos de alunos. Perguntas que permitam que todos possam expressar seus pensamentos, pontos de vista, e juntos nos aproximamos das raízes dos motivos do sofrimento humano. Identificando-se no processo.
Por meio de situações e dinâmicas pedagógicas, a ampliação de consciência dos alunos é provocada e deles mesmos irão imergir os seus sentimentos e sabedoria. O zazen também pode ser aplicado nas escolas. Exercícios de respiração consciente, entre outras práticas, pois contribuirão para o silenciar de ansiedades e expectativas e para surgir o sentimento de afinidade mútua.

Fonte: Edição Jul/Set 2016 - N°83
Postado por: Diálogo




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