Cultura afro-brasileira: resgatando os nossas origens

Data de publicação: 12/05/2017

Por Lilian Conceição da Silva Pessoa de Lira *
Selenir Corrêa Gonçalves Kronbauer *

Encontrei em malditos objetos, troncos e grilhetas.
Encontrei minhas origens no leste, no mar, em imundos tumbeiros.
Encontrei em doces palavras, cantos.
Em furiosos tambores, ritos.
Encontrei minhas origens na cor de minha pele, nos lanhos de minha alma.
Em mim, em minha gente escura, em meus heróis altivos.
Encontrei. Encontrei-as, enfim, me encontrei.
(Oliveira Silveira, professor e poeta gaúcho,
idealizador do 20 de novembro como Dia da Consciência Negra).



As questões culturais, dentre as quais a questão religiosa, têm sido relevantes para pesquisas e discussões, em especial, quando tratam dos temas Diversidade e o Ensino Religioso como componente curricular obrigatório no currículo da Educação Básica. O atual cenário educacional brasileiro tem-nos exigido um modelo de educação que valorize as culturas e as identidades plurais e nos desafie a construir novos conceitos sobre as religiões, articulando diferentes saberes e desconstruindo estereótipos e preconceitos. Nesse sentido, trabalhar as diversas manifestações culturais e religiosas que compõem o Brasil passou a ser um desafio para as instituições de ensino e para os programas de formação inicial e continuada de educadores e educadoras.
Nossa reflexão trará um tema de relevância instigadora para a discussão sobre  a  mudança de postura diante das  evidências que  identificam a cultura afro como uma das matrizes culturais e religiosas do Brasil. Considerando a quantidade de pessoas traficadas da África para a América Latina, em especial para o Brasil, podemos dizer que as tradições de origem africana se mantiveram vivas em nossa sociedade através da culinária, da língua, das danças, dos ritmos, das tecnologias, das receitas naturais; bem como da tradição religiosa, cujas práticas se formaram em diversas partes do País com nomes e ritos trazidos de diferentes lugares da África, que caracterizaram o que hoje temos como referencial. 
A perspectiva da presença negra e da influência da cultura e da religiosidade africana não terá como estar desvinculada da formação da sociedade brasileira. Sendo o Brasil um país com mais de 50% da população afro, não haverá qualquer possibilidade de negarmos essa presença e muito menos deixá-la fora dos currículos das escolas nem dos conteúdos desenvolvidos nos programas das licenciaturas e cursos de formação continuada para professoras e professores.  Temos enfatizado que o legado africano ainda não é reconhecido. E, quando nos deparamos com a apresentação da História do Brasil, essa afirmação torna-se incontestável, pois o destaque habitual é feito a partir da presença negra escravizada, pouco é dito sobre a história anterior da nossa gente africana, vinda de um continente imenso, com línguas e costumes diversos e com conhecimentos e saberes ancestrais dos mais diversos tipos.

Respeito à criação
É curioso ver que foi chamada pejorativamente de “cultos animistas” a herança africana trazida pelas pessoas para cá traficadas para exploração no trabalho escravo, exploração sexual e apropriação de suas tecnologias e conhecimento do manuseio da terra. Finalmente, hoje, esta herança parece ser revista e valorizada como alternativa possível para frear a dominação e a exploração do meio ambiente do qual o ser humano é parte. A compreensão de que tudo no cosmos tem uma alma nos imbui de um respeito à criação, desafiando-nos a entendermos que ,se não houver equilíbrio, nos colocamos em risco, já que tudo, incluindo nós, seres humanos, é parte do meio ambiente.
A Constituição brasileira diz no artigo 5º, inciso IV, que: “É inviolável a liberdade de culto e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção de locais de cultos e suas liturgias”. No entanto, ainda em nossos dias é possível a triste realidade de violentas discriminações contra a liberdade de culto de comunidades tradicionais de terreiro.
Um importante e necessário passo a ser dado é acolhermos o ensinamento das religiões afro-brasileiras, conforme diz a Cartilha Diversidade Religiosa e Direitos Humanos, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República: “Prevenir a intolerância é assumir que nenhuma verdade é única. É reconhecer que o outro tem livre-arbítrio (...). Esse reconhecimento pressupõe garantir-lhe o direito de pensar, de crer, de amar, de rezar, de ser gente religiosa. Gente que exercita a missão sagrada de reconhecer no outro a imagem e a semelhança de Deus, Olorum ou Javé”.

Protagonismo negro
Há que se resgatar saberes e tradições herdados de nossos ancestrais africanos, resgatando-se, inclusive, a altivez da nossa gente que se sabe oriunda do berço da humanidade, como é o continente africano. Continente esse que mesmo após séculos de exploração de suas riquezas naturais, principalmente seus povos, resiste e marca presença na história de outros países, e, muito particularmente, na História do Brasil.
Um recurso fundamental para o resgate da herança africana é o uso apropriado na escola, dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (PCNER). São eles, desde 1997, o marco que inaugura a oportunidade de conhecimento da diversidade religiosa que constitui o povo brasileiro e do reconhecimento da pluralidade da população e de seus credos. Os PCNERs pressupõem a escola como espaço de socialização dos conteúdos, identificando no papel da professora e do professor a pessoa responsável por revelar essa diversidade, promovendo a tolerância religiosa e a oportunidade de desconstrução dos estereótipos em relação às religiões de matriz africana.
O marco inicial da História do Brasil tem sido o “descobrimento”, que na verdade deveria ser denunciado como “invasão e expropriação dos indígenas”, únicos povos nativos desta terra. Ao contar a história a partir desse marco, omitem-se fatos relevantes e se constitui uma história marcada de exclusão e invisibilidade do povo negro e dos povos indígenas. Exclui-se igualmente o protagonismo negro que milita e resiste há séculos e que tem sobrevivido heroicamente, apesar de todos os esforços contrários. Tal resistência e militância persistem ao ponto de, no início do século 21, o Brasil reconhecer que a educação, com mais de cinco séculos, tem sido racista à medida que não só privilegia o grupo étnico dominante, como também omite a contribuição incontestável do povo negro para a construção do nosso país. Nasceu desta militância, através de movimentos sociais negros, a proposta de projeto que resultou na lei sancionada em 2003 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei 10.639, “que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira, e dá outras providências”, instituindo, inclusive, o dia 20 de novembro como Dia da Consciência Negra, comemorado no calendário escolar em todo o Brasil.
Reconhecer que a cultura afro-brasileira é parte fundamental da construção cultural do Brasil é resgatar nossas origens e afirmar nossa identidade afro-brasileira, com orgulho, ancestralidade, memória, comunitarismo e cooperativismo, circularidade, espiritualidade e religiosidade, ludicidade, oralidade, corporeidade, musicalidade e energia vital (axé); todos estes valores civilizatórios afro-brasileiros fundamentalmente importantes no processo educativo de construção de saberes e conhecimentos.

* Lilian Conceição da Silva Pessoa de Lira
Mestra em Teologia. Atualmente assessora a Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre (RS).
* Selenir C. Gonçalves Kronbauer
Mestra em Teologia. Professora no Ensino Superior, escritora e coordenadora do Grupo de Pesquisa Identidade na Faculdades EST, em São Leopoldo (RS). Coordenadora pedagógica da Educação Básica e Educação Profissional na Rede Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC), de Estância Velha (RS).

Fonte: Edição Fev/Abr 2013 - Nº69
Postado por: Diálogo




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