Memória ancestral das Comunidades Negras Rurais

Data de publicação: 14/09/2017

Cristiane Bartz de Ávila *

    
O Pampa Gaúcho, no extremo sul do País, constitui o cenário da breve e trágica vida do Negrinho do Pastoreio, personagem de uma das mais divulgadas lendas do folclore brasileiro. A narrativa oral, em linguagem campeira, foi popularizada pelo folclorista pelotense João Simões Lopes Neto (1865-1916), na obra clássica Lendas do Sul, em 1913. Desde então, o Negrinho personifica a extrema barbárie sofrida pelos negros escravizados nas chamadas charqueadas, onde os senhores da região mandavam abater rebanhos imensos de gado nativo e produzir a carne-seca, uma atividade pouco ou nada conhecida na história da escravidão no Brasil.

A economia no extremo sul
     Em Pelotas (RS), a principal atividade econômica, no século 19, veio das charqueadas, que eram mais de 20, segundo as anotações do botânico e naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), em sua viagem pela então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, nos anos de 1820 e 1821. Conforme o diário de Saint-Hilaire, pelos arroios Pelotas e Santa Bárbara o charque chegava ao Canal São Gonçalo e, por ele, até a Laguna dos Patos, seguindo para o porto marítimo da cidade de Rio Grande (RS), onde era embarcado para o Rio de Janeiro, Bahia e outras províncias, indo até para Cuba, como alimento dos escravos. No caminho inverso, vinham os mais variados utensílios importados da Europa, inclusive livros.
     A cultura erudita distinguia os produtores de charque dos outros rio-grandenses, em maneiras, hábitos e ideias, mas, contraditoriamente, tal prosperidade vinha do trabalho penoso dos negros escravizados, que levavam uma vida extremamente difícil. O abate de grande quantidade de animais e a preparação da carne exigiam a permanência de 12 horas diárias de trabalho pesado e insalubre, com o corpo encharcado de água salgada. E, como se não bastasse, os restos dos animais, atirados aos montes nas margens do arroio Pelotas, exalavam terrível maucheiro e contaminavam a água, deixando-a imprópria para o consumo e para o banho. Essa empreitada ocupava os meses de novembro a abril, no auge do calor. Os outros meses do ano eram dedicados ao trabalho rural, quando os escravos plantavam e criavam animais para abastecer a cidade, e fabricavam tijolos e telhas.
     A produção das olarias ainda é visível no casario do Centro Histórico de Pelotas, que tem prédios tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Por conta dessas atividades, acumulou-se o capital necessário para a organização do lugar, descrito por Saint-Hilaire como aprazível: “É sede da paróquia e conta para mais de 100 casas (...). As ruas são largas e retas. A praça em que fica a igreja é pequena, porém muito bonita. A frente da maioria das casas é asseada. Não se vê em São Francisco de Paula uma palhoça sequer e tudo aqui anuncia abastança”. O autor se refere à então freguesia, fundada em 1812 e sede das charqueadas, elevada à condição de vila em 1832 e de cidade em 1835, quando foi chamada Pelotas, nome que, desde o século 18, já identificava o arroio, transitado por pequenos botes feitos de corticeira e forrados de couro.
     Podemos delimitar duas regiões econômicas de influência direta na paisagem e na composição social do município de Pelotas. Na zona urbana ficava a atividade charqueadora, com seu forte aparelho repressivo. Existiu na Praça da Regeneração, atual Coronel Pedro Osório, um Pelourinho, mais tarde substituído por um chafariz vindo da França. A forca, destinada às sentenças de morte impostas aos negros, era montada onde agora existe a Avenida Bento Gonçalves. Na zona rural, a Serra dos Tapes, rica em nascentes e em mata nativa, tinha o melhor solo agrícola da região, e sediava chácaras de propriedade dos habitantes da vila e senhores das charqueadas, como descreve Saint-Hilaire: “Os víveres consumidos na região vêm em grande parte da Serra dos Tapes, situada a 4 léguas de São Francisco, onde o solo é fértil, produzindo fartamente o milho, o feijão e mormente o trigo”.

O Quilombo da Serra dos Tapes
     A atividade dos escravizados na zona rural deu chance a um movimento de resistência que resultou na formação de quilombos na Serra dos Tapes, sendo que ainda existem, no 7º Distrito do município, um local e um arroio denominados Quilombo. As ações quilombolas intensificaram-se a partir de 1835, quando o aparelho repressor se desorganizou, por ocasião da Revolução Farroupilha, para rapidamente se reorganizar, na captura dos aquilombados. Abrimos um parêntese para explicar a importância da revolução, que começou em 1835, confrontando a elite gaúcha, formada por estancieiros e charqueadores, com a política do Império. Inicialmente os revoltosos pediam maior incentivo econômico à produção de charque; depois, o movimento tomou o rumo separatista e fundou a República Rio-Grandense, sediada na cidade de Piratini, logo desfeita com a intervenção do exército imperial e o fim da revolução, em 1845.
     Segundo o processo-crime contra o quilombola Mariano, guardado no Arquivo Público do Estado, em Porto Alegre, o líder do Quilombo da Serra dos Tapes chamava-se Manuel Padeiro (suas atividades estão resumidamente descritas no 3º capítulo da dissertação de mestrado da autora deste artigo, veja: Referências); existia um grupo de homens armados que circulava com grande mobilidade pelas matas e tinha a missão de resistir à captura e proteger as mulheres, crianças e idosos do quilombo.
     Segundo pesquisas, Manuel Padeiro articulava a resistência com os assenzalados, o que lhe garantia acesso às notícias e permitia traçar estratégias. Temos o relato, no processo-crime de Mariano, de que cinco escravos de Boaventura Rodrigues Barcellos, rico charqueador da região e “dono” de Manuel Padeiro, foram se encontrarcom o companheiro quilombola e estiveram toda a noite conversando, dançando e cantando; ao amanhecer, voltaram para as suas tarefas. O fato faz questionar: por que não fugiam para o quilombo? Temiam represálias? Achavam mais cômodo ficar onde estavam? Ou fazia parte da estratégia serem o elo para manter os quilombolas informados das decisões da Câmara de Vereadores, que, em sua maioria, era formada pelos charqueadores e tinha o maior interesse na repressão das atividades dos escravos? Também podemos perguntar se essa rede de relações não teria o intuito de articular a revolta, da qual teremos notícias em 1848, quando as autoridades mencionam em correspondências, um possível plano dos “nucas raspadas”; este era o sinal de reconhecimento entre os negros que lutavam pela liberdade.
     Entretanto, nessas redes é evidente a grande fragilidade, pois por qualquer fator elas podiam ser quebradas: prova disso é que Mariano foi traído por um assenzalado da propriedade de Bernardino Rodrigues Barcellos. Uma carta escrita pelo juiz de paz do 3º Distrito de Pelotas, Ignácio Rodrigues Barcellos, conservada na Biblioteca Municipal, refere-se à destruição do quilombo com palavras que remetem a uma verdadeira caçada, com gratificação para quem capturasse os quilombolas.
     Segundo os depoentes, os quilombolas pensavam em avançar mais, em direção ao núcleo saladeiril e atacar as senzalas das charqueadas, levando os negros até a vila e propagando uma revolta. O intento, porém, não se realizou, porque o quilombo de Manuel Padeiro foi atacado e muitos foram mortos ou presos. Algumas fontes históricas afirmam que, nesse massacre, o líder foi morto e outras dizem que ele conseguiu fugir. Importante é saber que este não foi o único movimento libertário nem a única reação repressiva a escravos no extremo sul do país. Segundo Maestri (1984, p. 136), “Nos anos posteriores à pacificação, teremos notícias de diversas expedições contra quilombos, possivelmente formados durante o decênio revolucionário”. O autor faz referência à tentativa de revolta dos escravos “Minas” em Pelotas no ano de 1848.

Negritude pampiana
     O certo é que, depois da repressão massiva, chamada pelos senhores das charqueadas de pacificação, e dos confrontos com os colonizadores instalados na Serra dos Tapes pelas autoridades ou empreendedores particulares, temos a formação de comunidades negras rurais na zona colonial de Pelotas e nos municípios vizinhos de Morro Redondo, Canguçu e São Lourenço do Sul. Todas elas, provavelmente, originadas da fuga de escravos das charqueadas no século 19.
     Embora os dados atuais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrem que Pelotas é a cidade do interior gaúcho com maior contingente de população negra (15%), atualmente existem no município apenas três comunidades negras rurais reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares. Entretanto, o número deveria ser maior, se não fosse pelo silenciamento desses grupos, que, por diversos fatores, não se autoafirmam como quilombolas, sendo o principal deles, o fato de terem suas memórias ligadas ao passado escravista.
* Cristiane Bartz de Ávila
É licenciada em História e professora na rede pública municipal; mestra em Memória Social e Patrimônio Cultural pelo Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Pelotas (ICH/UFPel) e doutoranda em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas (FAE/UFPel).

Referências
ÁVILA, Cristiane Bartz. Entre Esquecimentos e Silêncios: Manuel Padeiro e a Memória da Escravidão no Distrito de Quilombo, Pelotas, RS. Dissertação de Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural. Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Pelotas. 2014. Disponível em www2.ufpel.edu.br/ich/ppgmp/v03-01/wp-content/uploads/2015/04/Cristiane-Bartz.pdf
MAESTRI FILHO, Mário José. O Escravo no Rio Grande do Sul: A Charqueada e a Gênese do Escravismo Gaúcho. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindisi; Caxias do Sul: Universidade de Caxias, 1984, p.136.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul 1820-1821. Traduzido por Leonam de Azeredo Penna. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo (USP), 1974, p.69.

Fontes primárias
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL (APERGS), Município de Pelotas, Cartório do Júri Nº 81, Maço S, 3ª; 141, E7; E, 141c, Cx:006.0300.
CÂMARA MUNICIPAL DE PELOTAS. Cartas Expedidas. Arquivo Histórico DPM-003, emitida por Anjos em 03/10/1848.
BIBLIOTECA MUNICIPAL DE PELOTAS.  Fundos da Escravidão. Cópias das cartas sobre fugas e sentença de morte a escravos transgressores datadas de 1834 e 1835, sobre a destruição do Quilombo da Serra dos Tapes. Biblioteca Municipal de Pelotas.


Fonte: Dia-Edição 82 - Abr/Jun 2016
Postado por: Diálogo




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