Mata Atlântica

Data de publicação: 02/10/2017

Malu Ribeiro *

Em sua encíclica Laudato Si, “Louvado Sejas”, o papa Francisco, no seu papel de grande líder da humanidade, traz o chamado para que nós revertamos nossas ações de degradação, resultados do atual padrão de desenvolvimento econômico, e tenhamos cuidado com o planeta, a nossa casa comum. Para isso, ele nos mostra como tudo está conectado e nos convida a refletir sobre nossa relação com a natureza e como nós, seres humanos, dependemos do meio ambiente para a nossa qualidade de vida.
No Brasil, o bioma Mata Atlântica evidencia de maneira mais clara essa relação. Muitas pessoas têm a falsa impressão de que a Mata Atlântica está restrita àquelas grandes áreas de florestas distantes das cidades. Na verdade, ela está muito mais perto do que a gente imagina. Somos 145 milhões de pessoas que habitam as 3.429 cidades do bioma, dentre elas algumas das maiores do País, como Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Salvador (BA) e Curitiba (PR).
Originalmente, a Mata Atlântica cobria mais de 131 milhões de hectares do território nacional. Para sabermos quais são os 17 estados inseridos no bioma, basta pensarmos naqueles que são banhados pelo Oceano Atlântico, do Rio Grande do Sul ao Ceará, e incluir Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás e Piauí, onde a Mata Atlântica avança continente adentro.
Hoje, restam 16 milhões de hectares (12,5%) do que um dia foi floresta. Os motivos para tamanha devastação recontam a própria história do Brasil. Desde o início da colonização, em 1500, passando por todos os ciclos econômicos, da cana-de-açúcar à industrialização e urbanização, a história do desenvolvimento do País é também a história da devastação da Mata Atlântica.
Do mesmo modo como nossa história se confunde com a da Mata Atlântica, nosso futuro também depende dela. Moramos na Mata Atlântica e dependemos dos serviços por ela prestados, como a regulação do clima, abastecimento de água, fornecimento de recursos para a economia, qualidade de vida e bem-estar, o que faz da conservação e recuperação do bioma um desafio coletivo.

Sem floresta não há água
A crise hídrica que assolou o Sudeste do Brasil em 2014 e 2015, região de domínio da Mata Atlântica, portanto rica em florestas, solos férteis e rios, pegou de surpresa os moradores da região, um verdadeiro choque-cultural para pessoas acostumadas com a falsa sensação de abundância de recursos naturais. Um alerta, sobretudo, de como as ações humanas têm interferido rapidamente nos impactos do clima, com duras consequências para todos nós.
Um estudo da Fundação SOS Mata Atlântica constatou que a cobertura florestal nativa na bacia hidrográfica e nos mananciais que compõem o Sistema Cantareira, centro da crise no abastecimento, era uma das principais causas da falta de água. Restam apenas 488 quilômetros quadrados (21,5%) de vegetação nativa na bacia hidrográfica e nos 2.270 quilômetros quadrados do conjunto de seis represas que formam o Cantareira.
O levantamento avaliou também os 5.082 quilômetros de rios que compõem o sistema. Desse total, apenas 23,5% (1.196 quilômetros) contam com vegetação nativa em área superior a um hectare em seu entorno. Outros 76,5% (3.886 quilômetros) estão sem matas ciliares, em áreas alteradas, ocupadas por pastagens, agricultura e silvicultura, chácaras de recreio, entre outros usos.
O desmatamento dessas áreas não é a única causa da seca, mas uma maior cobertura vegetal evitaria o esgotamento dos reservatórios, ou seja, os impactos seriam muito menores. As áreas verdes, sobretudo as matas ciliares, aquelas que ocorrem nas margens de rios e mananciais, protegem as nascentes e todo o fluxo hídrico.
Um dos primeiros efeitos do desmatamento é a redução da permeabilidade do solo. Se o uso for destinado à construção de edificações (portanto, à pavimentação da área) ou à pastagem de gado, que pisoteia o chão, esse efeito é intensificado. O solo sem a proteção da cobertura vegetal é endurecido, o que reduz a velocidade e a quantidade de infiltração da água, além de favorecer o escoamento da chuva e processos de erosão.
Por outro lado, quando retida pela floresta, a água da chuva se infiltra no solo de maneira lenta, alimentando o lençol freático e abastecendo as nascentes. O material orgânico presente na vegetação favorece as condições de infiltração e armazenamento da água. A mata em torno da nascente funciona ainda como uma barreira natural para a contenção de enxurradas e carreamento de sedimentos e de poluição. Com o lençol freático abastecido, garantem-se nascentes jorrando água mesmo em períodos de estiagem.
Outro ponto fundamental é que a floresta contém a erosão, que tem impacto direto na qualidade da água, na vazão dos rios e na capacidade de armazenamento dos reservatórios. A qualidade está relacionada à poluição, pois a chuva que cai sobre o solo sem proteção escorre diretamente para os rios e mananciais, levando consigo o que encontrar pelo caminho, como pedras e materiais orgânicos em geral. Se pensarmos em áreas de produção agrícola, incluem-se nessa soma grandes quantidades de agrotóxicos e insumos.
Por fim, há a contribuição das florestas ao próprio ciclo de chuvas. Ao extrair água do solo por meio das raízes, carregá-la até as folhas e evaporá-la para a atmosfera, as árvores têm a capacidade de manter a umidade do ar, aumentando assim as condições de chuva. Por isso, a Mata Atlântica é reconhecida como mantenedora do ciclo hidrológico, o que nossas autoridades parecem ignorar, dada a falta de investimentos na manutenção e recuperação dessa vegetação. Basta notar como nossa legislação ambiental vem sendo enfraquecida para regularizar usos do solo e atividades econômicas em áreas de preservação permanente, que deveriam ser destinadas à conservação das águas.

Saneamento já!
No Brasil, apenas 40% do esgoto gerado é tratado, e cerca de 35 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água tratada, segundo dados do Ministério das Cidades/SNIS (Secretaria Nacional de Informações sobre Saneamento) 2014 e Instituto Trata Brasil. Mais de 70% das doenças que levam a internações hospitalares no País são decorrentes de contato com a água contaminada, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS). Ou seja, temos aqui um exemplo de como o descaso com o meio ambiente traz impacto direto ao bem-estar humano.
Por isso, a Fundação SOS Mata Atlântica está mobilizando a população pelo direito ao saneamento básico universal e à água limpa em rios e praias brasileiros com a Campanha Saneamento Já!, que, além de eventos de coletas de assinaturas em diferentes cidades, conta com uma petição disponível para assinaturas em www.saneamentoja.org.br.
A campanha é uma soma de esforços entre a Organização Não Governamental (ONG), o Instituto Trata Brasil, a Campanha da Fraternidade – que em 2016 chamou a atenção para o direito ao saneamento básico – e mais de 40 outras organizações, escolas e grupos, que já aderiram à iniciativa e contribuem com a coleta de assinaturas.
A falta de saneamento não pode continuar a afetar a saúde das pessoas e causar prejuízos econômicos, sociais e ambientais. Soluções existem, e é fundamental que o saneamento seja assumido como prioridade na agenda governamental, executado com transparência e participação da sociedade.

Mata Atlântica e desenvolvimento
É preocupante o descuido com que os nossos governantes têm tratado a questão ambiental. Tivemos na última década um retrocesso enorme na legislação brasileira que trata do meio ambiente. Como a mudança do Código Florestal Brasileiro, que flexibilizou a proteção de entorno de nascentes a mananciais, por exemplo. E há no Congresso diversos projetos de lei que visam enfraquecer a legislação, como o que busca alterar o licenciamento ambiental ou dificultar a criação de Unidades de Conservação. Tudo motivado por um modelo errôneo de desenvolvimento, que ainda avança por nossas florestas e entende o meio ambiente como entrave.
O modelo de ocupação do território adotado até agora no Brasil nos trouxe ao limite, expôs a nossa fragilidade e a necessidade urgente de promovermos mudanças.  Precisamos reconhecer efetivamente o quanto dependemos dos remanescentes florestais da Mata Atlântica e assumir que essas áreas frágeis precisam ser protegidas para prover a população com os diversos serviços ambientais que prestam. Pois mudar para melhor a qualidade de vida é ir muito além da promoção do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). É necessário garantir a manutenção dos meios de suporte ao desenvolvimento que estão no ambiente natural compartilhado por todos.
Mas não basta apenas cobrarmos medidas de empresas ou dos nossos governantes. Precisamos também colocar a mão na massa e sermos agentes desses processos de mudança. Mudanças que devem começar já, pois o meio ambiente, a nossa casa comum, tem pressa.
* Malu Ribeiro
Coordenadora da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica, ONG brasileira que desenvolve projetos e campanhas em defesa das florestas, do mar e da qualidade de vida nas cidades. Saiba como apoiar as ações da fundação em www.sosma.org.br/apoie/

Fonte: Edição Nº85 Jan/Mar 2017
Postado por: Diálogo




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