Sangue novo no velho continente

Data de publicação: 02/10/2017

Alfredo José Gonçalves *

O número de migrantes que desembarcou na Europa somente no ano de 2015 ultrapassa 1,2 milhão de pessoas, com presença marcante de mulheres e de menores desacompanhados.

Êxodo
A maior parte dos que entram na Europa emigraram do Iraque, da Síria e de outros países do Oriente Médio, que atravessam as fronteiras da Turquia, Grécia, Sérvia, Macedônia, Hungria e Áustria. Outros, vindos do norte da África, cruzam o Mediterrâneo até os portos da Ilha de Malta ou do sul da Itália, e, nessa travessia, mais de 3 mil pessoas perderam a vida, incluindo não poucas crianças. Tudo indica que o ritmo está se mantendo em 2016, enquanto alguns estudiosos garantem que deverá se prolongar por vários anos. O que ocorre na Europa se repete, em maior ou menor grau, em outras regiões, e a Organização das Nações Unidas (ONU) calcula em cerca de 40 a 50 milhões o contingente de emigrantes, migrantes e refugiados em trânsito no planeta.
Diante de semelhante êxodo que nas últimas décadas alimentou as conversas de rua, esteve presente na pauta dos governos e ocupou espaço na mídia, duas perguntas nos interpelam: uma a partir da origem, outra a partir do destino.

Origem da fuga
A partir da origem, perguntamos: por que os emigrantes deixam seus países? Via de regra, as causas têm dupla natureza. Por um lado, a violência armada em algumas regiões da Ásia, do Oriente Médio e da África, conflagrada por motivos políticos, econômicos, ideológicos ou religiosos, desloca milhões de refugiados, com destaque para a Síria, o Afeganistão, o Iraque e a Líbia, entre outros. O conceito de refugiado caracteriza-se pelo fato de a pessoa não poder voltar atrás, porque a perseguição, prisão e morte costumam ser o preço do retorno, o que provoca o desespero de alcançar o continente europeu a qualquer custo. Por outro lado, a miséria e a fome multiplicam o número dos “fugitivos”.
Tudo isso cria um cenário desolador que expulsa e joga na estrada e na incerteza do futuro uma quantidade crescente de jovens e de famílias inteiras. Trata-se, no fundo, de uma fuga que, quando bem-sucedida, pode se transformar em nova procura de um lugar ao sol. Não raro, porém, o sonho se converte no pesadelo da morte no mar ou do trabalho informal, pesado, perigoso, às vezes semiescravo, e sempre mal remunerado, dos migrantes que conseguem se estabelecer nos porões dos países europeus.
Entretanto, as duas motivações apontadas – guerra e pobreza – se entrelaçam de tal forma que é praticamente impossível distinguir refugiados de migrantes. Daí a insistência das Igrejas e de outras organizações da sociedade civil no sentido de acolher a todos indistintamente, uma vez que muitos governos tendem a selecionar os melhores qualificados, relegando os outros ao degredo ou ao retorno obrigatório. Uma verdadeira política ou legislação migratória, no território europeu atual, precisa levar em conta as duas situações, sem discriminar ou criminalizar os migrantes, para receber unicamente os refugiados.

Destino incerto
A partir do destino, o que representa a migração para a União Europeia? Verifica-se uma grande diversidade de opiniões e atitudes. Para os representantes dos governos, embora em formas diferenciadas, a “emergência migratória” constitui um problema a ser administrado com certa urgência.
Alguns países optam por erguer novos muros e cercas outros rechaçam qualquer tipo de acolhida. E outros, ainda, tentam levar adiante a política de cotas.  A grande mídia procura vender uma imagem sensacionalista e fazer de tudo um espetáculo. Cenas de mortos por afogamento ou de barcos apinhados de gente enchem as páginas dos jornais e a tela da televisão. Com isso, de forma implícita ou explícita, se espalha o pânico, como se os migrantes fossem um risco à ordem pública. Além disso contrapõem-se, nos países de destino, os grupos simpatizantes e os grupos hostis, gerando às vezes um falso debate sobre os estrangeiros que chegam. Tudo isso traz muita confusão entre os direitos dos refugiados, por um lado, e as necessidades básicas dos migrantes, por outro.
Os setores mais radicais e a Direita política tentam semear terror, através de uma sistemática criminalização dos migrantes. Nesses casos, o fato de emigrar do país de origem se torna pura e simplesmente, um delito que deve ser punido com a repatriação, uma ameaça que pesa sobre todos os indocumentados.

Sangue novo
A verdade é que, do ponto de vista administrativo, os migrantes, onde chegam, representam um problema e uma solução. A solução vem ao encontro da necessidade de mão de obra para determinados serviços. Nesse caso, abre-se a porta dos fundos, incentivando clandestinamente o trabalho subterrâneo. Mas quando chegam a crise e o desemprego, os migrantes passam a ser um problema, sendo necessário fechar-lhes as fronteiras. Nos dois casos, raramente é aberta a porta da frente, que é direito à cidadania. Numa palavra, os governos, de modo geral, requisitam e aceitam trabalhadores braçais ou técnicos especializados, mas seguem tendo muitas reservas quanto a aceitar novos cidadãos.
Da parte das populações europeias, o que se vê nas ruas e nos corações são dois sentimentos antagônicos, o medo e a vontade de fazer algo pelas pessoas que chegam. Guiados, em maior ou menor grau, pela mídia e pelas autoridades, os cidadãos alternam o desconforto e a solidariedade. Nesse caso, o migrante não é visto como problema, mas, em geral, como uma chance de intercâmbio e de encontro cultural. Abrem-se as possibilidades de uma mútua interpelação e de um crescimento recíproco.  O outro, o estranho e o diferente são como o sangue novo num organismo sempre mais decrépito ou como o oxigênio primaveril numa sociedade que, até agora, caminhava a passos rápidos para o outono.
* Alfredo José Gonçalves
É sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos. Foi diretor do Centro de Estudos Migratórios (CEM), de São Paulo (SP), e assessor da Pastoral Social na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Atualmente, em Roma, exerce o cargo de vigário geral da congregação.

Fonte: Edição Nº82 Abr/Jun 2016
Postado por: Diálogo




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