Alturas profanadas

Data de publicação: 25/07/2017


O povo sherpa do Nepal habita a Cordilheira do Himalaia em altitudes de 5 mil metros e contempla com reverência os misteriosos contrastes dos picos nevados, envoltos ora em trevas ora em luz; ora visíveis, ora encobertos pelas nuvens.

Mito de origem
No começo dos tempos, as montanhas voavam em todas as direções. O povo do Nepal sofria pela aridez do território e suplicava por água a Indra, deus da chuva. A compassiva divindade ouviu os clamores dos camponeses e transformou as asas das montanhas em nuvens, fixando-as na terra. Foi assim que apareceu a cordilheira cheia de regatos límpidos vindos diretamente do céu. Esse é o mito nepalês da origem do Himalaia, a cordilheira mais alta da terra, cujas montanhas, com mais de 8 mil metros acima do nível do mar, parecem tocar as estrelas.
O mais alto pico do Himalaia é chamado em nepalês Sagarmatha, “o que toca os céus”, e alcança o cume da atmosfera, onde as fortes correntes de vento espalham a neve, coroando-o com um halo de luz, quando as partículas geladas refletem o sol. Essa visão sobrenatural o assinalou como deusa da cordilheira. Tal é a reverência à grande montanha, que os sherpas herdaram dos antepassados a crença no Yeti, um ser gigantesco, misto de humano e animal, que a protege, vigiando em silêncio o avanço dos montanhistas.
Tal mito originou a lenda moderna do abominável homem das neves, que os alpinistas do Ocidente ficam conhecendo no Himalaia. Esse temor dos nepaleses ante o sagrado das montanhas é compartilhado pelo vizinho Tibete, onde, só em 1921, foi dada a permissão, pelo 13º Dalai Lama Thubten Gyatso, para que estrangeiros pusessem os pés nas neves sagradas. Os próprios sherpas, hoje em dia, possuem restaurantes e pousadas e servem de carregadores e guias para os montanhistas, porém só depois de cumprirem cuidadosos rituais e oferendas, se aventuram pelos desfiladeiros nevados e pontes suspensas sobre os abismos.

Everest
      Em 1841 o topógrafo e matemático inglês George Everest calculou a altitude da montanha Sagarmatha em 8.848 metros, a mais alta do planeta, confirmando assim a intuição milenar do povo do Nepal, que sempre a identificou como a cumeeira do mundo. Por esse feito, os ocidentais conheceram a montanha apenas pelo nome do topógrafo, ficando a identidade sobrenatural reservada só para aqueles que sempre viveram aos pés da deusa que alcança as estrelas. Entre os anos 1921 e 1953, montanhistas de vários países tentaram conquistar o topo do Everest. Inúmeras expedições frustradas com mortes e desaparecimentos confirmaram a crença dos nativos nas forças sobrenaturais que protegiam a mãe das montanhas do domínio humano e, particularmente, de estrangeiros. O primeiro a superar o tabu foi o guia sherpa Norgay Tenzing, que acompanhou o neozelandês Edmund Percival Hillary até o topo, em 1953.
      O Himalaia formou-se há milhões de anos, com o choque de duas partes da crosta terrestre. O movimento é constante entre essas placas tectônicas, que se deslocam cerca de 5 centímetros por ano, causando tremores de terra e elevando as montanhas. Uma recente acomodação ocasionou, nos meses de abril e maio deste ano, dois terremotos de magnitudes 7.8 e 7.3 na escala Richter, respectivamente, que destruíram grande parte dos prédios históricos e das residências das famílias do Nepal e mataram mais de 8 mil pessoas, algumas delas soterradas por avalanches.


Sacrilégio ambiental
      A calamidade artificial do aquecimento do planeta vem profanando o santuário das estrelas com o derretimento das neves eternas, que diminuíram em mais de 20% nos últimos 30 anos. O montanhismo já está comprometido em algumas partes do trajeto, e a redução da camada de neve tem deixado a descoberto, nos locais mais inesperados, restos de pessoas mortas e congeladas há décadas. 
      A ação predatória humana sobre o Himalaia passou a ser direta com a visita dos montanhistas e de outros praticantes de esportes extremos, aventureiros e amadores, que acabaram por ferir a cordilheira sagrada com tragédias materialistas. Por primeiro houve o abate das árvores nativas para aquecimento, quando o extrativismo sustentável dos sherpas deu lugar à acolhida de turistas. Com isso, o desequilíbrio não se fez esperar, no aumento da erosão e das avalanches fatais. Depois, foi a poluição dos acampamentos de base dos alpinistas, com o abandono de cordas, embalagens de oxigênio, de água e de alimentos, objetos de iluminação e de cozinha de acampamento, como ainda outros materiais descartáveis que pontilham a neve.

Reparação
      Ao assistir à humilhante degradação das montanhas, o pioneiro na conquista do Everest, Edmund Percival Hillary, pediu ajuda ao governo da Nova Zelândia e ofereceu uma parceria às autoridades do Nepal para a fundação do Parque Nacional de Sagarmatha, uma área de preservação de 720 quilômetros ao longo do Himalaia. Desde 1976, a área é protegida por leis ambientais pouco respeitadas, o que levou o Ministério do Turismo do Nepal a impor uma recente norma drástica aos visitantes. Cada pessoa, ao passar pelo posto avançado que dá acesso ao último acampamento base da escalada, deve fazer um depósito equivalente a 4 mil dólares. O valor será restituído na descida, mediante a entrega de todo o lixo que porventura produziu e de mais 8 quilos recolhidos entre os detritos encontrados nas montanhas. 
     O governo do Nepal tomou essa medida em vista da preservação, movido pela consciência do povo nepalês, que acolhe e respeita as mais variadas formas de crer e tem o privilégio de estar circundado pelas mais imponentes testemunhas silenciosas da sacralidade do ecossistema planetário. 

Fonte: Dia-Edição 79 - Ago/Set 2015
Postado por: Diálogo




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