Mãos ao alto, EXCELÊNCIA!

Data de publicação: 13/09/2017

Mãos ao alto, excelência!

As leis são como teias de aranha: boas para capturar mosquitos, mas os insetos maiores rompem a trama e escapam. Quem definiu a impunidade com essas palavras, tão claras e simples, acredite, não foi um militante atual da ética na política, mas o jurista grego Sólon. Este, há mais de 2.500 anos, já ficava constrangido com as anomalias presentes na sociedade modelar da democracia.
De Sólon aos dias atuais, a corrupção minou o desenvolvimento e o bem-estar social das nações, em todos os tempos, com a prática do desvio de recursos públicos para cofres privados. Se assim não fosse, seria sem sentido a iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) de promover a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, com a assinatura de 101 países, em 9 de dezembro de 2003.
No Brasil, o Dia Internacional contra a Corrupção, 9 de dezembro, integra o calendário oficial, e as comemorações são coordenadas pela Controladoria-Geral da União (CGU), um órgão da Presidência da República. Muito antes, porém, desse tema representar uma pedra no sapato para os governos das nações, já a sabedoria das Tradições Religiosas apontava as práticas de roubo, opressão, injustiça e corrupção como um dos maiores males do mundo.

Bons conselhos
Um texto sumério dos primórdios da Idade Antiga, tecendo o elogio das virtudes de Enlil, deus do ar, diz: “O ímpio, o mau, o opressor, o denunciante, o arrogante, o violador dos pactos, ele não tolera os seus malefícios na cidade, como uma grande rede, ele não deixa os opressores e malfeitores escaparem às suas malhas” (Hino em Honra de Enlil, Publicado em Religiões História Textos Tradições, Miguel Ponces de Carvalho, responsável. Lisboa: Paulinas Editora, 2006. p.786).
A literatura judaica, escrita cerca de 2.300 anos atrás, segue a mesma lógica dos sábios sumérios e do grego Sólon: “Quando o direito e a justiça reinarem em Judá, ninguém mais vai chamar de nobre o corrupto nem o ladrão de excelência” (Isaías 32,5).
Mais ou menos contemporâneo da literatura judaica, o budismo dá semelhante peso à gravidade da corrupção, quando diz, nos Dez Preceitos Maiores do Bodhisattva: “Um discípulo de Buda não deve roubar, encorajar outros a roubar, roubar por expedientes, roubar mediante encantamentos ou mantras desviantes. (...) Enquanto discípulo de Buda, deve desenvolver uma mente misericordiosa, compassiva e filial – ajudando sempre as pessoas a obterem méritos e virtudes e a alcançarem felicidade” (Sutra do Lótus. Publicado em ReligiõesHistória Textos Tradições, p. 431).
Por desgraça coletiva, no momento, um dos termos mais usados no Brasil é “corrupção”. É justo, portanto, tirar as diferenças sobre o assunto, consultando entes incorruptíveis como o Novo Aurélio, Dicionário da Língua Portuguesa e o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Resumindo os dois, o verbete corrupção tem as seguintes definições: “adulterado, alterado, devasso, depravado, podre, estragado, infectado”.
A língua portuguesa vai a fundo, ao âmago das pessoas, das situações e dos fatos, tanto como a língua árabe do Alcorão Sagrado, quando condena atos corruptos:  “Não defraudeis o próximo e não causeis corrupção na terra, depois de ela haver sido pacificada” (7ª Surata, versículo 85); “Ai dos fraudadores, aqueles que, quando alguém lhes mede algo, exigem a medida plena. Porém, quando eles medem ou pesam para os demais, dão-lhes menos que o devido. Porventura, não consideram que serão ressuscitados, para o Dia terrível? Dia em que os seres comparecerão perante o Senhor do Universo? Sabei que o registro dos corruptos estará preservado em Sijjin, prisão” (83ª. Surata, versículos 1-7).
    Mais de mil anos se passaram desde quando o Alcorão Sagrado foi escrito. As práticas corruptas, no entanto, ainda não mudaram. Tanto isso é verdade que os líderes da  Fé Bahá’í, uma das mais recentes Tradições Religiosas mundiais, fundada no século 19, continuaram a fazer o mesmo diagnóstico do mal na sociedade: “Mas a principal causa destas dificuldades está nas leis da atual civilização; estas permitem que um pequeno número de indivíduos acumulem fortunas incomparáveis, para lá de suas necessidades, enquanto que a maioria permanece destituída, despojada e na maior miséria” (Abdu’l-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas, capítulo 78. Publicado em  Religiões História Textos Tradições, p. 617).

O bem ao alcance da mão
“Uma coisa da qual se diz: ‘Eis aqui algo de novo’, ela já nos precedeu nos séculos que houve antes de nós” – diz o livro bíblico do Eclesiastes (1,10). Constatação verdadeira e, ao mesmo tempo, instigante para todos os que, com os pés na teia de Sólon e na rede de Enlil, tomam impulso para voar na direção da terra pacificada do Alcorão e da felicidade do discípulo de Buda.  
O desafio é parafrasear na prática aquela máxima de Isaías: “Quando a transparência, a justiça e a verdade reinarem na terra ninguém mais vai chamar de nobre o corrupto nem o ladrão de excelência”.   

Fonte: Dia-Edição 80 - Out/Dez 2015
Postado por: Diálogo




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