Um desejo para mudar o mundo

Data de publicação: 20/09/2017

Luzia Sena *

A sociedade contemporânea vive momentos de tensão, conflitos, violências, que geram um sentimento de medo e insegurança nas pessoas. Fundamentalismos, intolerâncias, preconceitos têm provocado muito sofrimento não apenas no âmbito individual e das relações interpessoais, mas também envolvendo populações inteiras, em várias partes do mundo. Contudo, a força do bem é muito maior. Há milhares de instituições e pessoas empenhadas em construir uma sociedade melhor na qual possamos viver em harmonia e paz. Nomeá-las e trazer à tona suas propostas e ações é uma forma de entramos nessa corrente do bem ou nos mantermos conectados a ela, na esperança ativa e criativa de que um mundo melhor é possível. Nesse sentido, queremos resgatar as propostas concretas de um evento importante ocorrido em 2009, mas de atualidade perene, especialmente nos dias atuais tão necessitados de valores e princípios éticos, religiosos, humanos, que sustentem o nosso empenho cotidiano na construção de uma convivência mais justa, fraterna e solidária. Trata-se da Carta da Compaixão.

O seu contexto
O Tecnologia, Entretenimento e Design (TED) é uma organização privada, sem fins lucrativos, sediada nos Estados Unidos, conhecida por promover palestras sobre “ideias que valem a pena divulgar”. Anualmente, a organização reúne pessoas que, segundo seu parecer, fizeram alguma diferença no mundo, com o seu pensamento ou atividade.  No evento de quatro dias, essas pessoas são desafiadas a apresentar, em 18 minutos, “um desejo para mudar o mundo”. Três dentre elas são premiadas: recebem uma quantia em dinheiro e o convite a formular o seu desejo de um mundo melhor, que o TED fará o possível para ajudá-las a realizar e divulgar.
Em 2008, a escritora inglesa Karen Armstrong, especialista em temas de religião, especialmente sobre judaísmo, cristianismo e islamismo, recebeu esse prêmio. Referindo-se ao seu desejo ela diz: “Não tive dúvida sobre o que eu queria. Uma das principais tarefas de nossa época certamente deve ser a construção de uma comunidade global, na qual todos os povos possam conviver num clima de respeito mútuo. E, para isso, as religiões poderiam contribuir e muito, embora muitas vezes façam parte do problema”, conclui.
Tomando como base a Regra de Ouro das religiões: “Não trate os outros como você não gostaria de ser tratado”, ou em sua forma positiva: “Sempre trate os outros como você gostaria de ser tratado”, Armstrong formulou o seu desejo de um mundo melhor, considerando que o princípio da compaixão, presente nessa Regra de Ouro, é o cerne de todas as tradições religiosas, éticas e espirituais. Embora formuladas com pequenas diferenças e explicitadas de maneiras diferentes, todas as religiões, cada uma com sua própria versão, colocam essa máxima como base da sua espiritualidade e do seu agir e afirmam que não devemos restringir a benevolência ao nosso grupo, mas estendê-la a todos – inclusive aos inimigos.
Na cerimônia de premiação, Karen Armstrong pediu ao TED que a ajudasse a elaborar, lançar e divulgar uma Carta da Compaixão, redigida por eminentes lideranças e pensadores das grandes religiões, convocando todos os homens e mulheres a recolocar a compaixão no centro da vida religiosa e moral no seu dia a dia. “A Carta seria uma resposta às vozes do extremismo, da intolerância e do ódio. Numa época em que as religiões não se entendem, também mostraria que, apesar de nossas importantes diferenças, estamos de acordo quanto a isso, e que as pessoas religiosas podem superar as divergências e trabalhar junto pela justiça e pela paz”, conclui.

A elaboração da Carta
Milhares de pessoas das várias partes do mundo contribuíram para a elaboração da carta num site multilíngue, em hebraico, árabe, urdu, espanhol e inglês. Os conteúdos postados nele foram apresentados ao Conselho da Consciência, um grupo de pessoas notáveis de seis tradições religiosas (judaísmo, cristianismo, islamismo, hinduísmo, budismo e confucionismo), que se reuniram na Suíça, em fevereiro de 2009, para redigir o texto final:
“O princípio da compaixão está no âmago de todas as tradições religiosas, éticas e espirituais, conclamando-nos a sempre tratar os outros como gostaríamos de ser tratados.
A compaixão nos impele a trabalhar incansavelmente para aliviar o sofrimento de nosso próximo, a descer de nosso trono, no centro de nosso mundo, e ali colocar outra pessoa, e a honrar a inviolável santidade de todo ser humano, tratando todas as pessoas, sem exceção, com absoluta justiça, equidade e respeito.
Também é necessário, na vida pública e privada, abster-nos continuamente de causar dor. Agir ou falar com violência, por maldade, chauvinismo ou egoísmo; minar, explorar ou negar os direitos básicos de qualquer indivíduo; e incitar ao ódio, denegrindo os outros – ainda que sejam nossos inimigos –, constituem uma negação de nossa humanidade.
Reconhecemos que não conseguimos levar uma vida de compaixão e que alguns de nós até contribuíram para aumentar o sofrimento humano em nome da religião.
Portanto, conclamamos todos os homens e mulheres a:
•    reconduzir a compaixão ao centro da moralidade e da religião;
•    retomar o antigo princípio de que qualquer interpretação das escrituras que gere violência, ódio ou desprezo é ilegítima;
•    garantir que os jovens recebam informações corretas e respeitosas sobre outras tradições, religiões e culturas;
•    incentivar uma abordagem positiva da diversidade cultural e religiosa;
•    cultivar uma empatia com o sofrimento de todos os seres humanos - inclusive dos que são tidos como inimigos.
Precisamos, urgentemente, fazer da compaixão uma força clara, luminosa e dinâmica em nosso mundo polarizado. Baseada na reta determinação de transcender o egoísmo, a compaixão pode derrubar barreiras políticas, dogmáticas, ideológicas e religiosas.
Fruto de nossa profunda interdependência, a compaixão é essencial para as relações humanas e para uma humanidade plena. É o caminho da iluminação e é indispensável para a criação de uma economia justa e de uma pacífica comunidade global.”
Lançada em 12 de novembro de 2009, em 60 localidades espalhadas pelo mundo, a Carta foi bem recebida em sinagogas, mesquitas, templos, igrejas e também em instituições seculares, como o Clube da Imprensa de Karachi (Paquistão) e a Ópera de Sydney (Austrália). Mas, este foi apenas o começo, a iniciativa precisa ser levada à frente. Cabe a cada um de nós dar continuidade a ela, conectando-nos a essa corrente do bem.
* Luzia Sena
Irmã Paulina, com formação em Filosofia, Teologia e Ciências da Religião pela Pontífica Universidade Católica de São Paulo(PUC-SP). Membro da Iniciativa das Religiões Unidas (URI, sigla em inglês)

Mãos à obra
Tendo como base a Carta da Compaixão, refletir e compartilhar entre colegas e amigos:
•    Quais são as características de uma pessoa compassiva e pacificadora.
•    Identificar na sociedade atual, em âmbito mundial, nacional e local, essas pessoas compassivas e misericordiosas, o que elas dizem e fazem.
•    Na escola, fazer um painel com as fotos dessas pessoas e um breve relato de suas ideias e ações concretas visando a um mundo melhor para todos.

Fonte: Edição Nº83 Jul/Set 2016
Postado por: Diálogo




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

A ótica literária sobre a morte
A morte é um tema presente inelutavelmente na vida humana, e, como se costuma dizer, “é a única certeza que todos temos nesta vida”.
Danças Circulares Sagradas
Os ritos dançados sempre existiram e existem como expressão mítica que vem traduzir ao longo do tempo
Currículo interdisciplinar, novo paradigma
A diversidade e a diferença são manifestações dos fatos sociais, das culturas e das respostas individuais frente à educação escolar
Multiculturalismo e diversidade religiosa na escola
Com o fim das utopias e a descrença no futuro, o melhor é viver o dia possível sem pensar no amanhã
Mandala, uma fonte inesgotável
Mandala, um elemento rico em simbolismo que se inspirou na observação do sol, da lua e das estrelas
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados