Literatura e religião na história do Brasil

Data de publicação: 18/06/2018




Há relações profundas entre as artes e as religiões. No passado mais remoto – e até os dias de hoje em diversas culturas –, não havia separação entre elas. E mesmo na atualidade, no mundo ocidental, ainda que separadas, há muitos pontos que as unem.

Primícias do espírito humano
O filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) define a arte e a religião, ao lado da filosofia, como as criações mais elevadas da humanidade. Coloca-as acima de todas as outras, inclusive das ciências particulares. Vai, assim, contra a ideologia dominante do seu tempo, que ainda predomina no nosso. Ele as chama de Espírito Absoluto, não porque sejam absolutas em si, mas por serem elas que abrem ao ser humano a perspectiva do absoluto, do sentido da vida.
Sem entrarmos em maiores discussões sobre questões filosóficas, é fato que essas criações humanas falam, de alguma maneira, sobre a mesma coisa, ainda que o façam de formas diferentes, como diz Hegel. A filosofia usa o discurso racional conceitual; a religião utiliza a representação; e a arte, a intuição.
Assim como não existe uma ciência do particular, não existe uma arte do universal. Ela é sempre uma representação que nasce da intuição direta de algo particular. Se em relação às outras artes, isto pode de alguma forma ser questionado a partir da arte do século 20, parece que, no que se refere à literatura, o mesmo não se dá. A definição hegeliana continua plenamente válida para ela.
Ao representar seres humanos, ou aspectos destes, em sua concretude individual, a literatura põe sempre, ainda que implicitamente, a pergunta sobre o sentido da existência. Assim, fale ou não explicitamente sobre questões filosóficas ou religiosas, ela tem sempre algo a ver com as grandes indagações.

Literatura a serviço de um pensar religioso
Pensemos na literatura brasileira, de um modo específico, nas questões religiosas, em nossas obras literárias. Basta um rápido olhar para vermos como a religião é constante. Se pensarmos a literatura como expressão privilegiada de uma cultura, não poderemos, evidentemente, pensar a Carta de Pero Vaz de Caminha como literatura brasileira, já que foi escrita antes do nascimento do Brasil. Por outro lado, ela fala exatamente deste “nascimento” e do espírito religioso que o conduziu.
A carta revela um uso ideológico – no pior sentido do termo – da religião. É fácil ver nela a defesa, de camoniana memória, de um processo de “dilatação da fé e do Império”. Na narrativa de viagem pelos mares até a terra que será batizada inicialmente como Ilha de Vera Cruz, pode-se encontrar certo discurso cristão –, não o melhor, com certeza, mas o dominante em Portugal na época – marcado pela fé na providência divina e pela fidelidade ao Rei e ao país cristão.
Não é o caso, pelo limite deste artigo, de fazermos uma análise dessa questão no texto de Caminha. O que podemos fazer é indicar o constante imbricamento de um discurso que revela os interesses econômicos ostensivamente mostrados, com um discurso religioso, que, pelo menos na explicitação teórica, tem como principal motivo da viagem a pregação cristã e o intuito de angariar almas para Cristo. Trata-se, evidentemente, de um discurso que corrompe o que há de melhor na mensagem cristã.

Quem não tem alma não é gente
Depois de Caminha, diversos outros cronistas e viajantes escreveram sobre o Brasil, e em quase todos há alguma presença do discurso cristão. Um aspecto importante a se destacar em diversos desses relatos é o pressuposto de que os índios não têm religião. Esta percepção tão profundamente equivocada já indica os graves erros que marcaram os encontros e “diálogos” culturais e religiosos entre a Europa e os povos das Américas.
Um trabalho interessante é o texto “Diálogo sobre a conversão do gentio”, do padre jesuíta Manuel da Nóbrega. É, de alguma forma, obra de ficção, já que o diálogo é travado entre dois personagens criados pelo autor. Como o título indica, eles discutem sobre a possibilidade ou não dos índios do Brasil serem cristãos. Há, ao longo do diálogo, uma série de equívocos, próprios da época, sobre o que seriam os índios e sua cultura, ou, mais propriamente, sua não cultura, já que nem era considerada como tal. Os dois interlocutores discordam sobre se os índios teriam alma ou não. O interlocutor que representa a posição do Jesuíta tem certeza que sim e consegue demonstrar sua crença.
Vista fora de seu contexto, esta pode parecer uma discussão inútil, sem valor. Na época, porém, o que estava em jogo e que continuará presente ao longo de séculos, em nossa história, era o problema da escravidão indígena. Os princípios universalistas cristãos, ao afirmarem a igualdade de todos os seres humanos, ao negarem qualquer diferença de natureza, desautorizam qualquer justificativa de escravidão. Assim, os europeus buscam legitimar essa prática com a teoria da não humanidade dos índios. Nóbrega, como também Bartolomeu de Las Casas, em Cuba, opõe-se a essa teoria. O que poderia parecer uma obscura disputa metafísica encerrava questões políticas e econômicas de grande relevância. 

O ideal da primeira literatura brasileira
É ainda entre os Jesuítas que se irá encontrar o primeiro autor propriamente literário, ainda no século 16, o padre José de Anchieta, chamado por Antonio Cândido de o Patriarca da Literatura Brasileira. Isso não significa que não houvesse erros e condicionamentos históricos em seu discurso e sua prática, característica inerente a todo discurso humano. Mas há nele uma boa-fé evidente e um desejo real de levar a todos, de modo muito específico aos nativos com quem convive, o conhecimento do Deus professado pela fé cristã.
Anchieta escreve basicamente três gêneros: cartas, autos e poesias. Os autos são os que mais revelam os limites de sua prática literária. Na verdade, mais que arte, eles são de fato textos catequéticos que impõem aos índios a visão de mundo do autor. Já em sua poesia, não. Falo principalmente de sua poesia lírica, que é, realmente, poesia autêntica, que expressa – sem querer se impor – a visão de mundo do autor e seus profundos sentimentos religiosos. Em suas cartas – que são longas narrativas –, também podemos ver um cristão que procura viver os seus valores.  
Como diz muito bem o crítico José Guilherme Merquior, os Jesuítas, ao contrário da coroa portuguesa – que só queria tirar tudo o que pudesse da nova terra –, tinham um projeto para o Brasil, fazer dele uma grande nação cristã; infelizmente,  apesar da boa vontade, eles não tiveram sensibilidade, ou condições históricas, para respeitar as especificidades daquelas novas culturas e religiões que estavam conhecendo. Isso apesar da intuição profunda de alguns deles, como o próprio Anchieta, que chegou não só a aprender o tupi, mas a escrever uma gramática em tupi.

* Paulo César Carneiro Lopes
Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) e professor na Universidade Camilo Castelo Branco e na Faculdade Guaianás, em São Paulo. Autor, entre outros, dos livros Utopia cristã no sertão mineiro (Vozes), Dialética da iluminação – ensaios sobre Guimarães Rosa – (Nankin), e Pode um cristão ser budista? (Paulus).

Referências
BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Cia das Letras, 1992.
CANDIDO, Antonio. Iniciação à literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2004.
OLIVEIRA, Antônio Carlos; VILLA, Marco Antônio. Cronistas do descobrimento. São Paulo: Ática, 2000.
PORTELLA, Eduardo. José de Anchieta (col. Nossos clássicos). Rio de Janeiro: Agir, s/d.
VOGT, Carlos; LEMOS, José Augusto Guimarães de. Cronistas e viajantes (col. Literatura comentada). São Paulo: Abril, 1982.


Ensino Religioso e literatura

É possível encontrar, entre os clássicos da literatura brasileira, obras adequadas ao conhecimento da diversidade do Fenômeno Religioso. As obras de José de Alencar, por exemplo, de modo particular O guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874), descrevem costumes, crenças e ritos indígenas. Outros autores referem-se, em seus romances, a ritos religiosos de resistência dos africanos escravizados. 
O livro Ubirajara, no capítulo intitulado “A hospitalidade”, descreve como o guerreiro Ubirajara, chefe da nação Araguaia, é recebido com honras ao visitar Itaquê chefe dos Tocantins. A cerimônia é essencialmente religiosa, e essa dimensão da literatura pode ser explorada na aula de Ensino Religioso.

A hospitalidade
Itaquê passava as horas da ardente calma à sombra da frondosa gameleira, que podia abrigar 100 guerreiros embaixo de sua rama. Repousando dos combates, o formidável guerreiro não desdenhava as artes da paz em que era tão consumado como nas batalhas. Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo do trabalho à família de que era pai, e à nação de que era chefe.
– O estrangeiro veio à cabana de Itaquê, grande chefe da nação tocantim – disse Ubirajara.
– Bem-vindo, é o estrangeiro à cabana de Itaquê, grande chefe da nação Tocantim – Então o tuxaua voltou-se para Jacamim, a mãe de seus filhos:
– Jacamim, prepara o cachimbo do grande chefe para que ele e o estrangeiro troquem a fumaça da hospitalidade.
Os mensageiros já corriam pela taba, avisando os guerreiros moacaras da vinda do hóspede à cabana de Itaquê.
Os moacaras, revestidos de seus ornatos de festa, encaminharam-se com o passo grave à oca principal, a fim de honrar o hóspede do grande chefe da nação Tocantim. Ali chegados, cada um dirigiu ao estrangeiro a pergunta da hospitalidade e deu-lhe as boas-vindas.
Depois que Itaquê ofereceu a Ubirajara o cachimbo da paz, e com ele trocou a fumaça da hospitalidade, os cantores entoaram a saudação da chegada:
“O hóspede é mensageiro de Tupã. Ele traz a alegria à cabana; e, quando parte, leva consigo a fama do guerreiro que teve a fortuna de o acolher.
Nas tabas por onde passe e na terra de seus pais, ele conta aos velhos, que depois ensinam aos moços, as proezas dos heróis que viu em seu caminho e de quem recebeu o abraço da paz.
O hóspede é mensageiro de Tupã. Ele traz consigo a sabedoria; na cabana do guerreiro, que tem a fortuna de o acolher, todos o escutam com respeito.
Em suas palavras prudentes, os anciãos da taba aprendem, para ensinar aos moços, os costumes dos outros povos, as façanhas de guerras desconhecidas por eles e as artes da paz, que o estrangeiro viu em suas viagens.
O hóspede é mensageiro de Tupã. O primeiro que apareceu na taba dos avós da nação Tocantim foi Sumé, que veio donde a terra começa e caminhou para onde a terra acaba.
Dele aprenderam as nações a plantar a mandioca para fazer a farinha; e a tirar do caju e do ananás o generoso cauim, que alegra o coração do guerreiro.
O hóspede é mensageiro de Tupã. Quando o estrangeiro entra na cabana, o guerreiro que tem a fortuna de o acolher não sabe se ele é um chefe ilustre ou o grande Sumé que volta de sua viagem.
O sábio ensina, por onde passa, os segredos da paz, e o herói, as façanhas da guerra; mas ambos deixam, na cabana da hospitalidade, a glória de ter abrigado um grande varão.
O hóspede é mensageiro de Tupã. Por seu caminho vai deixando a abundância e a festa; depois do banquete de boas-vindas, as árvores vergam com os frutos e a caça não cabe na floresta.
A cabana, que fecha a porta ao hóspede, o vento a arranca, o fogo do céu a abrasa. O guerreiro, que não se alegra com a chegada do hóspede, vê murchar ao redor de si a esposa, os filhos, as mulheres e as roças que ele plantou.
Bem-vindo seja o estrangeiro na cabana de Itaquê, o grande chefe da nação Tocantim, que teve a glória de ser escolhido pelo hóspede.
Os guerreiros exultam com a honra de seu chefe, e os cantores te saúdam, mensageiro de Tupã.” (Ubirajara – A hospitalidade)
O rito de boas-vindas fundava-se no mito de origem do povo Tocantim. Um espírito benfeitor chamado Sumé criou tudo o que existe na terra e voltou para junto de Tupã. Talvez um dia ele volte, e quem recebe um desconhecido pode estar acolhendo em casa o próprio espírito ancestral sem o saber. 

Fonte: Dialogo 73 Fevereiro/Abril de 2014
Postado por: Diálogo




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