Formação de docentes

Data de publicação: 25/09/2017

Lilian Blanck de Oliveira *
   
O debate sobre formação de professores em Ensino Religioso se constitui pauta permanente no âmbito educacional, de modo particular, no campo dos princípios e fins da educação. Nessa direção, o pensamento e obra do professor e doutor em Teologia Martinho Lutero contém valiosos impulsos, termo utilizado por Martin Dreher e Gottfried Brakemeier ao se reportarem às contribuições do pensamento de Lutero, incorporado pela autora deste artigo, em relação ao tema proposto, especificamente no que concerne à proposta de ética social, que se corporifica como a opção radical em favor da vida solidária, que leva o ser humano a assumir o Outro e toda a criação, segundo o pastor luterano Martin Dreher
O questionamento das contribuições e/ou eventuais impedimentos do pensamento de Lutero para uma reflexão sobre a formação docente para o Ensino Religioso no atual contexto educacional brasileiro certamente tem o poder de instigar todos aqueles que, ainda hoje, transcorridos mais de 500 anos, lutam contra uma educação de caráter utilitário e imediatista.
Resguardadas as devidas diferenças de contexto, que circunscrevem e limitam o pensamento teológico e educacional de Lutero, sua preocupação e ocupação com uma educação voltada para as reais necessidades de crianças, adolescentes e jovens e, consequentemente, uma formação docente qualitativa para esse devir contêm princípios com a capacidade de questionar, confrontar, desafiar, subsidiar e/ou fomentar todo e qualquer projeto de formação de docentes na atualidade, que se perceba inserido num projeto social radicalmente comprometido com uma vida de qualidade para/com todos.
Nesta direção, uma pesquisa participante desenvolvida com educadores e gestores no interior de uma pioneira Licenciatura em Ensino Religioso, período de 1999-2003 na Fundação Universidade Regional de Blumenau (Furb-SC), em discussão com os referenciais em Lutero e outros pensadores da atualidade identificou como pontos significativos, para uma formação de docentes voltada ao compromisso com a vida solidária numa perspectiva de planetaridade:
  • concepção integral de vida e ser humano;
  • percepção histórica de ser humano e processo educativo;
  • gratuidade nas relações e interações cotidianas;
  • sensibilidade e compromisso éticos;
  • participação da família e Estado na formação de docentes;
  • currículo de formação de docentes comprometido com a vida solidária;
  • pressupostos epistemológicos e encaminhamentos metodológico-didáticos para uma aprendizagem com sentido e significativa;
  • processo de formação de docentes conduzido para exercício do diálogo (OLIVEIRA, 2003).
A partir das discussões desenvolvidas, alguns princípios ganharam corpo e se apresentaram como imperativos na elaboração de um novo desenho para a formação de docentes de Ensino Religioso, enquanto fios que, desnudos de suas roupagens contextuais e históricas, no encontro de diferentes tempos ainda detêm o poder de fazer a diferença.

Inclusividade para/na alteridade
Uma sociedade historicamente marcada por processos e formas de exclusão necessita resgatar uma educação que desenvolva a sensibilidade para a admiração, o ouvir, o acolher, o compreender, o aceitar, o respeitar o Outro e a vida em sua totalidade. Exige ações e reflexões conduzidas por um permanente exercício de inclusividade para/na alteridade.
O princípio da inclusividade que organiza, interage e corporifica propostas e ações do exercício formador de docentes para o Ensino Religioso não pode se ater a simples acréscimos e/ou aberturas de espaços para o “diferente” em suas diversas dimensões e expressões de ser. Seu devir se constitui numa postura contextualizada, reflexiva, crítica e criativa, que direciona, conduz, permeia e “dá rosto” ao projeto e exercício formador e, de forma subsequente, aos educadores nele envolvidos – tecido e tessitura para e nas vivências de outras realidades educativas e sociais.

Liberdade como/com compromisso
A liberdade como compromisso se apresenta aqui enquanto possibilidade criadora para a autonomia do ser educador, que se constitui nos múltiplos relacionamentos e interações desenvolvidos no exercício formador. Para Lutero, na obra Da liberdade cristã, essa autonomia se forja num constante movimento entre o ser radicalmente livre de todos e o ser radicalmente servo de todos, a partir das boas-novas em Jesus Cristo.
A liberdade tem caracterizado a ética na modernidade. Para o teólogo Hans Küng, a “liberdade para uma nova responsabilidade em relação às pessoas, ao meio ambiente, à natureza e em relação ao absoluto”, (Projeto de ética mundial, p.136), como um compromisso com a vida que abomina a miséria e a exclusão num constante exercício de inclusividade, que gesta possibilidades de autonomia e vida para todos os envolvidos.
Um processo de formação de docentes para o Ensino Religioso na atualidade brasileira, que visa a contribuir na formação de profissionais com sensibilidade, discernimento e equilíbrio na mediação das relações com o fato religioso em suas diversas manifestações no cotidiano educativo, indubitavelmente requer ambientes e práticas pedagógico-didáticas conduzidas em/para/com liberdade e/em visceral compromisso com a vida.

Responsabilidade ética além da técnica
Toda ética é explicada ou iluminada por uma fé que leva os seres humanos a se responsabilizar e agir em favor de outrens e/ou de uma causa. Não é necessariamente uma fé no sentido tradicional. Seu entendimento aproxima-se mais da definição dada pelo teólogo James Fowler, ou seja, o modo em que uma pessoa ou um grupo penetram no campo de força da vida, àquilo que no dizer do teólogo Paul Tillich, os impulsiona para frente.
Formar para a responsabilidade ética além da técnica é o grande desafio e exigência para os processos de formação de docentes na atualidade. É compromisso que desaloja, desafia, move e dá “rosto” ao exercício formativo. Segundo o educador Paulo Freire, a formação para a responsabilidade ética além da técnica passa, entre outros pontos, pelo testemunho ético e a rigorosa preparação científica do educador. Para o autor, o ensino dos conteúdos é tão importante quanto o testemunho ético ao ensiná-los, pois a tecitura entre estes detém a capacidade de revelar a coerência entre o dizer, o escrever e o fazer – diferença e marcas deixadas pelo exercício formador.
Para o professor de filosofia George Forell, “enquanto que a importância histórica da ação de Lutero geralmente é reconhecida, tem-se esquecido muitas vezes que esta ação foi uma expressão do sentimento de responsabilidade social do jovem professor”, que orienta com propriedade a tarefa de ensinar. Responsabiliza de forma direta pais, pregadores, professores e governantes pelo desempenho qualitativo e condições favoráveis para a execução desta tarefa. Segundo Lutero, “para ensinar e educar bem as crianças precisa-se de gente especializada” (Aos conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs, p.308).
* Lilian Blanck de Oliveira
Pedagoga e doutora em Teologia, na área de Educação e Religião. Professora titular do Programa Pós-Graduação Desenvolvimento Regional, da Furb-SC e líder do Grupo de Pesquisa Ethos, Alteridade e Desenvolvimento (GPEAD). E-mail: lilianbo@uol.com.br.

Referências

BRAKEMEIER, Gottfried. O ser humano em busca de identidade – Contribuições para uma antropologia teológica. São Leopoldo: Sinodal, São Paulo: Paulus, 2002.
DREHER, Martin N. (org.). A crise e a renovação da Igreja no período da Reforma. v. 3. São Leopoldo: Sinodal, 1996. (Coleção História da Igreja).
KÜNG, Hans. Projeto de ética mundial – Uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana. Tradução Haroldo Reimer. São Paulo: Paulinas, 1992.
FORELL, George W. Fé ativa no amor. Tradução de Geraldo Korndörfer. Porto Alegre: Concórdia e São Leopoldo : Sinodal, 1985, pág. 7.
FOWLER, James W. Estágios da fé – A psicologia do desenvolvimento humano e a busca de sentido. Traduzido por Júlio Paulo Tavares Zabatiero. São Leopoldo: Sinodal, 1992.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia – Saberes necessários à prática educativa. 15ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
LUTERO, Martin. Da liberdade cristã. 3ª ed. São Leopoldo: Sinodal, 1979.
LUTERO, Martinho. Aos conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs. Tradução de Ilson Kayser. In: Obras selecionadas Ética: Fundamentos Oração Sexualidade Educação Economia. São Leopoldo/Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 1995. v. 5, p. 302-325.
OLIVEIRA, Lilian Blanck. Formação de docentes para o Ensino Religioso – Perspectivas e impulsos a partir da ética social de Martinho Lutero. São Leopoldo: Escola Superior de Teologia (EST), Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Teologia (IEPG), 2003.
TILLICH, Paul. Dinâmica da fé. 5ª ed. São Leopoldo: Sinodal, IEPG, 1996.

Fonte: Edição Nº87 Jul/Set 2017
Postado por: Diálogo




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Ecologia integral
O amor tem uma força integradora e a capacidade de nos mostrar um sentido para a realidade que nos faz mais sábios e felizes. Esse é o pressuposto da ecologia integral e o convite que o papa Francisco
Maravilhamento x corrupção
A pessoa que escolhe o caminho da corrupção para tirar vantagens próprias transita num âmbito diferente daquele do maravilhamento.
Propostas educativas de Lutero
“Quando a disciplina é aplicada com maior rigor e tem algum resultado, o máximo que se alcança é um comportamento forçado ou de respeito..."
Ensino Religioso incentivo à inclusão do aluno com deficiência
O professor do Ensino Religioso ao apresentar em sala de aula uma cronologia histórica da pessoa com deficiência e as barreiras com as quais se confrontaram, desde a luta pela vida...
Ecologia de saberes
“Nossas palavras se ajuntavam uma na outra era por amor e não por sintaxe”. Manoel de Barros
Início Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados