Líder e liderança entre os povos indígenas

Data de publicação: 06/10/2017

Gilberto Vieira dos Santos *

   
   
Gilberto Vieira dos Santos com Renato Nambikwara e sua neta, no estado de Mato Grosso
     
Iniciamos este texto observando a complexidade que é o universo dos povos indígenas, o que não nos possibilita uma análise genérica, ou seja, cada povo tem uma dinâmica própria com suas diferenças em maior ou menor dimensão. Neste universo, que não está distante da nossa realidade, pois são pelo menos 305 povos indígenas vivendo e convivendo no Brasil, com mais de 270 línguas faladas. E não podemos deixar de citar que são mais de uma centena de grupos que vivem sem contato com nossa a sociedade, o que muitos chamamos de povos em isolamento voluntário.
A partir deste primeiro preâmbulo, gostaria de situar a experiência que queremos aqui relatar sobre o que significa uma liderança indígena e seu papel, segundo a nossa concepção em nossos contatos com esses povos nativos.
Iniciei meus primeiros contatos com os povos indígenas no ano de 2004, quando, saindo do interior de São Paulo, adentrei a vida e a dinâmica do povo Apyãwa, autodenominação do povo mais conhecido como Tapirapé, hoje com uma população aproximada de mil pessoas.
Esse povo, do tronco tupi, falante de sua língua materna e que embora um longo processo de violentos contatos tenha resguardado sua cultura e sua forma de organização social, habita duas terras indígenas no extremo nordeste de Mato Grosso, entre os municípios de Confresa, Porto Alegre do Norte e Santa Terezinha. Uma destas terras foi recuperada na década de 1990, pois os indígenas haviam sido retirados dela no fim da década de 1940, pelo então Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que, na verdade, ironicamente, retirou os indígenas de suas terras para cedê-las a grupos de latifundiários paulistas que instalaram fazendas naquela região.

   
Retratos cotidianos dos Aymara, às margens do Lago Titicaca, na Bolívia    
   
Qualidades e funções

É neste contexto que pontuamos o papel de lideranças que seguem sendo exemplos de postura, ética, e que marcaram a vida das comunidades e a nossa.
Uma das qualidades atribuídas às lideranças é a capacidade de compartilhar. Percebemos isso também entre os Aymara da Bolívia, que utilizam o termo qamiri para designar aquela pessoa que tem em abundância para repartir. Não numa perspectiva acumulativa, mas de possibilidade criada da partilha: para partilhar é preciso ter, mas não há sentido ter se não for para partilhar.
Esse sentido presenciamos entre os Tapirapé, que buscavam fazer roças maiores do que de fato necessitavam e, quando pescavam, sempre traziam para alguém da família extensa ou para nós, os “brancos”, ou em sua língua, os maíra. Nisso se destacam as lideranças, pois essa qualidade de partilhar é elogiada e influencia os demais.
Outro fato que se destaca entre os Tapirapé é a rotatividade daqueles que assumem o papel de líder em funções específicas. A direção das seis escolas que atendem crianças e jovens deste povo é trocada a cada dois anos. Ou seja, nada de beneficiar um filho de cacique, ou a esposa, ou um parente próximo. O único determinante é ser professor ou professora, que são muitos entre eles, graças a um longo processo de escolarização. De forma muito interessante, quem assumirá no próximo biênio acompanha por dois anos a direção atual, para não precisar “inventar a roda” posteriormente. Muito diferente de nossa sociedade, onde se vê a busca de privilégios e cargos quase vitalícios, em detrimento da coletividade. A liderança tapirapé sabe que não é eterna e precisa fazer bem sua parte, pois é isso o que o povo espera dela.

Assembleia diária do povo Xavante
Outro exemplo que gostaria de destacar ocorre entre os Xavante, povo muito diferente dos Tapirapé. Tendo por autodenominação A’uwê, porém conhecidos como Xavante, este povo é o mais numeroso de Mato Grosso, com uma população de mais de 17 mil pessoas.
Os A’uwê, ou Xavante, são do tronco macro-jê, também falantes de sua língua e mantenedores de sua cultura. Tive muitos contatos com aldeias e pessoas deste povo mesmo fora de suas terras, pois são famosos por estarem sempre viajando, talvez uma reminiscência de sua tradição coletora. Entre os Xavante é muito bem definido o papel do cacique, entendido como aquele que estabelece as relações para fora de sua comunidade. Muitos podem pensar que um cacique deste povo seja como um chefe ou dono de empresas, como um prefeito ou governador dentro de sua terra. Contudo, este se parece mais com um primeiro-ministro, visto que as principais decisões tomadas não são monocráticas, mas decididas por um conselho que se reúne diariamente: o warã, a assembleia diária dos Xavante.
Em reuniões noturnas e pela manhã, o warã é o espaço de debates, reflexões e tomada de decisões. Sem pressa, reúnem-se no início da noite e pela manhã. Caso sejam decisões que se refiram a questões para fora da terra indígena, entra o cacique, nosso “primeiro-ministro”.

     
      Lideranças Xavante
       
Interesse coletivo na forma de gestão

Essa forma de gestão coletiva marca algo fundamental do papel de liderança: não se decide tarefas ou questões que digam respeito ao coletivo de forma individual. Dessas características presentes em diversos povos, com suas peculiaridades, podemos entender o que leva muitos líderes indígenas a darem a própria vida em prol da luta por seus direitos.
Poderíamos enumerar uma centena de lideranças indígenas que foram assassinadas na luta pela terra e outros direitos fundamentais que nem sempre eram caciques de seus povos. E cabe aqui reforçar que não é uma figura própria dos povos da forma que conhecemos, mas criadas em alguns casos pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que chegava a dar uma farda velha à pessoa e denominada de “capitão” que, por vezes, era manipulada pelos agentes do SPI. Alguns povos ainda continuam chamando o cacique com o nome de capitão.
Líderes como Marçal de Souza Tupã’i, guarani assassinado em 1983 no processo de luta pela demarcação das terras, foram expulsos pelos projetos de desenvolvimento em Mato Grosso do Sul. É incrível e admirável ver como mesmo consciente dos riscos de morte que corria, verbalizado em entrevistas, Marçal manteve-se firme na defesa da demarcação das terras para seu povo. No exemplo de Marçal, que vamos encontrar em muitos Guarani que seguem em luta por direitos, grita-nos uma marca da liderança indígena: os interesses coletivos.
Em tempos que somos direcionados a pensarmos que cada um deve ser melhor que o outro, que o individual deve prevalecer ao coletivo, que o “meu” deve sobrepor-se ao “nosso”, as lideranças indígenas nos sinalizam a necessidade de mudança de rota.
É com base no egoísmo e nos interesses individuais ou no máximo corporativos que empresas depredam e exploram os bens naturais na busca do acúmulo. Resultante dessa exploração, os bens naturais dos quais dependemos todos correm sérios riscos e com eles nós, haja vista a situação de falta d’água em cidades como São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ), enquanto os rios que poderiam abastecer toda a população estão cada vez mais poluídos.

A filosofia do Bem Viver

O Bem Viver, filosofia que nos trazem os povos indígenas do Equador e da Bolívia, mas também presente nos povos brasileiros, preconiza que só podemos viver bem se vivemos em um mundo em que tenha a abundância dividida, como no aymara qamiri. O ministro boliviano David Choquehuanca, indígena aymara e um dos grandes divulgadores da filosofia do Buen Vivir, resume a perspectiva que nos referimos ao dizer que: “O Bem Viver é a busca da vida em comunidade, onde os integrantes se preocupam com todos. O mais importante é a vida em um sentido amplo, não o indivíduo nem a propriedade. Tal cosmovisão, em busca da harmonia, exige, como é óbvio, a renúncia a todo tipo de acumulação”.
   
 
 David Choquehuanca, indígena aymara. Ministro das Relações Exteriores da Bolívia (janeiro de 2006-janeiro 2017).  

 
Necessitamos de lideranças e de líderes que estejam atentos e dispostos a assumir a construção de um Bem Viver mais amplo, longe das acumulações individualistas e do egoísmo. Essa postura, ética e marcada pelo altruísmo, não é menos do que devemos esperar de nós mesmos e de nós mesmas. Em tempos que se ouve e se fala tanto de corrupção, não podemos nos esquecer de enriquecimentos ilícitos e de acumulação egoísta. Observemos o que a Constituição boliviana fez questão de grafar em seu 8o Artigo: “O Estado assume e promove como princípios éticos-morais da sociedade plural: ama quilla, ama llulla, ama suwa: não sejas preguiçoso, não sejas mentiroso e não sejas ladrão”.
Oxalá possam os bolivianos dar passos firmes na construção de um país que receba a influência positiva dos mais de 60% de sua população indígena, conduzida hoje pelo primeiro presidente indígena de sua história.
Que também nós, brasileiros, possamos contribuir para a construção de uma sociedade em que os líderes sejam reconhecidos por sua ética, verdade, altruísmo e pelo cuidado com os bens coletivos.

* Gilberto Vieira dos Santos
Geógrafo, mestrando em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe pela UNESP.
É membro do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) desde 2004.

Fonte: Edição Nº86 Abr/Jun 2017
Postado por: Diálogo




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