Transposição didática

Data de publicação: 06/08/2018

Transposição didática da Ciência da Religião ao Ensino Religioso

O Conselho Nacional de Educação reconheceu nas Diretrizes para o Ensino Fundamental (1998 e 2010) a relação entre o saber científico e o saber escolar. Nessa discussão, destaca-se para o Ensino Religioso uma teorização situada entre dois saberes. Um é elaborado por pesquisas, teses e projetos realizados nas universidades brasileiras. O outro é produzido pelos professores da Educação Básica que propõem objetivos, selecionam conteúdos, definem estratégias e articulam o processo de ensino e aprendizagem.

O percurso histórico é fundamental
A compreensão do Ensino Religioso consolidado sobre uma área acadêmica só é possível mediante a leitura da evolução histórica da disciplina, que, praticada como “aula de religião”, produziu até a metade do século 20 uma metodologia conteudista vinculada à doutrina católica. Depois evoluiu para a proposta ecumênica e, finalmente, para a proposição inter-religiosa. Ao mesmo tempo as diferentes pedagogias ativas e interacionistas do século 20 investigaram a escola como local de produção de conhecimento original e de uma cultura escolar. 
A secularização da sociedade e a nova configuração da disciplina exigem um novo perfil do profissional docente, ao lado de outros recursos didáticos que provenham da antropologia e da cultura pluralista. Dessa forma, o estudo das prioridades que orientam a prática pedagógica é também uma das atribuições da didática, que deve fornecer referências para as propostas de conteúdo da educação.

Todo saber escolar vincula-se à ciência
Uma das fontes de seleção do saber na escola é a própria história das ciências, que, em sucessivas transformações, fornece a parte essencial do conteúdo curricular. A noção de transposição estuda a seleção, que é resultado de uma rede de envolvimento dos diversos segmentos do sistema educacional. Um conteúdo do conhecimento científico acadêmico, ao ser designado “saber a ensinar”, sofre adaptações que o tornam apto a figurar entre os objetos de ensino da escola. O trabalho de transformar um “saber a ensinar” em um objeto de ensino é chamado de transposição didática.
O estudo da trajetória dos saberes permite visualizar suas fontes de influência, que passam pelo saber científico e por outras áreas do conhecimento humano. São influências que redefinem aspectos conceituais e reformulam a apresentação do conteúdo. O conjunto das fontes de influências na seleção dos conteúdos, do qual fazem parte cientistas, professores, especialistas, políticos, autores de livros e outros agentes, interfere no processo educativo e no funcionamento de todo o sistema didático. O trabalho seletivo resulta não só na escolha de conteúdos, como também na definição de valores, objetivos e métodos, que orientam o sistema de ensino.

Da Ciência da Religião ao Ensino Religioso
Para a construção do componente curricular Ensino Religioso, tem-se como referencial a Ciência da Religião, área acadêmica que valoriza o pluralismo e a diversidade cultural da sociedade brasileira e favorece a compreensão das formas que exprimem a diversidade religiosa. Para tal, é preciso proporcionar o conhecimento dos elementos básicos do Fenômeno Religioso e possibilitar esclarecimentos sobre o direito à diferença na construção de estruturas religiosas que têm na liberdade o seu principal valor.
A transposição didática no campo do Ensino Religioso é diferente do que ocorre com os outros componentes curriculares. Estes possuem ciências de referência que originaram os respectivos cursos de licenciatura, nos quais a ciência orienta os conteúdos; e a área de educação, as disciplinas pedagógicas. Assim, os profissionais partem das experiências de sala de aula e reconstroem os saberes aplicados, realizando uma produção de conhecimento, o que, nesse caso, é mais do que uma perspectiva de simples transposição. Isto não ocorria até pouco tempo, com o Ensino Religioso.
O Ensino Religioso ainda precisa de uma construção estrutural e de uma explicitação de um objeto de estudo que o vincule a uma ciência de referência e o torne apto a dialogar com os elementos pedagógicos, permitindo uma estrutura em que a linguagem e o objeto estejam explícitos. Só assim a disciplina pode enfrentar situações, construir argumentos e elaborar propostas que contribuam para a leitura e a interpretação da realidade e a participação autônoma do cidadão na sociedade.
O espaço da escola é, com certeza, um dos lugares consagrados à formação do indivíduo e à sua integração numa comunidade de iguais. Neste espaço, é possível criar um sentimento de pertença a uma identidade mais abrangente do que a família, por exemplo. Cada escola pode hoje elaborar criativamente o seu projeto de educação, permitindo forjar o espírito crítico e as escolhas de modo autônomo. Este percurso culminará na discussão entre a Educação Básica e o Ensino Superior e, para o Ensino Religioso, valem as reflexões e estudos sobre onde sustentar o modelo estabelecido na Lei 9.475/97 (revisão do Artigo 33 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação).

A necessidade de transposição nasceu dos professores
O processo de esclarecimento sobre o vínculo entre a Ciência da Religião e o Ensino Religioso teve início formal com o 9º Seminário Nacional de Capacitação Profissional para o Ensino Religioso, que ocorreu em 2006, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC - SP). A discussão girou sobre três eixos, Educação, Ciência da Religião e Licenciaturas, e culminou em três textos, sendo o de maior relevância, o que trata da árvore do conhecimento, proposto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela Associação Nacional de Pós-graduação e pesquisa em Teologia e Ciência da Religião (ANPTECRE), os quais foram referendados pela Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter) e pela Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR) em 2013.
O processo, que formalmente foi articulado em dezembro de 2011, com o encontro entre os membros da Diretoria, da Comissão Científica da ANPTECRE e da Comissão Ad Hoc sobre a “Árvore do Conhecimento”, levou a uma solução de consenso sobre o tema, dando origem à última comissão citada. Foi o que motivou a urgência de uma decisão pragmática sobre o redesenho da área. O encontro teve em vista o pleito pela independência da área de conhecimento de Teologia e Ciência da Religião, junto à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que culminou com a proposta do Ensino Religioso na Educação Básica como aplicativo da área acadêmica da Ciência da Religião.
É necessário considerar, no entanto, que em todo esse percurso, em paralelo a essa construção, sempre persistirão outras leituras e formatações para o componente curricular Ensino Religioso.

* Sérgio Junqueira
Professor titular, livre-docente e pós-doutor em Ciência da Religião. Doutor e mestre em Ciências da Educação, pedagogo e líder do Grupo de Pesquisa Educação e Religião (GPER), da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).


Referências
ANPTECRE. Reunião da Assembleia dos Coordenadores. Brasília: ANPTECRE, 2012.
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Resolução CEB 004/98. Brasília: CNE, 1998.
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Resolução CNE/CEB 07/2010. Brasília: CNE, 2010.
ERN, Edel; AIRES, Joanez A. Contribuições da história das disciplinas escolares para a história do ensino de ciências. In. Educação e realidade, n. 32, jan/jun. 2007, 91 a 108.
JUNQUEIRA, Sérgio; WAGNER, Raul. O Ensino Religioso no Brasil. Curitiba: Champagnat, 2011, 2ª. ed.
LEITE, Ângelo. A forma escolar e a produção das disciplinas escolares como objeto de investigação sócio-histórica. In: Escritos Educacionais v. 4, n. 2, 2005, 1-11.
MARANDINO, Martha. Transposição ou recontextualização? Sobre a produção de saberes na educação em museus de ciências. In. Revista de Educação. n. 26. Mai/Ago. 2004, 95-181.
PASSOS, João Décio. Ensino Religioso: construção de uma proposta. São Paulo: Paulinas, 2007.
PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (orgs.) Compêndio de Ciência da Religião. São Paulo: Paulinas, Paulus, 2013.

Fonte: Dialogo 73 Fevereiro/Abril de 2014
Postado por: Diálogo




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