Saberes e práticas enunciados por palavra, mito e ritual

Data de publicação: 29/05/2017

Por Marise de Santana
Edson Dias Ferreira

O caruru, assim como a ceia cristã, é alimento espiritual, pois reforça no fiel o elo de comunicação com o sagrado


A proposta didática para o trabalho docente com a Lei 10.639/03 que temos desenvolvido nos conduz a pensar numa educação feita a partir do que se entende por lógica simbólica. A educação simbólica traz o pensar sobre o símbolo ritual consequentemente articulado com o mito.
Segundo o professor Muniz Sodré, “o que os antropólogos contemporâneos chamam de lógica simbólica é uma lógica das diferenças, das oposições distintivas, portanto, de termos individualizados e mutuamente exclusivos”, neste sentido, se pode afirmar que uma educação nesta perspectiva supõe que os símbolos se associam com interesses, fins e meios humanos. Isso confirma o  professor John B. Thompson, ao dizer que os símbolos são traços distintivos da vida humana, por isso, no contexto da antropologia, a reflexão sobre os símbolos pode ser descrita como “concepção simbólica” da cultura.
O símbolo como operador de estrutura nos faz dizer que o caruru de Cosme Damião tem sentido semelhante à ceia do Senhor de católicos e protestantes, já que todos estes rituais, em suas especificidades, possuem sentidos de diferentes culturas, mas são orientados pela lógica basilar presente na ideia de alimento e de sacrifício de seres vivos do reino animal e vegetal. Tanto na ceia como no caruru, animais e vegetais são sacrificados para uso sagrado, tais como trigo, uva, quiabo, dendê, frango, peixe etc.

Imagens e símbolos da ceia e do caruru   
O caruru e a ceia são constituídos por gestos simbólicos, palavras e cantos rituais, assegurando a comunicação entre os existentes (as pessoas) e o Ser que existiu e existe (seja nos relatos cristãos de Jesus Cristo e de Cosme e Damião ou nos relatos africanos dos erês, ibejis e wunjes). 
A imagem de Jesus Cristo é recordada e ritualizada por símbolos que fazem a mediação entre culturas cristãs e seus sentidos. A linguagem mítica que estrutura o rito da ceia, traduzida pelo desenho simbólico construído pela cultura ocidental branca cristã, é fundamental para analisar os símbolos que cada ritual contém. A cor do suco de uva ou do vinho lembra o sangue de Jesus Cristo. O pão e a hóstia, utilizados na ceia, simbolizam o corpo de Cristo, corpo este difundido pelas culturas europeias como branco. Na construção afro-brasileira, o ritual do caruru e seus símbolos mantêm um diálogo constante entre mito cristão e mito africano.  Diz Pierre Verger: “No Brasil, o culto aos gêmeos ibeji é sincretizado com o culto a São Cosme e Damião. As semanas que precedem o dia 27 de setembro, quando eles aniversariam, são marcadas, na Bahia, por festividades muito alegres, durante as quais o prato preferido dos ibeji, o caruru, é oferecido (...) às crianças pequenas reunidas para comemoração” (1999, p.571). Verger (idem), em consulta a vários pesquisadores da cultura africana, nos relatos sobre o nascimento dos gêmeos, verifica que o culto aos erês está presente nos saberes dos povos Daomeanos, nos Nagô e também nos saberes da cultura afro-brasileira.
Os gêmeos, por serem crianças, estão ligados a tudo que se inicia e brota. O culto no mês de setembro não é aleatório, é especialmente na primavera, tempo do renascer da vida, da germinação das plantas, do acasalamento dos animais; isto ocorre no Hemisfério Sul, onde estão situados o continente africano e o Brasil. São estes os fenômenos da vida vegetal e animal que possibilitam a alimentação humana.     
O pesquisador Vilson Caetano de Sousa Junior, no livro O banquete sagrado, constrói argumentações com o referencial teórico da antropologia da alimentação sobre o sentido da comida para além das satisfações físicas.  Em um dos capítulos intitulado “Quem me dá o que comer também come...”, ele diz que o caruru de Cosme Damião é veículo de comunicação, força, integração e manutenção da vida como um todo.  Diz ainda que para os africanos e afro-brasileiros, “comida é entendida como força vital, dom, energia, presente nos grãos, raízes, folhas e frutos que brotaram da terra.”, é a força vital que se estende a todos os reinos: mineral, vegetal e animal.
O caruru, assim como a ceia cristã, é alimento espiritual, pois reforça no fiel o elo de comunicação com o sagrado. Nos dois processos podemos entender que o alimento espiritual é a força vital chamada em língua africana de axé. A ceia cristã reatualiza e afirma o relato do sacrifício de Jesus para salvar a humanidade. O caruru também reatualiza os relatos africanos dos erês, wunjes e ibejis, sendo que o sacrifício só pode ser entendido se pensarmos que ele equivale à retribuição e à comunicação entre natureza e cultura.
As comidas feitas para a festa dos gêmeos são omolocum, acaçá, acarajé, amalá, abará, ebô, vatapá, caruru e outras. Nós aprendemos culturalmente a fazê-las, são em si mesmas parte da natureza, logo, cada uma delas nos coloca frente aos constitutivos de sua essência presentes na sua forma, cor, textura, reino (mineral, vegetal e animal). Nesse sentido, não é possível festejar Cosme e Damião, erês, wunjes e ibejis sem utilizar brinquedos, doces e cantigas apropriadas.

Considerações importantes para o trabalho docente com a Lei 10.639/03
Podemos, portanto, afirmar que todos os conhecimentos, afro-brasileiros ou não, são permeados por simbolismos culturais presentes nas formas geométricas, nas cores, nos gestos, no dizer e no silenciar, no olhar e no escutar, portanto na palavra verbal e não verbal. A palavra é constantemente enunciada pelo mito e, a partir deste, formula imagens simbólicas com as quais os seres humanos vão organizar seus rituais. Pode-se afirmar que as palavras enunciam e são enunciadas por imagens, se todo mito traz consigo o ritual, a palavra é sempre ritualmente atribuída, pois está sempre em consonância com a imagem que evoca.
É tomando estes dados de observação, que lanço meu olhar para entender os símbolos de rituais da ceia e do caruru, buscando pensar como se estruturam no processo ensino-aprendizagem nos diversos espaços, quando nos seus polos, sensorial e ideológico – classificação feita por Victor Turner – carregam diferenciações. O sensorial (desejos e sentimentos) e o ideológico (normas e valores que guiam e controlam as pessoas), são polos importantes para serem pensados, uma vez que se colocam a partir dos princípios diferenciadores enunciados pela diversidade cultural.
As pesquisas sobre o legado africano no Brasil, especialmente aquelas propostas nos currículos escolares, poderão fornecer subsídios para formular propósitos que deem conta de se pensar quais são as aprendizagens sobre imagens e símbolos do legado africano no interior das escolas. As pesquisas que adotam o símbolo têm como objetivo servir para os(as) professores(as) desenvolverem ações na escola a partir de uma proposta didática em que o mediador entre cultura e sentido seja o símbolo.
Portanto, qualquer pesquisador(a) ou docente que se disponha a desenvolver um trabalho com as culturas africanas deve, independentemente de sua área de conhecimento, ter como objetivo precípuo entender a relação do africano com a palavra. As palavras em si mesmas apresentam-se enraizadas nos mitos, evocando imagens e rituais.

Referências

MORIN, Edgar. O Enigma do homem para uma nova antropologia. Tradução de Fernando de Castro Ferro. 2a edição.  Rio de Janeiro: Zahar editores, 1975.
SANTANA, Marise de. O legado africano e o trabalho docente: Desafricanizando para cristianizar. São Paulo, 2004. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).
SODRÉ, Muniz.  A verdade seduzida: Por um conceito de cultura no Brasil. 3aed. Rio de Janeiro: DP & A Editora, 2005, p. 33.
SOUSA JUNIOR, Vilson Caetano de. O banquete sagrado: Notas sobre os “de comer” em terreiros de candomblé. Salvador/BA. Atalho, 2009, p. 84.
THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna. Teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, Rio de Janeiro. Editora Vozes, 1995.
TURNER, Victor. A floresta dos símbolos: Aspectos do ritual ndembu. Trad. Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto, Niterói (RJ); EdUFF,  2005.
VERGER, Pierre. Notas sobre o culto aos orixás e voduns na Bahia de Todos os Santos, no Brasil, e na antiga Costa dos Escravos, na África. Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999, p. 571.


Fonte: Edição Fev/Abr 2013 - Nº69
Postado por: Diálogo




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