Maravilhamento x corrupção

Data de publicação: 02/10/2017

Ana Lydia Sawaya *

"Maravilhamento x corrupção: duas experiências que nunca estão juntas"


A cultura moderna foi reduzindo progressivamente o caminho para o bem fazendo-nos acreditar que este se dá por um esforço moral árido: “devo fazer o bem” ou “devo me esforçar para fazer o bem”, ou pior, “as crianças devem ser ensinadas a fazer o bem”. E isto é um erro, pois representa uma visão obtusa do ser humano e de quais são as coisas que o fazem se mover em direção ao bem.
Embasar o caminho para o bem num mero esforço moral vilipendia a dignidade humana, reduz o ser humano a um mecanismo que chega à beira do insuportável (e, de fato, as crianças se rebelam!). O ser humano não “funciona” assim. Um exemplo disso é o tão conhecido comportamento: “sou obrigado?” ou “isso é obrigatório?”, e vermos surgir, subitamente, a vontade de romper a regra! Quantas vezes não experimentamos, pela experiência de frustração da nossa liberdade ou da nossa inerente curiosidade, o atiçar da vontade de romper a regra?
Por isso, antes do dever de se comportar de uma determinada forma, é preciso que as razões para tal atitude estejam à flor da pele, sejam “sentidas”, gerem emoções positivas e não apenas sejam corretas do ponto de vista lógico. Os filósofos gregos diriam: sejam sensivelmente belas. “Nós que estávamos em busca do Bem, no fim encontramos o Belo”, diz Platão, em seu livro Filebo. O verdadeiro caminho para o bem passa pelo belo. Faço o bem só dentro de uma experiência de maravilhamento e a partir dela, e não por mero “dever”. “O belo não é, talvez, a estrada mais segura para atingir o bem?” Perguntava-se o poeta judeu francês Max Jacob.
A pessoa que escolhe o caminho da corrupção para tirar vantagens próprias transita num âmbito diferente daquele do maravilhamento. Ela sente que as regras lhe são coercitivas e que essa condição cerceia a sua “liberdade”. Sua visão de liberdade pode ser explicitada assim: “poder fazer tudo o que me é vantajoso e me dá prazer”, e a coerção que as regras lhe impõem impede isso. Tudo isso parece muito lógico e natural. Mas é uma cegueira, um confundir-se. O que falta na visão de mundo e de si do corrupto? Falta a experiência melhor da vida, onde residem a felicidade e a paz: falta-lhe, justamente, o maravilhamento. No lugar de maravilhar-se com as coisas que vive e encontra no mundo, há o cálculo, a desconfiança, o medo, a incerteza, e até a raiva do outro. Estes não são estados de ânimo de quem está sempre “tramando” para obter algo?

A corrupção: um jeito de ser e viver
Diz o papa Francisco em seu livro O Nome de Deus É Misericórdia: “A corrupção não é um ato, mas uma condição, um estado pessoal e social, no qual a pessoa se habitua a viver. O corrupto está tão fechado e satisfeito em alimentar sua autossuficiência que não se deixa questionar por nada nem por ninguém. Construiu uma autoestima que se baseia em atitudes fraudulentas: passa a vida buscando os atalhos do oportunismo, ao preço de sua própria dignidade e da dignidade dos outros”.
A experiência da felicidade, explica Sócrates, não nasce do prazer em si, mas, ao contrário, está intrinsecamente associada ao bem: “Para mim, quem é virtuoso, seja homem ou mulher, é feliz, ao passo que o injusto e o malvado é infeliz”. Podemos dizer então que quem faz o bem é feliz e quem faz o mal é, sempre, infeliz. Fazer o bem acompanha o se sentir feliz e vice-versa. Nunca poderá ser apenas um dever ou um esforço. Além disso, há para Sócrates, Platão e também Aristóteles uma diferença nítida e muito importante entre felicidade (eudaimonia) e prazer (hedonia), pois pouco prazer causa infelicidade, mas muito prazer também!
Aristóteles precisa que a felicidade nasce da liberdade interior, e esta é fruto do autodomínio, experiência de quem é livre e não escravo dos prazeres. Assim a experimenta a felicidade quem não depende dos prazeres exteriores, mas é rico interiormente. Para ele, a pessoa verdadeiramente livre é aquela que sabe dominar seus instintos, e o verdadeiro escravo é aquele que, não sabendo dominar seus instintos, torna-se vítima deles. Afirma ainda que a pessoa feliz é aquela que possui a “justa medida” das coisas: nem muito nem pouco prazer, ou seja, possui uma ordem ou harmonia interior que é a felicidade.
Mas como alcançar a felicidade? Já vimos que o corrupto não pode ser uma pessoa feliz. Ele pode experimentar o prazer de ter dinheiro, mas está sempre inquieto e nunca se sacia ou tem paz, e isso é infelicidade. Há um estudo muito interessante sobre a relação entre dinheiro e felicidade realizado pelo Prêmio Nobel de Economia Daniel. Kahneman recentemente. Essa pesquisa demonstrou que ter muito dinheiro ou um salário muito alto aumenta a experiência de infelicidade. O estudo relata que o bem-estar emotivo, ou seja, a qualidade da vida cotidiana das pessoas e a frequência e a intensidade de experiências de alegria, fascínio, assim como a diminuição das experiências de ansiedade, tristeza, raiva, atinge um platô acima do qual não há progresso. Esse valor não é muito alto, mas, ao contrário, representa um salário de classe média nos Estados Unidos.  Exatamente, como ensinavam os filósofos gregos 2.500 anos atrás: o melhor está no meio, no equilíbrio, e não nas extremidades: nem pouco dinheiro, mas também nem muito.

Educar para a Verdade, o Bem e a Beleza
Se nos perguntarmos como educar os jovens para o bem, o verdadeiro, o correto? Como educar os brasileiros a vencer a corrupção sistêmica que grassa em nossa sociedade? Precisamos apelar para o caminho da beleza, do maravilhamento. Dizia Agostinho de Hipona em seu tratado De Música (6,13,38): “Por acaso, podemos amar algo que não o belo?”. É impossível para o ser humano desejar procurar, amar o bem, se ele não se maravilhar.
Solzhenitsyn, o escritor russo que delatou os horrores dos campos de trabalhos forçados na União Soviética, afirma em seu discurso ao receber o Prêmio Nobel de Literatura que a “antiga tri-unidade da Verdade, do Bem e da Beleza não é simplesmente uma fórmula ultrapassada, como nos parecia nos tempos da nossa pretensiosa juventude materialista. Se, como diziam os sábios, os cimos dessas três árvores se unem, enquanto os germes da Verdade e do Bem, demais precoces e indefesos, são esmagados, arrancados e não atingem a maturação, talvez estranhos, imprevistos, inesperados serão os germes da Beleza a despontar e crescer no mesmo lugar, e serão eles que completarão o trabalho dos três”. Quando tudo desmorona, quando o ser humano perde a sua dignidade, o caminho mais seguro de retomada será sempre o caminho da beleza.
Fiodor Dostoievski, no livro Os Irmãos Karamazov, coloca na boca de seu personagem Dmitrij Karamazov a seguinte constatação: “A Beleza é uma coisa terrível. É uma luta entre Deus e Satanás, e o campo de batalha é o meu coração”. Sem a beleza, o ser humano cai no desespero, o coração desidrata e torna-se vazio, árido, e como essa experiência é contra a sua natureza, ele passa a correr atrás de prazeres que anestesiem essa condição insuportável. O passo seguinte é o descrédito de tudo, o sarcasmo e o cinismo. As atitudes traduzem-se sempre mais no pragmatismo e oportunismo, no ‘salve-se quem puder’, já que a vida é uma droga. Tudo se justifica, até chegar ao ‘todo mundo faz, por que não, também eu?”’.
A educação precisa então começar pela educação ao Belo. É preciso dar-se conta de que este é o trabalho verdadeiramente educativo, ao passo que reduzir a educação à mera transmissão de informações prejudica o verdadeiro processo formativo e educativo. Depois, é preciso que os pais e os educadores façam em primeiro lugar o exercício de procurar as coisas belas, para depois poder ensinar aos jovens. Não é difícil nem caro. O caminho é treinar-se para observar a beleza da natureza: um pôr do sol, a lua cheia, o mar, as montanhas, as flores, os animais que estão “ali”, muitas vezes bem pertinho de nós. E, depois, aproveitar momentos na sala de aula ou em casa para ouvir juntos uma bela poesia, uma música, um filme que conte histórias bonitas. E aqui é preciso “escutar” o nosso coração e prestar atenção para as coisas belas que nos unem e nos maravilham e dar espaço a elas, sobretudo quando se está triste.


* Ana Lydia Sawaya
Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP), mestrado em Fisiologia pela USP e em Nutrição pela University of Cambridge e doutorado em Nutrição pela University of Cambridge, Inglaterra. Atualmente é professora titular livre docente da Universidade Federal de São Paulo.

Fonte: Edição Nº85 Out/Dez 2016
Postado por: Diálogo




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