O desafio da TV: mediar a diversidade

Data de publicação: 13/04/2018


O objetivo deste artigo é refletir acerca da representação de protagonistas afrodescendentes na mídia, em especial na TV brasileira, e problematizar se tem havido, ou não, maior valorização da cultura africana nos meios de comunicação e se, por consequência, foi reduzido ou não o preconceito racial que historicamente se imputou, ao negro, até mesmo no discurso midiático.
Neste espaço, não é possível aplicar uma metodologia de pesquisa para uma análise quantitativa, mas a intenção é promover o devido reconhecimento dessa parcela da população que na mídia foi obtendo espaços desiguais quando comparada à representatividade da população branca ao longo dos anos. Para tanto, vale lembrar que a TV brasileira, além de informar, agrega um capital simbólico que lhe dá credibilidade, ao promover diferentes discursos que influenciam não só o comportamento da sociedade, mas também as ações do governo e de órgãos públicos que se veem forçados a modificar seus hábitos e a repensar suas ações quando muitas vezes são submetidos ao excesso de exposição. As cobranças por parte das mídias de massa, nesses casos, se tornam fortes aliados da sociedade como porta-vozes contra a impunidade, a injustiça, a corrupção etc.
Conscientes da força midiática no impacto social, cultural e psicológico do indivíduo, lançamos luz ao fato de que as imagens divulgadas na mídia, além de estarem impregnadas de interesse econômico, o estão igualmente de estereótipos sociais diversos, além de estigmas e ideologias que se manifestam muitas vezes de forma velada em seus discursos.

O conteúdo televisivo
O Brasil é um país mestiço, resultado da miscigenação de culturas e etnias distintas. Todavia na TV ainda se observa o pensamento clássico dos países mais industrializados, que perpetua modelos de comportamento ávidos pela hegemonia, pela pureza, pela identificação do igual. Dito de outro modo, a televisão ainda exclui o diferente, ao disseminar modelos de excelência a serem seguidos em todas as esferas sociais.  A prática social que se legitima na cultura e é vivida no cotidiano, festas, músicas, danças, esportes, literaturas, espetáculos, culinária, religiões, dentre tantas gamas de caracteres, se efetiva no âmbito das diversidades e deveria estar alicerçada no discurso que se refere à igualdade de direitos para todos: moradia, saúde, lazer, escolarização e trabalho, por exemplo.
Esse multiculturalismo que exige de cada um o respeito e a tolerância para com o diferente pode ser de forma assertiva ainda mais veiculado dentro da grade de programação da TV, visto que esta por sua capacidade educativa pode estimular e consolidar ações voltadas às mudanças de atitudes.
Na televisão brasileira, observa-se um excesso de conteúdos, em especial na TV aberta, pois os canais fechados têm custo inviável para a maioria da população, mesmo que, com  o crescimento da economia, se veja maior adesão ao sistema fechado.  Os mais variados públicos são alvos das programações que transitam entre o conteúdo esportivo, novelas, animações, humor, programas de documentário, além dos gêneros jornalísticos, todos de grande importância para a formação da opinião pública. Entendendo que a televisão transcende o aspecto de transmissão de conteúdos e que pode exercer a função de mediadora, capaz de reafirmar o respeito à diversidade cultural, pode-se aferir que o conteúdo deveria levar em conta a heterogeneidade social e valorizar os diferentes aspectos da cultura, em vez de tentar unificar suas vastas expressões com programas que manifestam a predominância de uma cultura em detrimento de outra.
A expectativa é de um modelo de comunicação que exerça o papel de meio integrador da cultura e possa diminuir a discriminação e o preconceito sofridos pela população afrodescendente sedimentada nos estereótipos histórica e socialmente construídos sobre o negro escravizado. Então, as ideologias dos conteúdos midiáticos que privilegiam a matriz europeia passariam a destacar as diferenças culturais dentre as tantas riquezas da população brasileira. Na transmissão das tradições culturais como ritos, histórias, e outros conteúdos plurais pela comunicação de massa, as desigualdades poderiam ser corrigidas. Os papéis de representação nos roteiros e nos conteúdos televisivos poderiam criar diferentes espaços de visibilidade da população afro-brasileira, não sob o prisma do exótico e do folclórico, mas como uma construção humana plena de significados e de importância para a promoção do equilíbrio, do respeito e da igualdade de condições. 


Mudanças positivas na TV

É importante lembrar que vem crescendo a participação de protagonistas negros na televisão, porém ainda são apenas 5,5% os apresentadores e profissionais afrodescendentes que aparecem no vídeo. Mas isso deve e tem que mudar, especialmente porque a inserção e a presença da cultura negra vêm crescendo em várias áreas, quer na publicidade e nas programações, quer nos roteiros televisivos e nos filmes. Este avanço que começa na dimensão social e política com a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e com as ações do Ministério da Educação, em especial a Lei 10639 que institui o ensino sistemático de história e cultura afro-brasileira e africana na Educação Básica. Tudo isso se reflete nos meios de comunicação.
Embora nas grandes emissoras do País ainda sejam escassos os esforços para ampliar a diversidade étnica, percebemos que de forma tímida no drama televisivo nacional vem ocorrendo um período de ascensão que faz aumentar a visibilidade dos temas relacionados à exclusão do negro.
O livro A negação do Brasil – O negro na telenovela brasileira, escrito pelo diretor e roteirista de TV Joel Zito Araújo (Zulu), traz uma importante contribuição acerca da teledramaturgia brasileira desde o seu início e da imagem relacionada ao negro presente nos ambientes midiáticos. Para o autor, a nossa diversidade racial e cultural aparece nas telenovelas como uma negação da miscigenação, e a identidade de "branquitude" predomina nas mídias. Todavia, Zito Araújo evidencia que, nos anos 1980 e 1990, algumas mudanças começaram a ocorrer na TV, especialmente com a telenovela
Corpo a corpo, em que a discussão sobre preconceito racial começava a ser apontada.
Desde então, longe de ser ideal, despontaram a presença dos afrodescendentes: nas novelas Da cor do pecado, Viver a vida e no seriado como Antônia, por exemplo, que abordou o universo feminino. Outros programas poderiam ser citados, como: Castelo Rá-Tim-Bum, uma produção infantil que destacou a participação da garota negra conhecida como Biba. Mas, independentemente da análise crítica sobre tais programas, o que penso ser importante destacar é que a presença dos negros na TV é de fundamental importância, especialmente para a construção da autoimagem positiva acerca deles próprios, que começa na infância. A ideologia do “branqueamento”, que reforça o ideal de beleza baseado na cor da pele, precisa com urgência mudar de foco e valorizar tanto o afrodescendente assim como outras etnias, negando, sim, e rejeitando o que a sociedade carrega como marcadores de diferença: classe, etnia, região, idade, cor da pele. 
Enfim, o que vale é deixar registrado que, nos meios de comunicação do Brasil, é imprescindível  uma mudança ideológica que mostre nos telejornais, nos programas de auditório, nos programas esportivos, nas entrevistas, nos reality shows, nas programações infantis etc., “a cara” do País, com toda a sua gama de diversidade racial. Eis o desafio para a TV ser mediadora de toda forma de discriminação e preconceito. Entendendo que o preconceito é um sentimento perverso que anula os direitos sociais e inicia uma exclusão danosa em todos os âmbitos da vida social.

Reflexões conclusivas

Devido à amplitude da discussão acerca da cultura negra e tendo em vista o propósito dessa reflexão, não esgotamos o assunto, longe disso, a preocupação foi registrar algumas considerações para a continuidade do diálogo acerca da representação dos negros na televisão brasileira da atualidade. Na produção ficcional da TV, crescem, para além da cultura negra, discussões importantes envolvendo temas como etnias, gênero, preconceito etc. “Continuam vivendo as mesmas compulsões desagregadoras de uma autoimagem depreciativa, gerada por uma identidade racial negativa e reforçada pela indústria cultural brasileira, que insiste simbolicamente no ideal de branqueamento”, como pontua Zito Araújo, em seu livro.

* Isabel Orestes Silveira
Doutora em Comunicação e Semiótica. É professora nos cursos de Propaganda, Publicidade e Criação da Universidade Presbiteriana Mackenzie e na Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (Fapcom), – ambas em São Paulo (SP).
 

Referência
ARAúJO, Joel Zito.  A negação do Brasil: O negro na telenovela brasileira. São Paulo: Serviço  Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), 2000.

Fonte: Dialogo 69 Fevereiro/Abril de 2013
Postado por: Diálogo




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