As reformas são inertes às religiões

Data de publicação: 20/09/2017

João Décio Passos *

Max Weber (1864-1920) elaborou uma tipologia para explicar as dinâmicas de poder que são úteis para entender os processos de reforma religiosa que acontecem na História. O sociólogo tipifica o poder como carismático, tradicional e racional, ou burocrático. O poder carismático é baseado no dom extraordinário que rompe com a rotina e com a tradição e se implanta como promessa de salvação e atrai adeptos em torno de um novo modo de vida.
O poder tradicional fundamenta-se no passado e se legitima na fidelidade da preservação e transmissão da autoridade que recebe do passado o seu fundamento, seja na ordem familiar, seja na ordem das sucessões dinásticas ou religiosas. O poder racional-burocrático é aquele que se organiza a partir de normas e regras objetivas; sua legitimidade vem da capacidade de ordenar as normas, de forma a fazer a máquina administrativa funcionar por si mesma, tendo como sujeitos os funcionários que exercem uma função definida.
Esses tipos de poder não são isolados, mas, ao contrário, acontecem na prática como um processo dentro da história dos grupos humanos. O carisma acaba assumindo a forma de tradição, e ambos terminam por se estruturarem em uma instituição burocraticamente organizada. O carisma racionaliza-se e torna-se um sistema organizado de regras e de funções. Mas a instituição pode também ser questionada pelo carisma e ser forçada a renovar-se na busca de uma maior fidelidade às suas próprias origens.

As religiões nascem de um carisma
As religiões nascem como carisma: como uma oferta de salvação feita por um líder em nome de um mandato sobrenatural. Sua proposta angaria adeptos que formam um grupo de convictos que se identificam como grupo coeso, como sujeitos beneficiados e como anunciadores do benefício de que são portadores. As grandes tradições religiosas nasceram desse modo e vivenciaram em seus primórdios essa fase de vigor carismático – o carisma in statu nascendi –, marcada pela unidade grupal, pela experiência de salvação atual e pela expansão do projeto.
A presença do líder (fundador ou reformador) garante, em princípio, a unidade e a vivência do carisma que tende a se expandir e a gerar novas comunidades; o líder funciona como autoridade mediadora do carisma, como líder que agrega e como voz que decide sobre os rumos do grupo. É fácil verificar essa fase nas religiões.
O cristianismo primitivo é o exemplo mais claro da fase de vida comum dos seguidores de Jesus Cristo, vivenciada em torno do carisma da salvação oferecida por ele. As ordens religiosas também nasceram em torno de um projeto de vida que agregava seguidores e oferecia um sentido imediato de vida para os mesmos. Os grupos cristãos oriundos da Reforma protestante sempre pretenderam viver no hoje o tempo das origens carismáticas do cristianismo. Eles nasciam e se expandiam como os portadores das verdades e da bondade original do cristianismo que as Igrejas instituídas haviam perdido.

O carisma cai na rotina
Com o passar do tempo e, sobretudo, com a morte do líder, essa fase cai na rotina – rotinização do carisma – e tende não somente a esfriar aquela efervescência primeira, mas muitas vezes a se desagregar, na medida em que desaparece a autoridade do líder e começa uma luta interna sobre os modos de interpretar o carisma e de garantir a sua continuidade com uma nova autoridade a ser legitimamente escolhida pelo grupo. Nesse momento, não parece haver saída: ou o carisma desaparece em meio à desagregação e à falta de um sentido unânime, ou vai sendo tradicionalizado e burocratizado.
 A tradicionalização cria os mecanismos que garantem a continuidade do projeto: definindo os meios de transmiti-lo às gerações seguintes, tais como, fixando o seu significado em textos, em normas e regras e estabelecendo as regras da sucessão do líder. No final desse processo, há a completa institucionalização, quando o carisma é estruturado em normas objetivas que estabelecem os estatutos de funcionamento do grupo, os papéis hierárquicos, as normas disciplinares e rituais etc. Nascem, desse modo, as tradições religiosas que se apresentam como as legítimas transmissoras do carisma no tempo e no espaço, assim como as instituições, que, da mesma forma, se apresentam como as detentoras legítimas do direito de administrar o carisma para os grupos de fiéis seguidores.
Portanto, aquilo que era espontâneo se torna organizado, o que era prático se torna teórico, o que era vivencial se torna formal, o que era de todos se torna hierarquizado e centralizado. Esse percurso inevitável de racionalização é mais ou menos regular na história das religiões e também na história política. O fato é que o carisma está condenado a dois movimentos permanentes: o primeiro, que vai do esfriamento ao enquadramento institucional, e o segundo, que vai da retomada e do renascimento do carisma na direção da renovação e do conflito com a instituição.

O carisma renasce como força renovadora
Desse modo, precisamente por se apresentarem como transmissoras e administradoras de um carisma original e fundador do grupo, as religiões carregam dentro de si o germe da autossuperação. O carisma é a semente que continua germinando dentro da tradição como provocação crítica das estruturas instituídas e da tradição fixada. Em nome das origens puras, emergem líderes reformadores que se insurgem contra tudo o que abafa ou oculta a força do carisma original.
Nesse sentido, a dinâmica das reformas são inerentes às religiões instituídas e às grandes tradições religiosas. As hierarquias e as estruturas institucionais se assentam sempre sobre uma espécie de vulcão adormecido que pode irromper como bandeira reformadora na voz de um líder que surge de dentro do próprio grupo.
Esses líderes se apresentam como intérpretes e defensores do carisma fundante do grupo e tendem a ser rechaçados por aqueles que ocupam funções nos postos hierárquicos na instituição, assim como pelos que se apresentam como intérpretes autorizados da tradição. E não faltam exemplos dessa dinâmica dentro da História. É em nome de um judaísmo esquecido pelas autoridades de seu tempo que Jesus se apresenta como líder e Messias: afirmação do Deus dos pobres e misericordioso, da vida fraterna, da superação dos legalismos, do perdão aos inimigos.
Também foi em nome de uma vivência cristã comunitária que os monges criaram as suas primeiras comunidades no deserto e que os fundadores de ordens e congregações lançaram suas propostas de vida. Lutero proclamou a necessidade de uma reforma radical da Igreja em nome do cristianismo mais identificado com suas fontes. Também, foi assim com as origens do chamado pentecostalismo: os seus fundadores reivindicavam uma volta às experiências da Igreja primitiva.
O Vaticano II pretendeu fazer um aggiornamento, voltando às fontes do cristianismo, às escrituras e aos padres da Igreja. Hoje o papa Francisco repete que a reforma inadiável da Igreja se faz a partir do “coração do Evangelho”, que a doutrina da Igreja é Jesus Cristo e que a norma moral deve ser discernida a partir da misericórdia oferecida por Deus em Jesus Cristo. As religiões tendem a renascer a partir de suas fontes e a buscar novas formas de pensar suas tradições e de se estruturar como instituição.
Ao longo da História é possível verificar essa refontalização acontecendo de tempos em tempos nas religiões, gerando renovação institucional ou, então, conflitos internos e separações. As leis da conservação e da renovação caminham juntas nas tradições e instituições, de modo particular naquelas religiosas que se baseiam em um fundamento primeiro de natureza transcendente.
Embora todas as tradições religiosas se afirmem como continuação intacta das origens e as instituições se apresentem como retrato fiel do que quiseram os seus “fundadores”, elas são construções históricas que, de fato, terminam controlando ou escondendo as suas próprias origens, sob o peso de suas estruturas e das burocracias de seus processos. Elas são, nesse sentido, portadoras de um paradoxo inevitável: transmissão-traição do carisma, reveladoras-ocultadoras do carisma. As instituições carregam sempre uma tensão entre suas origens carismáticas e suas estruturas organizativas.
Por decorrência, em seus interiores, habitarão sempre sujeitos defensores da tradição e da ordem e sujeitos defensores da renovação em nome do carisma. Ambos agem em nome da verdade e em nome da fidelidade às origens; uns defendem a conservação; outros, a renovação. E, nessa luta entre carisma e instituição, não haverá síntese final, mas, sim, a busca permanente da expressão histórica mais coerente para as ofertas do carisma fundacional.

* João Décio Passos Doutor em Ciências Sociais e livre-docente em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professor associado do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciência da Religião na mesma universidade. E membro do Conselho Editorial da revista Diálogo – Religião e Cultura.

Fonte: Edição Nº87 Jul/Set 2017
Postado por: Diálogo




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