Poesia no Ensino Religioso

Data de publicação: 16/08/2018


É a arte que nos convence de que o mundo em que vivemos não é o único mundo possível.
Nabor Nunes Filho

Pensei comigo mesmo, falando com o “eu” interior: Será que a arte imita a vida? Ou a vida imita a arte? Ainda melhor: Será que a poesia adentra na religião? Ou não há relação entre as duas? E no Ensino Religioso, pode-se praticar literatura e poesia focadas na diversidade? Ou é impossível?
Indagações didáticas como essas dariam um belo discurso em um congresso!

A poesia no âmbito literário
É necessário ter olhares diversificados para se chegar a respostas coerentes. Falando em literatura e poesia, em primeiro lugar precisamos entender algumas funções básicas da teoria da linguagem. Ela é referencial, tem por função expressar o conhecimento de um conteúdo, de uma realidade; é porém, emotiva, porque dá vazão a expressões pessoais como entonação de voz, interjeições e projeções sonoras; é também conativa, quando faz um apelo direto que estimula e impulsiona quem a escuta; é ainda fática, enquanto cria um contato linguístico propício a um diálogo; é metalinguística, capaz de esclarecer e explicar as próprias expressões da linguagem; e, por fim, é poética, porque pode veicular a forma máxima da arte de dialogar.
A poesia é a prática da alteridade, faz viver no outro, sentir o outro e conviver com o outro, é a chave da integração de nós mesmos na construção de um diálogo eficaz. Ainda antes da linguagem poética, que é um dos suportes lúdicos do diálogo, cada ser humano tem capacidade para reconhecer o valor do outro. Estar ciente de si mesmo e expressar-se na arte literária é valorizar o outro com quem se dialoga, levando-se em consideração todas as funções da linguagem e, para além delas, vendo os outros   como companheiros existenciais.   
A oralidade e a escrita, historicamente inseridas nos contextos da diversificada cultura religiosa, hauriram das religiões e nelas fortaleceram as funções da linguagem, que, de certo modo, são igualmente funções da religião. Sendo que cada tradição religiosa tem nelas as suas representações simbólicas e seus modos peculiares de se expressar e manter uma identidade própria na pluralidade cultural do mundo.

A serviço da liberdade
A construção poética não é uma prática apenas dos educadores das disciplinas Língua Portuguesa e Literatura. Ela pode e precisa permear o Ensino Religioso de modo interdisciplinar. Enquanto arte, a poesia será um elemento motivador da manifestação da espiritualidade e da experiência religiosa no âmbito plural da sala de aula, facilitando, de acordo com o Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (Fonaper), a “tarefa de buscar fundamentos para o Ensino Religioso” e “fundamentar o Fenômeno Religioso, que torna o ser humano capaz de construir-se na liberdade”.
O estudante traz para a escola a complexidade de um mundo interior somente seu, que muitas vezes faz com que as perguntas sobre a existência humana e a relação com o Transcendente sejam silenciadas. É tarefa imprescindível do educador de Ensino Religioso encorajá-lo, respeitando sua liberdade e seu processo educacional e ajudando-o a superar os diversos medos e condicionamentos que não lhe permitem se expressar.
A sabedoria e a habilidade do educador contribuem para que se instaure na sala de aula um clima de segurança favorável à criatividade e à motivação. Só em tal ambiente os estudantes conseguem desenvolver, de modo lúdico e confiante, o processo de conhecimento que levará ao diálogo inter-religioso com o educador, os colegas de classe, a comunidade escolar e a sociedade.  Essa ação educativa vai além dos muros do cotidiano da escola e das tradições religiosas, pois sabemos que cada pessoa carrega em si mesma, por onde for, sua espiritualidade pessoal, independentemente de estar ou não comprometida com a pertença a uma instituição religiosa. 
Enquanto técnica interdisciplinar de conhecimento, a poesia pode mediar o aluno na relação com o Transcendente, em perspectiva antropológica e cultural. E como ação educativa, pode dar-lhe instrumental para conhecer melhor a si mesmo e ao outro. O fruto desse conhecimento e dessa educação é uma espiritualidade que abrange uma visão de mundo e inspira o exercício da cidadania e da consciência crítica na sociedade.

Na prática
As possibilidades comprovam que a poesia no Ensino Religioso pode interagir com a diversidade, incentivando o respeito a todas as crenças existentes em sala de aula.
A natureza estética e universal da linguagem poética oferece inumeráveis possibilidades de inserção desse gênero literário nas atividades de Ensino Religioso. Em consonância com a faixa etária dos estudantes, pode-se propor, desde a elaboração de textos poéticos, a respeito de conteúdos e valores da disciplina, até pesquisas sobre os acervos poéticos dos textos sagrados e dos ritos das tradições religiosas. Cada tradição  faz seu uso próprio da linguagem poética, o que traz uma oportunidade de conhecer as diferentes formas literárias. E ainda, segundo Adecir Pozzer, Elcio Cecchetti e Simone Koch Riscke, “reconhecer que todas as culturas, embora internamente diversas, possuem saberes e valores próprios que constituem fonte para o desenvolvimento humano, educando para o diálogo intercultural”.
O poeta português Fernando Pessoa disse que a arte consiste em fazer os outros sentirem o que nós sentimos. Já para o literato gaúcho Mário Quintana, a máxima arte é simplesmente “viver e conviver”. Simplesmente? Mas, como é difícil!
Difícil, sim, porém apaixonante, é a arte de criar no espaço do Ensino Religioso, “diálogos que buscam a graça da convivência entre pessoas de leituras e concepções religiosas diferentes, não em decorrência de suas semelhanças, mas com as suas diferenças”, elucidam  Adecir Pozzer, Elcio Cecchetti e Simone Koch Riscke. A arte não imita a vida nem a vida imita a arte. Mas, tudo se torna novidade e criatividade, quando damos novos significados aos conceitos de poesia, religião e Ensino Religioso.
*Ricardo Oliveira
Poeta e cronista, graduado em Ciências da Religião e licenciado em Ensino Religioso pelo Centro Universitário Municipal (USJ), de São José (SC).

Referências
CARVALHO, Mariano Vinícius de. Religião e literatura: Algumas inter-relações possíveis. Numen: Revista de Estudos e Pesquisa da Religião, Juiz de Fora. v. 4, nº.1, p. 31-59.
FILHO, Nabor Nunes. Arte: A religião de corpo inteiro. In DIÁLOGO – REVISTA DE ENSINO RELIGIOSO.  São Paulo: Paulinas, nº. 33, fevereiro de 2004, p. 12.
Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (Fonaper). Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso. São Paulo: Mundo Mirim, 2009, p. 34.
POZZER, Adecir; CECCHETTI, Elcio; KOCH, Riske Simone. Ensino Religioso em Santa Catarina: Exercícios na perspectiva de uma educação intercultural. In Cultura e diversidade religiosa na América Latina: pesquisas e perspectivas pedagógicas. Lilian Blanck de Oliveira (organizadora). Blumenau: Editora da Universidade Regional de Blumenau, Edifurb, São Leopoldo: Nova Harmonia, 2009, p. 275 e 266, respectivamente.

Fonte: Dialogo 75, Agosto/Setembro 2014
Postado por: Diálogo




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