O fundamentalismo cristão

Data de publicação: 16/03/2018

O fundamentalismo cristão no Brasil Colonial

O fundamentalismo, termo associado ao contexto da Conferência Bíblica de Niágara (EUA) no século 19, e à publicação da obra Fundamentos, século 20, é, em sentido lato, um sistema teológico-cristão que tem a bíblia como fundamento para compreensão do mundo. De cunho conservador, ortodoxo e avesso ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso, além de afirmar, de maneira radical e extremista, que a vida fora do cristianismo não faz sentido, que a verdadeira crença de salvação a ser respeitada é a cristã, as outras formas de experiência religiosa, simplesmente são objetos de combate cuja intenção é vencê-las e esmagá-las.
Embora se afirme que o fundamentalismo cristão, com sua gênese nos cristãos de matriz protestante, tenha sua matrícula e formatação vinculadas ao século 19, é possível, já no século 16, aqui no Brasil, encontrar manifestações, mesmo que não possam ser categorizadas explicitamente como atos fundamentalistas. Podemos aplicar, de forma anacrônica, o conceito de fundamentalismo, às ações de evangelização dos primeiros religiosos católicos que aqui chegaram. Tratar do fundamentalismo da cristandade implica em mencionar o papel exercido pelo catolicismo e protestantismo na formação dessa visão teológica de mundo.
É sabido que, entre os séculos 16 e 19, foram trazidos do continente africano para o território brasileiro, à força e na condição de escravizados, aproximadamente 4.000.000 de negros africanos que passaram a conviver com uma realidade totalmente alheia àquelas de onde vieram. Esses negros trouxeram consigo, entre outras coisas, sua religiosidade, seu próprio sentimento do sagrado. Esse modo característico do negro africano expressar a sua crença foi alvo de uma política religiosa sistemática e repressora por parte das autoridades eclesiásticas da época católicas e posteriormente também protestantes.     Sendo assim, podemos dizer que, no Brasil dos primeiros tempos, ou seja, no período colonial de 1530 a 1822, a expressão do fundamentalismo religioso-cristão adquiriu, no tocante ao catolicismo, a forma de evangelização e em relação ao protestantismo, apresentou-se nos moldes de obra missionária.
   
Da proibição ao sincretismo de práticas religiosas
A evangelização, praticada pelo clero católico, no período a cima tratado, tomou um rumo no sentido de sufocar, de impedir toda e qualquer forma de expressão da religiosidade do negro, entendida como satânica e pagã. Essa política religiosa evangelizadora se caracterizava de um modo geral e em alguns pontos, da seguinte maneira: batismo dos escravos, teatralização, monitorização e controle do comportamento religioso dos negros, principalmente, em datas específicas e ênfase na catequese; com isso se pretendia afastar os cativos de suas crenças, trazidas da África e tidas como feitiçarias.
A obra missionária, conduzida pelos religiosos protestantes que chegaram às terras brasileiras ainda no tempo colonial, enfatizava o combate à prática religiosa dos negros escravos, entendida como ritos demoníacos, idólatras e anticristãs. Sendo assim, compreende-se que no Brasil Colonial, o movimento da cristandade, respaldado pelo colonialismo vigente, arvora-se como o detentor da verdade religiosa e em condições absolutas para julgar, sentenciar e condenar ao expurgo as religiões praticadas pelos negros e índios.
A partir da chegada dos negros africanos no Brasil, a religiosidade afro-brasileira vai ganhando, com o tempo, uma caracterização, em virtude da cultura, das crenças do branco e do índio e da mestiçagem, a ponto de, em certos aspectos, serem denominadas de religiões de matriz africana, as quais, de um modo geral, podem ser apresentadas desta forma: batuque, calundu, macumba, candomblé, umbanda, catimbó, tambor de mina, batuque paraense, babaçue e outras tantas denominações. Porém, todas elas foram e são, ainda hoje, objetos de preconceito e discriminação que remontam ao período da colonização. A elas são atribuídas as seguintes qualificações: feitiçaria, bruxaria, magia, religiões do capeta e outras desse gênero.
Na tentativa de reação a esse preconceito de cunho fundamentalista, conseqüentemente, surge o sincretismo religioso. O termo sincretismo tem sua origem no vocábulo grego syncretismós, cuja indicação aponta para estes possíveis significados: acordo momentâneo de duas partes opostas contra um inimigo comum, reunião de diversos estados da ilha de Creta contra um inimigo comum, união de dois cretenses. Do que podemos compreender a partir dessa idéia grega de sincretismo é que ele consiste num acordo passageiro, provisório visando a um objetivo específico, o que significa dizer que alcançado o intento, cessa-se o combinado, isto é, o sincretismo existe enquanto existir um problema a ser resolvido, solucionado o problema, não há mais razão de ser. Nele há a preservação das especificidades daquilo que entra na constituição sincrética, em outras palavras, nas tradições religiosas de matriz africana nunca houve, de fato, sincretismo, pois nunca elas deixaram de ser o que são em suas estruturas fundamentais.
Embora se reconheça o sofrimento das religiões de matriz africana em período histórico passado, é fato, nos dias de hoje, que o preconceito continua atuando, mesmo com o estatuto jurídico como instrumento de combate à intolerância religiosa. É coerente, por outro lado, mencionar que, entre os cristãos, há esforços e mobilizações, da parte de algumas entidades religiosas, no sentido de questionar e discutir as implicações nefastas desse fundamentalismo para as religiões afrobrasileiras.

* Everaldo Lins de Santana
Licenciado em filosofia, doutorando em etnolinguistica africana e professor de filosofia e Ensino Religioso.

Referência Bibliográfica
SANTANA, Everaldo L. A umbanda em rolim de moura (RO) In. Revista Farol, Rolim de Moura, ano V, n0 10, p. 57-73, jul-dez/2009.
_____. Estudo dos vocábulos bantu da tenda de umbanda vovó cambinda. Dissertação de Mestrado em Ciências da Linguagem. Universidade Federal de Rondônia, Guajará-Mirim. RO. 2009.

O sincretismo nas antigas civilizações
O sincretismo faz confluir doutrinas de diversas, porém não contraditórias. Funciona como uma amalgama que busca se adaptar ao ambiente, entretanto não deixa de ser o que é. Para além do campo religioso o sincretismo também acontece entre sistemas filosóficos, nas culturas, nas artes, na literatura. Contudo, no Brasil o termo é usualmente aplicado às religiões de matrizes afro-brasileiras, entretanto o sincretismo é um fenômeno que já existia nas antigas civilizações, tais como a babilônica, persa e grega. E a assimilação não se restringia apenas com relação às divindades, mas se estendia no campo político e cultural.
Herdeiro da tradição judaica, o cristianismo também assimilou o combate interno com relação às crenças religiosas dos povos circunvinhos.  Israel aos poucos baniu de sua tradição algumas práticas consideradas pagãs, tais como o sacrifício de crianças, a idolatria, a prostituição no templo, feitiçaria e cultos de fertilidade. O cristianismo sempre conviveu com outras culturas, e embora não assimilasse o culto às divindades que essas culturas pudem ter, era inevitalvel não absorver práticas de cunho cultural como aconteceu dutante a colonização do continente centro e sul americano cuja constituição do que hoje denominamos de países, integrou uma série de elementos oriundos de culturas amerindia e afro.
O sincretismo não é uma exclusividade do ocidente, nas culturas orientais esse fenômeno também ocorreu, como no caso do budismo que coexiste com o xintoísmo no Japão desde o século 18. Há uma espécie de intercâmbiamento no que diz respeito aos ritos dessas duas tradições, pois a maioria dos japoneses celebraram casamentos e nascimentos segundo os ritos xintoístas e os funerais de acordo com os ritos budistas.

Fonte: Diálogo 65
Postado por: Diálogo




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